Quando a Dor Vira Narrativa: O Cão Orelha, o Fantástico e o Olhar do Público

Cachorro em estilo cartoon dentro de uma televisão, representando a espetacularização da dor na mídia.

Aos domingos à noite, milhões de brasileiros se reúnem diante da televisão como quem participa de um ritual silencioso. Entre reportagens sobre ciência, comportamento e curiosidades, surgem, ocasionalmente, histórias que suspendem o fluxo leve do entretenimento e introduzem algo mais denso: a dor alheia. Não uma dor abstrata, distante, mas uma dor enquadrada, editada, sonorizada — pronta para ser sentida.

Foi assim com o caso do cão Orelha, apresentado pelo Fantástico como mais um capítulo da crônica contemporânea da comoção pública. A narrativa não se limitava a informar. Ela convidava à empatia, à indignação, ao julgamento. Cada imagem parecia perguntar, sem palavras: o que você fará com isso que está vendo?

Na tela, o sofrimento era organizado em sequência lógica: início, conflito, expectativa de justiça. Fora dela, nas redes sociais, multiplicavam-se comentários, condenações, manifestações de afeto e revolta. O caso deixava de ser apenas um episódio policial para se transformar em um acontecimento simbólico, compartilhado, reencenado.

Este ensaio parte dessa transformação. Não para relativizar a violência, nem para diminuir sua gravidade, mas para observar como, no ecossistema midiático atual, a dor se converte em narrativa — e a narrativa, em espetáculo emocional. Entre o dever de informar e a tentação de sensibilizar, emerge uma pergunta incômoda: até que ponto ver é também consumir?

O Caso Orelha: entre a informação pública e a narrativa televisiva

Até o momento, não há um dossiê público unificado que reúna, de forma sistemática, todos os dados oficiais sobre o caso do cão Orelha. As informações disponíveis ao grande público circulam, principalmente, por meio de reportagens televisivas, portais de notícia e redes sociais. Grande parte do que se sabe foi mediada por esses canais, com recortes e enquadramentos próprios.

A reportagem exibida no Fantástico apresentou o episódio como um caso emblemático de violência contra animais, articulando depoimentos, imagens, reconstituições narrativas e a expectativa de responsabilização jurídica. A ênfase não esteve apenas nos fatos, mas na forma como eles foram organizados: começo, desenvolvimento, clímax emocional, promessa de desfecho.

Esse modelo não é novo. Desde sua criação, em 1973, o programa construiu uma identidade baseada na fusão entre jornalismo investigativo, entretenimento e linguagem cinematográfica. Reportagens longas, trilhas sonoras emotivas, edição ritmada e narradores com tom grave fazem parte de sua gramática histórica. O “caso da semana” é uma peça recorrente nesse repertório.

O Prolongar do sofrimento

No contexto contemporâneo, porém, essa linguagem se articula com um ambiente midiático profundamente alterado. A reportagem televisiva já não se encerra na exibição dominical. Ela se desdobra em cortes para redes sociais, chamadas em portais, reportagens, comentários e reinterpretações. Cada fragmento amplia a circulação da história e reconfigura seu sentido.

No caso de Orelha, esse processo foi visível. Trechos da matéria passaram a circular de forma autônoma, desvinculados do conjunto original. Frases, imagens e momentos específicos tornaram-se gatilhos emocionais replicáveis. A narrativa foi progressivamente descentralizada: deixou de pertencer apenas à emissora e passou a ser reescrita pelo público.

Ao mesmo tempo, a ausência de informações plenamente consolidadas — laudos completos, decisões judiciais definitivas, relatórios públicos detalhados — produziu um espaço de incerteza. Esse vazio factual não foi necessariamente preenchido por dados, mas por interpretações, suspeitas e projeções emocionais.

Assim, o caso se construiu menos como um arquivo fechado de acontecimentos e mais como um processo narrativo em curso. Um fluxo contínuo entre mídia, audiência e plataformas digitais, no qual o fato inicial se transforma em matéria simbólica.

