O homem que fabrica realidades não tem rosto próprio.
Essa é a tese silenciosa de O Mago do Kremlin, filme de Olivier Assayas que chega aos cinemas brasileiros com a ambição de dissecar a engrenagem que produziu Vladimir Putin — e, por extensão, de diagnosticar como o mundo entrou no ciclo autocrático que ainda não encerrou.
O problema é que entre a ambição e a execução, algo se perde. E o que salva o filme do naufrágio tem nome e corpo: Paul Dano.
Ficha Técnica – O Mago do Kremlin
- Título original: Le mage du Kremlin
- Direção: Olivier Assayas
- Roteiro: Olivier Assayas (baseado na obra de Giuliano da Empoli)
- Elenco principal: Paul Dano, Alicia Vikander, Jude Law
- Gênero: Drama político
- Ano: 2026
- Duração: 152 minutos
O que é O Mago do Kremlin e por que esse filme importa
O Mago do Kremlin é um drama político baseado no romance de Giuliano da Empoli que acompanha a ascensão de um estrategista nos bastidores do poder russo.
A história é contada a partir de Vadim Baranov, personagem fictício inspirado em Vladislav Surkov, figura central na construção da imagem pública de Vladimir Putin, interpretado por Jude Law.
A narrativa se desenrola entre o fim da União Soviética e a consolidação do novo regime russo, mostrando como decisões políticas, campanhas midiáticas e disputas internas moldaram o país nas últimas décadas. Em vez de seguir uma estrutura tradicional de biografia ou reconstituição histórica, o filme opta por um ponto de vista interno: o de quem observa — e influencia — o poder por trás das cortinas.
É justamente essa escolha que torna a obra relevante. Ao colocar o foco em um operador político, O Mago do Kremlin desloca a atenção dos líderes visíveis para os mecanismos que os sustentam. O filme sugere que, antes de existir um governo, existe uma narrativa capaz de torná-lo aceitável — e, em muitos casos, inevitável.
A Ficção Como Máscara da Verdade
O Mago do Kremlin parte de um romance de estreia do jornalista e cientista político italiano Giuliano da Empoli, publicado em 2022, meses antes da invasão russa da Ucrânia.
O livro é uma obra de ficção com alicerces na realidade — uma estratégia narrativa que, paradoxalmente, funciona melhor que qualquer documentário poderia, porque admite o que o jornalismo convencional não pode: a especulação sobre a alma dos poderosos.
O filme acompanha Vadim Baranov durante os anos finais da União Soviética e o início turbulento da Federação Russa, enquanto um jovem Vladimir Putin ascende ao poder.
Tecnicamente, Baranov nunca existiu.
Na prática, ele é o espelho de Vladislav Surkov — o homem que muitos consideram o principal arquiteto ideológico do putinismo, um estrategista de comunicação que transitou das artes para os corredores do Kremlin com fluidez perturbadora.
O poder, como Baranov explica ao seu interlocutor, é “uma forma de expressão artística.” Essa frase, dita quase en passant, é o núcleo conceitual de tudo. O que o filme investiga não é o que Putin fez, mas como foi possível que alguém construísse, tijolo por tijolo, a narrativa que o tornou inevitável.
O Homem que Nunca Existiu — e Ainda Assim Determinou Tudo
Vadim Baranov é quem recebe um jornalista em sua casa para contar, em flashbacks, toda a sua influência e trajetória — de produtor de televisão a um dos homens mais influentes do país, responsável por aconselhar e agir nos bastidores das mudanças que marcaram a construção da Rússia na era pós-soviética.
Essa estrutura de confissão retrospectiva tem algo de fábula moral.
Baranov não é apresentado como um vilão plano, mas como uma inteligência que encontrou no poder a única forma de arte que ainda lhe parecia possível. Há um momento perturbador nessa escolha: não é difícil compreendê-lo. É até difícil não se identificar com a sedução que ele descreve.
Mais do que concentrar-se em enumerar eventos históricos, Assayas expõe os estratégicos mecanismos invisíveis que sustentam o poder, nomeadamente ao nível da construção de narrativas populistas a veicular pelos meios de comunicação social às massas sedentas por um líder autoritário que restitua à pátria a glória perdida.
A propaganda, nessa leitura, não é uma ferramenta do poder — é o próprio poder em seu estado mais puro.
Paul Dano e a Psicologia do Spin Doctor
A atuação central do filme é um exercício de contenção calculada que merece análise separada.
Tudo no Vadim de Dano é deliberado: a voz opaca, o olhar de quem já processou a culpa e decidiu segui-la assim mesmo, a cadência quase entediada que faísca quando confrontada com um problema criativo. Não é um personagem que se explica. É um personagem que se revela em movimento.
O que Dano faz — e que o roteiro, por vezes excessivamente expositivo, não consegue — é encarnar a contradição fundamental do homem que serve ao autoritarismo com sinceridade artística.
Baranov não é cínico. É, talvez mais assustadoramente, um crente. Acredita que está construindo algo, mesmo quando o que está construindo é uma gaiola.
