Coyote vs. Acme: a vingança do perdedor eterno finalmente compensa
Em Coyote vs. Acme, a clássica perseguição entre Coiote e Papa-Léguas ganha uma nova dimensão: a frustração acumulada por décadas finalmente vira uma ação judicial. O resultado é uma comédia que entende muito bem o personagem, mesmo quando não sabe exatamente o que fazer com o mundo ao seu redor.
Há uma piada estrutural nos desenhos do Coiote e o Papa-léguas que sustentou décadas de curtas-metragens: a derrota é o ponto, não o obstáculo. O predador nunca captura a presa, e é exatamente por isso que a fórmula funciona.
Coyote vs. Acme toma essa ideia e faz algo que parecia óbvio demais para nunca ter sido tentado: transforma a frustração acumulada de gerações de armadilhas defeituosas em uma ação judicial. É uma premissa engenhosa, e o filme de Dave Green cumpre boa parte do que promete — mas não sem tropeçar em alguns dos mesmos precipícios que sempre fizeram parte da geografia dos Looney Tunes.
Um lançamento que quase não aconteceu
Antes de qualquer análise sobre o que está na tela, é impossível ignorar o que quase impediu a tela de existir.
O longa foi finalizado ainda em 2022 e ficou engavetado pela Warner Bros. Discovery, que cogitou tratá-lo como baixa fiscal em vez de lançá-lo nos cinemas. A repercussão negativa dentro e fora de Hollywood ajudou a pressionar uma venda para a Ketchup Entertainment, e é assim que o filme finalmente chega às telas brasileiras, distribuído pela Paris Filmes.
Essa história de bastidores tem uma ironia quase poética: um filme sobre alguém processando uma corporação por esconder a verdade quase foi, ele mesmo, escondido por decisão corporativa. É tentador deixar essa narrativa contaminar o julgamento crítico, tratando a sobrevivência do filme como sinônimo de qualidade. Não é. Coyote vs. Acme precisa ser avaliado pelo que oferece em tela, e a boa notícia é que, na maior parte do tempo, ele se sustenta sozinho.
A física impossível como piada e como emoção
O maior triunfo do filme está na integração entre animação e live-action. Dave Green e sua equipe de animadores não tratam o Coiote como um efeito especial decorativo colado sobre atores reais — eles deixam a lógica cartunesca invadir o mundo físico. Estradas se comportam como tapetes, quedas desafiam a gravidade com a naturalidade de sempre, e o resultado supera tentativas anteriores de combinar essas duas estéticas, inclusive produções que tinham orçamentos e ambições similares.
Mais interessante ainda é o que o roteiro faz com a figura do Coiote em si. Ele não fala uma palavra — como sempre foi — mas carrega o filme com uma dose inesperada de peso emocional. Há algo genuinamente comovente na ideia de um personagem condenado a tentar, fracassar e recomeçar, e o filme entende que essa repetição não é só material para gags: é também, de certa forma, trágica. Quando a câmera se detém nesse coiote cansado, cético e ainda assim obstinado, Coyote vs. Acme encontra sua alma.
O problema é que essa alma divide espaço com um elenco humano estruturalmente menos interessante. Will Forte e John Cena entendem o registro exigido — comédia física, timing controlado, contraponto sério ao caos animado — e cumprem bem essa função. Mas toda vez que a trama pede que humanos carreguem uma cena sozinhos, sem a presença dos personagens desenhados, a energia despenca visivelmente. É um problema recorrente em produções que misturam CGI ou animação com atores de carne e osso: o núcleo humano quase sempre perde a disputa por atenção.
Um universo que hesita em se explicar
Se há uma frustração mais séria no filme, ela está na construção do próprio mundo em que a história acontece. A Acme é apresentada como uma corporação onipresente, capaz de explicar por que seus produtos falham sistematicamente e por que ninguém jamais processou a empresa antes — mas o filme nunca aprofunda essas regras o suficiente para que a investigação central pareça tão rica quanto poderia.
A comparação inevitável é com Uma Cilada Para Roger Rabbit, filme que construiu cada centímetro de seu universo híbrido com uma coerência interna impressionante. Coyote vs. Acme consegue a proeza visual de fazer humanos e desenhos coexistirem de forma convincente, mas não investe na mesma densidade de mundo. O terceiro ato, que deveria amarrar a mitologia da Acme a alguma revelação satisfatória, chega com menos impacto do que o material sugeria ser possível. É uma oportunidade desperdiçada: o filme tinha os ingredientes para ser mais do que uma comédia bem executada, e escolheu, na maior parte do tempo, não arriscar.
Por que essa perseguição ainda importa
Há algo culturalmente relevante em revisitar, quase um século depois da criação dos Looney Tunes, a mecânica de um personagem que nunca vence. Em um momento no qual boa parte do entretenimento de franquia se apoia em vitórias espetaculares e conclusões definitivas, Coyote vs. Acme propõe o oposto: dignifica o fracasso repetido como parte essencial da identidade de um personagem, sem tentar consertá-lo ou torná-lo mais “competente”. Isso é, paradoxalmente, uma forma de respeito pelo material original que muitas adaptações de propriedades clássicas não têm.
O filme também acerta ao tratar com carinho — e sem cinismo — uma fórmula que sobrevive porque entende sua própria repetição. Não é acidente que o público torça pelo Coiote mesmo sabendo, desde sempre, como a história termina.
O veredito depois da poeira baixar
Tirando a novela dos bastidores da equação, o que resta é uma comédia sólida, tecnicamente inventiva e emocionalmente mais generosa do que o gênero costuma exigir — mas também um filme que hesita justamente onde poderia ter sido corajoso, deixando seu próprio universo subdesenvolvido. Coyote vs. Acme não reinventa a mistura entre animação e live-action, mas prova, com humor e um afeto genuíno pelo material de origem, que ainda há gasolina no motor dessa perseguição interminável. No fim, como o próprio Coiote, o filme tropeça algumas vezes no caminho — mas continua correndo, e é difícil não torcer por ele.








