Um ator que não filmou, uma performance que não existiu — e um cinema que talvez já não precise mais da presença humana.
Há algo profundamente perturbador — e ao mesmo tempo estranhamente comovente — na primeira imagem divulgada de As Deep as the Grave. Na foto, Val Kilmer aparece como o Padre Fintan, um sacerdote católico e espiritualista nativo-americano perdido nos cânions do Arizona.
O olhar é familiar. A presença, inconfundível. Só que Val Kilmer morreu em abril de 2025. E não filmou uma única cena sequer.
O que estamos vendo, portanto, não é um ator. É uma hipótese gerada por algoritmo — uma reconstituição de pixels, padrões vocais e imagens de arquivo autorizadas pela própria família.
Kilmer havia sido escalado para o papel cinco anos antes de sua morte, mas o câncer de garganta que o afligia o impediu de chegar ao set.
A produção, sem orçamento para refilmar e sem coragem para simplesmente recastar, encontrou uma terceira saída: ressuscitá-lo digitalmente, com o aval dos filhos e do espólio. A polêmica que se seguiu não é sobre tecnologia. É sobre o que acreditamos que um ator é.
A performance como presença irrepetível
A teoria da performance no cinema sempre operou sobre uma premissa silenciosa: o corpo do ator importa. Não apenas como suporte da ficção, mas como lugar de risco, de vulnerabilidade, de escolha.
Quando Marlon Brando enchia a boca com algodão para interpretar Vito Corleone, havia ali uma decisão física, irrepetível, que pertencia apenas àquele instante diante da câmera.
Quando Klaus Kinski entrava em colapso nas filmagens de Fitzcarraldo, o que Herzog captava era — literalmente — um corpo à beira do limite.
Roland Barthes diria que Punctum é o detalhe que fere, que escapa ao controle, que não pode ser programado. A IA, por definição, não pode produzir punctum. Ela produz studium — aquilo que é reconhecível, esperado, culturalmente legível.
O rosto de Kilmer gerado por generative AI é identificável como Kilmer. Mas será que é Kilmer atuando?
A questão não é retórica. A performance construída em As Deep as the Grave combina imagens de arquivo, materiais fornecidos pela família e gravações de diferentes fases da vida do ator, incluindo registros do período em que sua voz já havia sido afetada pelos procedimentos cirúrgicos.
Há, portanto, material real sendo processado. O que a IA faz é montar, interpolar, completar. É curadoria de uma presença que existiu — não criação de uma presença nova. Isso não resolve o problema filosófico, mas o torna consideravelmente mais complexo do que a rejeição imediata permite enxergar.
O consentimento como nova fronteira do corpo cinematográfico
O argumento central dos realizadores — e o único que, honestamente, tem peso moral — é o do consentimento retroativo.
Coerte Voorhees afirmou que o suporte da família foi o que lhe deu confiança para prosseguir: “Isso é o que Val queria”, disse o diretor, mesmo reconhecendo que “algumas pessoas podem chamar isso de controverso”.
Mercedes Kilmer foi além: declarou que o pai acreditava no projeto e via a tecnologia como uma forma de expandir as possibilidades do cinema.
Isso não é detalhe menor. Val Kilmer já havia cruzado essa fronteira em vida.
Quando retornou ao papel de Iceman em Top Gun: Maverick, em 2022, o ator havia firmado parceria com a empresa Sonantic para criar uma voz sintética, já que os procedimentos cirúrgicos haviam danificado permanentemente sua capacidade vocal.
Naquele momento, ele mesmo disse ser “grato” à tecnologia. A IA não lhe foi imposta: foi uma ferramenta que ele escolheu para continuar existindo artisticamente quando o corpo já não colaborava.
Essa trajetória transforma o caso Kilmer em algo mais do que mais um episódio na guerra cultural sobre inteligência artificial em Hollywood. Ele é, talvez, o primeiro caso em que a IA aparece não como substituta do ator, mas como extensão de uma vontade artística documentada.
O que não elimina a tensão — mas a desloca. A pergunta deixa de ser “a IA pode fazer o que um ator faz?” e passa a ser “quem tem direito sobre a imagem de alguém depois que esse alguém morre?”.
Pandora já abriu a caixa: a pergunta agora é quem guarda a chave
O verdadeiro perigo não está em As Deep as the Grave. Está no precedente que o filme — independentemente de suas qualidades narrativas — ajuda a normalizar.
A produção seguiu as diretrizes do SAG-AFTRA e remunerou o espólio do ator, o que a posiciona como exemplo de uso “ético”. Mas a palavra ética, nesse contexto, carrega uma fragilidade estrutural: ela depende inteiramente da boa vontade dos envolvidos.
Não há ainda um arcabouço legal robusto que proteja atores mortos — ou mesmo atores vivos — da reprodução não autorizada de suas performances.
Morgan Freeman já ameaçou processar empresas pelo uso não autorizado de sua voz. A SAG-AFTRA incluiu cláusulas específicas sobre IA nos contratos após a greve de 2023.
Mas o campo regulatório segue assimétrico: as empresas de tecnologia avançam mais rápido do que os legisladores conseguem acompanhar. E enquanto isso, cada caso “consensual” ajuda a construir uma cultura de aceitação que tornará os casos não consensuais mais fáceis de justificar.
Há um paradoxo inquietante no título do filme: As Deep as the Grave — tão fundo quanto a tumba. Kilmer interpreta, pela IA, um personagem que também sofre de uma doença que corrói o corpo por dentro.
O personagem no filme padece de tuberculose — espelho simbólico do próprio Kilmer, cuja voz foi consumida pelo câncer. A ficção e a biografia se colapsam em uma mise-en-abyme que a produção não poderia ter calculado melhor se tentasse.
Ou talvez tenha calculado.
O cinema sempre foi uma arte do espectro. Desde que Louis Lumière filmou trabalhadores saindo de uma fábrica em 1895, o cinema preserva os mortos entre nós. A diferença é que agora os mortos podem ser escritos em novas histórias, sem que tenham escolhido cada palavra.
Val Kilmer escolheu algumas. Mas não todas. E essa diferença, pequena como parece, é onde começa tudo o que precisamos discutir — antes que a discussão se torne impossível porque já nos acostumamos demais com os fantasmas.