Mais do que um episódio isolado, Orelha tornou-se o signo da violência, da indignação coletiva, da busca por justiça — e da forma como essas dimensões são mediadas, organizadas e consumidas.

A engenharia emocional da narrativa televisiva

A reportagem do Fantástico sobre o caso do cão Orelha não se limita a relatar acontecimentos.

Ela constrói, com precisão técnica, uma experiência emocional. Cada elemento — imagem, som, ritmo, enquadramento — participa de uma arquitetura pensada para conduzir o espectador por um percurso afetivo específico.

A abertura, em tom contido, estabelece gravidade. A voz do apresentador desacelera. A trilha surge discreta, quase imperceptível. Não se trata apenas de informar que algo grave aconteceu, mas de preparar o corpo do espectador para sentir. A narrativa começa antes do fato: começa na atmosfera.

As imagens seguem uma lógica semelhante. Predominam planos fechados, recortes que aproximam o rosto dos entrevistados, detalhes do ambiente, gestos interrompidos. O enquadramento evita a distância. O espectador não observa: ele é convocado a participar.

Esse recurso não é acidental. Na linguagem audiovisual, o close é um operador de intimidade. Ele produz proximidade simbólica. Ao insistir nesse tipo de plano, a reportagem constrói uma relação afetiva direta entre público e narrativa. A dor deixa de ser um dado e passa a ser uma experiência compartilhada.

A montagem reforça esse efeito. Depoimentos são fragmentados e reorganizados para criar continuidade emocional. Silêncios são mantidos. Pausas ganham valor dramático. Em alguns momentos, a fala parece menos importante que a respiração, o olhar, o embaraço. A edição transforma hesitação em sentido.

A trilha sonora atua como guia invisível. Não ilustra apenas; interpreta. Em momentos de tensão, intensifica. Em passagens mais reflexivas, suaviza. O som não acompanha a imagem: ele orienta a leitura emocional da imagem. Funciona como uma legenda afetiva.

Nesse processo, o caso é progressivamente moldado como narrativa clássica: há uma vítima, um conflito, possíveis responsáveis, uma expectativa de reparação. Mesmo sem desfecho jurídico definitivo, a estrutura dramática já está posta. O espectador é conduzido a desejar um final.

A fabricação da empatia

A empatia, nesse contexto, não é espontânea. Ela é produzida.

Ela emerge da repetição de certos signos: o nome do animal, sua imagem, a evocação de sua história, o testemunho de quem o conhecia. O cão deixa de ser um indivíduo desconhecido e se torna personagem. Ganha identidade narrativa.

Esse processo tem implicações profundas. Ao personalizar o sofrimento, a reportagem torna a dor legível. O público aprende como sentir. Aprende onde se indignar. Aprende quando se comover.

A pedagogia emocional é sutil. Não se impõe. Se insinua.

Ao longo da matéria, determinadas cenas retornam. Certos enquadramentos são reiterados. Alguns depoimentos são retomados em versões ligeiramente diferentes. Essa redundância não é falha: é estratégia. Ela sedimenta a emoção.

A empatia, assim, deixa de ser apenas resposta ética. Torna-se produto narrativo.

Dor como conteúdo

No ecossistema midiático contemporâneo, toda narrativa é também mercadoria simbólica. O caso do cão Orelha circula como informação, mas também como conteúdo.

Ele gera audiência. Produz engajamento. Alimenta comentários, compartilhamentos, debates. Cada reação amplia sua visibilidade. Cada indignação registrada se converte em métrica.

A dor passa a ter valor de circulação.

Isso não significa que haja cinismo explícito por parte dos produtores. Significa que a lógica das plataformas transforma, inevitavelmente, o sofrimento em ativo comunicacional. Quanto mais intensa a emoção, maior a probabilidade de propagação.

Nesse sentido, a reportagem não termina quando acaba. Ela continua nos recortes para redes sociais, nos títulos sensacionalizados, nas thumbnails com expressões carregadas. A narrativa se fragmenta, mas mantém seu núcleo emocional.