Dano entrega uma atuação que transforma até mesmo as falas mais sem brilho em potentes discursos sobre as engrenagens que regem o planeta. Essa é a melhor definição possível do que acontece em cena: o ator redime o roteiro, não o contrário.
A Autocensura de Olivier Assayas
Aqui reside o problema estrutural do filme. Olivier Assayas é um cineasta que vive mais confortável no híbrido, no espectral, no metalinguístico.
Assayas revelou que teria preferido filmar em russo e na própria Rússia, mas que isso era inviável: “Não tivemos acesso à Rússia, nem a arquivos, nem a atores russos — teriam sido proibidos de trabalhar no dia seguinte.”
Essa impossibilidade produtiva deixa marcas no tecido do filme. Há uma artificialidade na Rússia de O Mago do Kremlin — filmada na Lituânia — que vai além da geografia.
O realizador constrói planos que beiram a contemplação niilista ao engolfar os espectadores no isolamento social do frio e da neve — e acerta em boa parte deles.
Porém, o roteiro se apoia demais em metáforas vencidas e diálogos previsíveis que promovem uma frustrante unidimensionalidade aos personagens.
Quando os instintos do diretor escapam — um corte seco sincronizado a um estalar de dedos, a maneira quase sobrenatural como Alicia Vikander é enquadrada como Ksenia — o filme respira.
Mas esses momentos são exatamente isso: fugas de um diretor que parece ter se imposto uma disciplina que não lhe é natural. O resultado é um filme que oscila entre o tratado político e a extravagância artística, sem jamais se decidir por nenhum dos dois.
As Contradições que o Filme Não Resolve
O Mago do Kremlin enfrenta uma tensão que também habitava seu material de origem: como narrar a sedução do autoritarismo sem reproduzi-la?
Em entrevista no Festival Internacional de Cinema de Roterdã, Assayas recusou-se a impor uma opinião ao espectador: “O máximo que um diretor pode fazer é levantar as perguntas certas.”
Essa postura é intelectualmente honesta — e narrativamente frustrante.
Um filme que se recusa a concluir arrisca se tornar apenas um inventário de perguntas sem ancoragem emocional. E aqui o longa tropeça: na tentativa de dar conta de um contexto histórico gigante, o roteiro se perde em diálogos expositivos e narrações didáticas que deixam tudo travado.
A outra contradição é geopolítica. Assayas foi obrigado a escolher um elenco essencialmente anglo-saxônico, com um ator de língua inglesa interpretando Putin, caso contrário não teria conseguido financiamento.
O Kremlin, portanto, fala inglês. Há algo profundamente estranho nisso — e o filme não tem recursos dramáticos para tornar essa estranheza produtiva.
Quando a Máquina do Poder Continua Ligada
O timing de O Mago do Kremlin é, ao mesmo tempo, sua maior força e seu maior risco. Estreia em um momento em que a Rússia continua sendo um enigma político de implicações globais — e o mecanismo que Baranov ajudou a construir décadas atrás ainda produz efeitos em tempo real.
O roteiro aborda a transformação da Rússia em regime autoritário, com destaque para a questão da Ucrânia, as relações com os EUA e o caso Pussy Riot. Esses temas não são apenas história. São manchete.
Esse é precisamente o ponto onde o filme mais importa: ao mostrar os bastidores da construção de uma narrativa nacional, ele oferece um vocabulário para entender não apenas a Rússia, mas qualquer democracia que sente o chão enfraquecer sob os pés.
A pergunta que fica não é sobre Putin. É sobre os Baranovs que operam em outros países, em outras línguas, com outros rostos — igualmente convencidos de que o poder também pode ser uma forma de arte.

Leitura Recomendada
O Mago do Kremlin
Vadim Baranov já foi o cérebro por trás dos mais populares reality shows da Rússia, mas seu talento o levou a uma posição ainda mais poderosa e perigosa: a de estrategista secreto de Vladimir Putin. Conhecido como “O Mago do Kremlin”, ele moldou cuidadosamente a narrativa política russa, transformando todo um país num grande espetáculo em honra ao “Czar”.
O Preço de Ser Indispensável
O Mago do Kremlin é um filme importante que não consegue ser um filme essencial. Sua falha não é de tema — é de coragem formal. Assayas sabe o que quer dizer, mas parece ter medo de dizer do jeito que só ele saberia dizer. O resultado é uma obra que se lê como uma versão segura de si mesma.
E ainda assim, por 150 minutos, existe Paul Dano em cena — construindo, com minúcia quase clínica, o retrato de um homem que vendeu sua liberdade por influência e passou o resto da vida tentando convencer a si mesmo de que valeu a pena.
Há algo de universalmente humano nessa escolha que transcende a política russa e toca algo mais antigo: a tentação de deixar uma marca no mundo, não importa qual seja o preço.
O mago acredita que controla as ilusões. Mas no fim, é a ilusão que o controla.







