O caso do deputado Guto Zacarias expõe contradições entre discurso político, acesso ao aborto e desigualdade social no Brasil.
Em abril de 2026, o deputado estadual paulista Guto Zacarias, ligado ao MBL, tornou-se o centro de um escândalo que expõe, com rara clareza, as contradições que estruturam o debate sobre aborto no Brasil.
Um áudio obtido pela imprensa o mostra incentivando a ex-namorada, Giovanna Pereira, a interromper uma gravidez, descrevendo o procedimento como um “método absolutamente limpo”, praticado “nos Jardins com especialista na área”, e afirmando não conseguir entender nenhum motivo para não realizá-lo.
O caso não seria apenas mais um episódio de hipocrisia política se não revelasse algo muito mais estrutural: no Brasil, o discurso sobre aborto raramente se articula com a realidade do acesso a ele. E é justamente nessa fratura que o caso Zacarias se instala.
Há uma frase no áudio que merece ser lida com atenção analítica.
Ao tentar convencer a ex-companheira, Zacarias ressalta que “problemas só acontecem em locais absolutamente clandestinos” e que, em bairros de elite de São Paulo, seria raro haver complicações. É uma frase reveladora não pelo que confessa, mas pelo que pressupõe.
Ela pressupõe que existe um aborto seguro — caro, discreto, realizado por especialistas em consultórios do Jardins — e um aborto perigoso, acessado pelos que não têm escolha.
O deputado não está descrevendo um procedimento médico; está descrevendo uma estrutura de classes.
Ao mesmo tempo em que o movimento conservador ao qual ele pertence legisla para criminalizar e dificultar ao máximo o acesso ao aborto para a população em geral, a alternativa que ele conhece e detalha com precisão é exatamente a que esse mesmo movimento jamais conseguirá eliminar: aquela reservada a quem pode pagar.
Essa não é uma contradição acidental. É o funcionamento regular do sistema.
Do áudio ao “pensamento pecador”: como o discurso mudou
O caso tem camadas que precisam ser separadas com cuidado.
Segundo a denúncia formal apresentada pelo Ministério Público de São Paulo em julho de 2025, Zacarias teria praticado violência psicológica contra Giovanna, com episódios de pânico, insônia e medo constante relatados pela própria companheira durante a gestação.
A denúncia aponta que o parlamentar chegou a sugerir clínicas clandestinas para a realização do procedimento — o que conflita diretamente com o tom do áudio, no qual ele se apresenta como alguém que orienta contra os riscos da clandestinidade.
Quando o áudio veio a público, a sequência das respostas de Zacarias é em si um objeto de análise. Antes da divulgação, ele afirmou que jamais tentou forçar Giovanna a realizar um aborto; depois, com o material nas mãos da imprensa, admitiu a autenticidade e pediu perdão.
Em seguida, classificou o episódio como um “pensamento pecador” que “graças a Deus” não foi adiante — e acrescentou que a polêmica era perseguição política em ano eleitoral.
Essa trajetória — negação, confissão, ressignificação moral — é um padrão que o debate público brasileiro conhece bem.
A narrativa coletiva em torno de escândalos de figuras religiosas ou conservadoras frequentemente segue o mesmo arco: do “não aconteceu” ao “aconteceu, mas eu já pedi perdão e me tornei um homem melhor”.
O julgamento moral se resolve no plano da teologia pessoal, enquanto o plano político — onde as leis que afetam os outros são votadas — permanece intocado.
Conservadorismo seletivo: quando o discurso não vira prática
Zacarias não é apenas um político que cometeu um ato contraditório com suas convicções. Ele é um produto reconhecível de uma formação política específica — o conservadorismo de plataforma, que encontrou no MBL e nos partidos a ele alinhados uma forma de transformar posições morais em capital eleitoral.
Nessa gramática política, o aborto funciona como marcador identitário mais do que como política pública.
Votar contra o aborto significa pertencer a um campo, demonstrar fidelidade, conquistar uma base.
O que acontece na vida privada de quem vota — ou de quem convence a ex-namorada a recorrer a um procedimento num consultório caro de São Paulo — opera em outro registro, protegido pela fronteira entre o público e o íntimo.
O problema é que essa fronteira é seletiva.
Ela protege os que têm recursos para agir em privado.
Para a mulher sem renda, sem rede de apoio e sem acesso a consultórios do Jardins, a fronteira entre o público e o privado desaparece: o Estado entra no seu quarto, no seu corpo, nas suas decisões. A lei que Zacarias e seus correligionários defendem se aplica a elas com toda a força. A eles, com nenhuma.
É essa assimetria — e não apenas a hipocrisia pessoal — que torna o caso politicamente significativo.
O que o escândalo não vai mudar no debate sobre aborto
A Bancada Feminista do Psol protocolou um requerimento de cassação do mandato do deputado estadual por quebra de decoro, e o processo no Ministério Público segue seu curso. Mas o desfecho institucional do caso, qualquer que seja, não tocará no nó mais fundo do problema.
O que o caso Zacarias ilumina não é a falha moral de um indivíduo.
É a estrutura de um debate que, no Brasil, frequentemente fala sobre aborto sem falar sobre quem aborta, em quais condições, com quais riscos e com quais consequências legais.
Um debate que produz leis aplicadas com toda a severidade sobre os mais pobres e que, para determinados grupos, funciona como pauta de mobilização eleitoral sem qualquer relação com a prática concreta de suas vidas.
Há uma frase que Zacarias disse ao justificar sua contradição: “Dá para você ser contra o aborto e, num momento de pressão, pensar em fazer alguma besteira”. A frase é honesta de um modo que ele provavelmente não pretendia.
Ela admite que a convicção pública pode ser uma performance descolada da vida real. Que o “ser contra” pode coexistir com o “pensar em fazer”. E que essa coexistência é possível — e, para alguns, confortável — porque o custo dessa contradição nunca é pago por quem a vive.
No Brasil, o aborto é crime para quem não tem consultório no Jardins.