A história vira matéria-prima para o fluxo digital.

O público como coautor

Nesse processo, o espectador deixa de ser apenas receptor. Ele se torna coautor.

Ao comentar, compartilhar, reinterpretar, o público reinscreve a narrativa. Acrescenta julgamentos, hipóteses, condenações simbólicas. Muitas vezes, antecipa veredictos antes mesmo de qualquer instância legal.

Forma-se um tribunal difuso, descentralizado, emocional.

Cada perfil se transforma em microeditor. Cada postagem reencena o drama sob outra perspectiva. A história se multiplica.

O caso deixa de pertencer ao jornalismo. Passa a pertencer à circulação social.

Nesse movimento, a fronteira entre informação e espetáculo se dissolve. O que importa não é apenas o que aconteceu, mas como isso é performado coletivamente.

Ver torna-se agir. Compartilhar torna-se tomar posição. Reagir torna-se forma de pertencimento.

A indignação vira linguagem.

O olhar como responsabilidade

A cultura visual contemporânea nos treinou para ver tudo. Tragédias, guerras, intimidades, colapsos, confissões. A câmera está sempre presente, e nós aprendemos, pouco a pouco, a consumir imagens como quem percorre uma vitrine infinita.

O caso do cão Orelha se insere nesse regime do visível. Ele não é apenas um acontecimento trágico. É um acontecimento tornado imagem, tornado narrativa, tornado circulação. Sua existência pública depende da mediação.

Ver, nesse contexto, não é um gesto neutro.

Cada espectador participa da cadeia simbólica que transforma sofrimento em experiência compartilhada. Ao assistir, ao comentar, ao reagir, ao reenviar, reforça-se a lógica que mantém a dor em movimento. Não por crueldade, mas por hábito. Por pertencimento. Por desejo de participar do tempo presente.

Walter Benjamin observava que a reprodutibilidade técnica transforma a relação com a obra. Algo semelhante ocorre aqui: a reprodutibilidade emocional transforma a relação com o sofrimento. Quando tudo pode ser repetido, editado, remixado, a dor corre o risco de perder sua singularidade.

Ela vira padrão.

Nesse cenário, a empatia corre um duplo risco. Pode se tornar profunda, mobilizadora, ética. Mas pode também se converter em performance: um gesto rápido, visível, recompensado por curtidas e aprovação simbólica.

Sentir passa a ser exibido.

Entre informação e exposição

O jornalismo ocupa, nesse processo, uma posição delicada. Ele precisa mostrar para denunciar. Precisa expor para responsabilizar. Precisa narrar para tornar inteligível.

Mas cada escolha formal carrega implicações éticas.

Quanto tempo permanecer em uma imagem?
Quantas vezes repetir uma cena?
Que trilha associar a um depoimento?
Que enquadramento escolher?

Essas decisões não são neutras. Elas constroem sentidos.

No caso de Orelha, a narrativa televisiva operou no limite entre esclarecimento e dramatização. Informou, mas também intensificou. Contextualizou, mas também estetizou. Transformou o real em forma.

Não se trata de acusar, mas de compreender: a mídia não apenas reflete o mundo. Ela o organiza simbolicamente.

Conclusão — O que fazemos com o que vemos

Talvez a questão central não seja se deveríamos ter visto o caso do cão Orelha. A visibilidade, em muitos contextos, é condição para a justiça.

A pergunta mais difícil é outra: o que fazemos depois de ver?

Transformamos a dor em memória ética?
Ou em consumo passageiro?

Permitimos que ela nos desloque, nos questione, nos responsabilize?
Ou a usamos como mais um episódio na sucessão infinita de indignações?

Em uma cultura saturada de imagens, o verdadeiro desafio não é olhar. É sustentar o olhar sem transformá-lo em mercadoria emocional.

Talvez o gesto mais radical hoje seja esse: recusar a anestesia da repetição. Preservar, no meio do ruído, a singularidade da dor alheia.

Não como espetáculo.

Mas como apelo.

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