Dark Horse – O making of do filme sobre Bolsonaro já é melhor que o filme
A saga do longa-metragem sobre Bolsonaro é um roteiro tão ruim que só poderia ser verdadeiro
Existe uma forma de genialidade involuntária que só o Brasil parece produzir em escala industrial: a capacidade de transformar qualquer coisa — uma delação, um almoço, um áudio de WhatsApp — num espetáculo que envergonharia um roteirista de segunda categoria por ser bom demais para ser ficção.
O caso do filme sobre Jair Bolsonaro é o exemplo mais recente e mais acabado desse talento nacional.
Antes de uma única cena ser exibida publicamente, o entorno da produção já entregou traição familiar suspeita, negação corporativa, orçamento estratosférico e versões que se contradizem com a desenvoltura de quem não combinou a história antes.
Parabéns a todos os envolvidos. Raramente um produto cultural inexistente foi tão produtivo.
A família como roteirista não creditada
Comecemos pelo mais delicioso: o áudio atribuído a Flávio Bolsonaro.
Se for autêntico — e até agora ninguém apresentou prova de que não é — temos um filho do protagonista pedindo dinheiro para viabilizar o monumento audiovisual ao pai.
Há algo de Shakespeare escrito por roteiristas de TV nisso tudo.
O patriarca que construiu sua carreira inteira sobre a ideia de família como valor supremo vê essa mesma família transformar a sua biografia num negócio cujos contornos financeiros ninguém consegue explicar com clareza.
Mas seria injusto concentrar o sarcasmo apenas aqui.
A produtora envolvida no episódio nega participação, nega recebimento, nega o que for necessário negar — o que é, convenhamos, a resposta padrão de qualquer instituição que se encontra no centro de uma história que não sabe bem como termina.
A negativa corporativa como gênero literário tem seus próprios clichês, e este caso os cumpre com fidelidade exemplar.
No Brasil, o escândalo sobre o filme costuma ser mais bem produzido que o filme.
O orçamento citado merece menção honrosa.
Se os valores que circulam tiverem qualquer relação com a realidade, estamos diante de uma produção que faria inveja a estúdios acostumados a produzir ficção científica com efeitos especiais — não filmes sobre políticos que posam de homem simples do povo.
Há uma ironia de classe aqui que nenhum diretor de arte conseguiria planejar melhor: a narrativa do líder austero, perseguido e popular sendo embalada num projeto cujo custo aparente desafia qualquer senso de proporção.
A mídia adora um escândalo que finge denunciar
Seria cômodo parar por aqui e deixar que o circo se justificasse sozinho. Mas a mídia que cobre esse caso merece seu próprio parágrafo de atenção — e não dos mais gentis.
Há uma cumplicidade estrutural entre o escândalo e quem o narra que raramente é examinada com honestidade.
Todo veículo que publica mais um capítulo desta saga — incluindo, em alguma medida, qualquer ensaio que o analise, como este — está alimentando exatamente o mecanismo que finge criticar.
A cobertura do pré-filme funciona como trailer gratuito. Cada áudio reproduzido, cada negativa noticiada, cada contradição catalogada é publicidade não paga para uma obra que talvez nunca exista.
A imprensa que diz expor o esquema é também sua maior distribuidora. Isso não é uma acusação de má-fé — é uma descrição de como a atenção funciona na economia midiática contemporânea, onde não há diferença operacional entre escândalo e promoção.
O público, esse ator cansado que não larga o palco
E então há o público — nós, coletivamente, que acompanhamos cada capítulo com a mesma mistura de indignação e fascinação que caracteriza qualquer vício bem administrado.
O bolsonarista convicto que já vê o filme como obra-prima perseguida antes de existir. O crítico que já o condena como propaganda antes de ver um frame. O analista que escreve sobre o fenômeno cultural fingindo estar acima da disputa enquanto contribui, palavra por palavra, para mantê-la viva.
Nenhum desses personagens é inocente. Todos estão fazendo exatamente o que o espetáculo precisa que façam: participar.
O Brasil tem uma relação única com seus próprios absurdos — não os ignora, não os resolve, os encena coletivamente até o esgotamento, e então parte para o próximo.
O filme que o Brasil merece, não o que precisa
JFK demorou décadas para ser feito e ainda assim foi controverso. A Paixão de Cristo ao menos existia quando os debates começaram. Marighella chegou às salas, foi visto, julgado, amado e odiado por razões concretas.
O pré-filme de Bolsonaro dispensa todas essas etapas. Ele já polarizou, já gerou manchetes, já movimentou dinheiro — real ou imaginário — e já produziu o tipo de narrativa fragmentada e insolúvel que define o debate público brasileiro há anos.
Se o filme for eventualmente lançado, quase não importa o que mostrar. A audiência já decidiu o que vai ver. Se nunca for lançado, o episódio terá sido ainda mais eficiente: gerou todo o capital simbólico sem precisar entregar nenhum produto.
É o modelo de negócio ideal para um país que aprendeu a consumir a promessa com mais entusiasmo que a realidade.
No fim, o mais brasileiro de todos os finais seria este: o filme não sai, o dinheiro some, as versões continuam se contradizendo, e daqui a seis meses ninguém lembra com exatidão o que aconteceu — mas todo mundo tem uma opinião firme sobre isso.
Roteiro aprovado. Produção: o Brasil, como sempre, sem crédito.






