Uma cabeça decapitada sob chuva torrencial. É com essa imagem que Joaquim, de Marcelo Gomes, abre seu argumento — não como recurso de horror, mas como declaração de método.
O narrador-defunto se apresenta: sou Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes, e sei muito bem o que vão fazer com a minha imagem depois que eu morrer.
Nesse gesto inicial, o filme anuncia uma ruptura rara no cinema histórico brasileiro: em vez de construir o herói, ele decide desmontá-lo — não para destruí-lo, mas para encontrar o que havia antes da estátua.
A pergunta que Joaquim coloca não é histórica. É filosófica. O que acontece com um homem quando ele se torna símbolo? E o que se perde nessa operação?
Ficha Técnica — Joaquim
- Direção: Marcelo Gomes
- Ano de lançamento: 2017
- Gênero: Drama histórico
- País: Brasil / Portugal
- Elenco principal: Júlio Machado, Isabél Zuaa, Miguel Borges
- Destaque: Selecionado para o Festival de Berlim
Sinopse
O filme acompanha a vida de Tiradentes antes de se tornar um símbolo nacional, retratando‑o como um homem comum inserido nas contradições do Brasil colonial.
Ao mostrar sua rotina, frustrações e conflitos dentro do sistema que mais tarde irá contestar, a obra constrói um percurso gradual até sua tomada de consciência política no contexto da Inconfidência Mineira.
Antes do Mártir: o Alferes Joaquim
Joaquim José da Silva Xavier foi frequentemente pintado como Jesus Cristo, com cabelos longos e barba grande.
Mas isso era exatamente o que Marcelo Gomes queria evitar. O diretor recua dez anos antes da Inconfidência Mineira e instala a câmera nos bastidores da história — no lodo, no suor, na corrupção cotidiana de uma colônia exausta.
O maior feito do filme é humanizar o herói nacional, desde os aspectos comezinhos de sua rotina penosa nos rincões do Brasil colonial até sua aproximação gradual com os inconfidentes.
O Joaquim que vemos não é um iluminado. É um alferes de baixo escalão, funcionário da Coroa portuguesa, que aplica as mesmas regras injustas que um dia vai questionar.
A narrativa se interessa, sobretudo, em trilhar os caminhos que levaram esse oficial à revolta — e é na profunda humanização que Gomes fomenta no personagem que o filme se torna grandioso. Porque dentro desse recorte, há muito pouco de heroico.
Essa escolha não é apenas cinematográfica. É política.
Ao mostrar o herói como sujeito contraditório — alguém que deseja comprar a negra Nega, que inveja os que estão mais altos no esquema, que se revolta primeiro por exclusão e só depois por princípio — Gomes recusa a santificação fácil.
E, ao recusá-la, revela algo que o mito nacional nunca poderia admitir: que a indignação genuína nasce raramente de pureza moral. Nasce, quase sempre, de humilhação.
A Sujeira que os Livros Didáticos Limparam no Brasil Colonial
Há uma diferença fundamental entre Joaquim e o cinema histórico convencional, e ela passa pelo corpo. A câmera de Pierre de Kerchove não observa a colônia do século XVIII a distância segura — ela habita o ambiente.
Deixando de lado o tom solene que é comum à maior parte dos filmes de época, Marcelo Gomes opta por uma câmera viva e vibrante que acompanha de perto sua versão ficcionalizada do protagonista.
O resultado é um retrato que incomoda precisamente porque se recusa ao conforto da reconstituição estetizada.
Enquanto o cinema de estúdios conta a história pelo olhar dos vencedores, este projeto se dedica à trajetória irônica dos perdedores, das pessoas banais que não conquistaram seus objetivos, além daqueles que jamais vão figurar nos livros didáticos.
Escravizados, indígenas, mestiços, colonos recém-chegados — o Brasil colonial de Gomes é um caldeirão de corpos que a narrativa oficial preferiu simplificar em pano de fundo.
Aqui reside a operação mais sofisticada do filme. Ao mostrar Joaquim dentro desse sistema — não acima dele, não alheio a ele — o diretor desmonta a lógica hagiográfica que transforma figuras históricas em entidades moralmente superiores ao seu tempo.
O Joaquim de Marcelo Gomes é um indignado com a corrupção, quase um abolicionista, um homem prestes a se levantar contra um sistema injusto — mas seu discurso inflamado é um problema não apenas para o poder estabelecido, mas também para os poderosos ao seu lado.
Ele não é o herói que precede a revolução. Ele é o terreno contraditório onde a revolução se torna possível.
O Mito de Tiradentes como Ferida Aberta
A imagem de Tiradentes que o Brasil construiu ao longo de dois séculos é exemplar nesse sentido: o mártir foi sequestrado de sua contradição humana e devolvido à nação como ícone cívico imaculado, disponível para ser instrumentalizado por qualquer regime que precisasse de um herói fundador.
“Ninguém pede para ser herói, para ser mito de um país. São as circunstâncias que o transformam”, disse o próprio Gomes sobre sua escolha estética.
Essa declaração contém uma crítica implícita à República que se apropriou da imagem de Tiradentes décadas após sua morte, transformando o alferes enforcado em patrono de uma ordem política que ele jamais conheceu.
O que Joaquim propõe é uma operação inversa: devolver ao personagem histórico a opacidade que o mito apagou. Gomes interrompe o filme antes de Tiradentes se tornar um mito — seria redundante a representação do imaginário popular.
O espectador não precisa ver a execução. Já a conhece de cor. O que não conhecia era o homem que a precedeu — seus ciúmes, suas dívidas, sua cobiça, seu desejo, sua lenta e tortuosa consciência política.
Existe algo perturbadoramente atual nessa operação, especialmente para um Brasil que em 2017 — ano de lançamento do filme — vivia o paroxismo de suas próprias contradições entre corrupção sistêmica, clamores por heróis salvadores e a instrumentalização permanente da memória histórica para fins do presente.
O ator Julio Machado formulou com precisão: “Os obstáculos atuais são muito parecidos com aqueles que Joaquim foi observando. É como se passasse por um eterno nadar contra a corrente. Toda vez que há avanços, um golpe nos faz regressar.”
Quando a História Para de Mentir em Joaquim
O gesto mais radical de Joaquim não está em sua câmera trêmula nem em seu abandono da solenidade. Está em admitir que a história dos vencedores é sempre uma ficção — e que devolver à ficção a sua honestidade pode ser mais verdadeiro do que qualquer reconstituição “fiel”.
O filme foi selecionado para competir pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim, o que diz algo sobre o alcance de sua ambição estética.
Mas seu mérito mais duradouro talvez seja doméstico: ao desfazer a imagem congelada de Tiradentes, o filme devolve ao espectador brasileiro a possibilidade de se perguntar quais outros mitos nacionais existem apenas para que não tenhamos que encarar o que realmente aconteceu.
Heróis são necessários. Mas quando um país só consegue se ver no espelho de suas estátuas, é hora de perguntar o que está sendo escondido atrás do pedestal.
Joaquim não destrói Tiradentes. Ele faz algo mais difícil — e mais honesto. Devolve‑o à vida.







