O Espetáculo da Corrupção: Por Que o Escândalo Virou Entretenimento

Ilustração simbólica sobre a corrupção no Brasil como espetáculo midiático, com políticos sob holofotes e público usando celulares

A Operação Lava Jato terminou com a maioria de suas principais condenações anuladas ou enfraquecidas. O mensalão virou verbete histórico. A cada semana, um novo escândalo ocupa manchetes, gera indignação nas redes, mobiliza hashtags — e desaparece antes que qualquer consequência real se consolide. Enquanto isso, seguimos assistindo.

Por que a corrupção no Brasil deixou de ser um problema político para se tornar um gênero de entretenimento? Por que reagimos a delações como quem acompanha uma série de streaming, episódio após episódio, sem jamais cancelar a assinatura?

Este texto defende que a corrupção brasileira deixou de funcionar como ruptura moral para operar como espetáculo contínuo — e que essa transformação não é acidental. É estrutural.

O Ciclo Que Nunca Fecha

Desde o impeachment de Collor, em 1992, o Brasil vive sob o signo do escândalo permanente. A cada governo, uma operação. A cada operação, um nome-código cinematográfico. Sanguessugas. Mensalão. Petrolão. Lava Jato. Cada uma promete ser “a maior investigação da história”. Cada uma entrega o mesmo desfecho: comoção pública, prisões provisórias, delações bombásticas — e, ao fim, prescrição, anulação ou acordos que devolvem réus à vida pública.

O padrão se repete com precisão cirúrgica. Não porque falta técnica jurídica ou vontade investigativa, mas porque o sistema está calibrado para produzir escândalo, não justiça. A corrupção brasileira descobriu algo que a indústria cultural conhece há décadas: a narrativa sem desfecho vicia mais que a história completa. Séries inacabadas, temporadas prometidas, cliffhangers políticos. O espectador não quer resolução. Quer continuação.

A CPI virou formato. A delação virou gênero literário. O juiz virou celebridade. E nós, espectadores, aprendemos a consumir escândalo como quem consome novela: com indignação programada, mas sem expectativa real de mudança.

A Linguagem do Escândalo

Guy Debord escreveu em 1967 que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação“. Ele falava da sociedade do espetáculo, onde a realidade se dissolve em imagens. Não imaginava o Brasil de 2025, onde a corrupção não precisa mais ser ocultada — basta ser bem produzida.

Observe a arquitetura midiática de qualquer escândalo recente. Há sempre: o vazamento estratégico, a manchete em caixa-alta, o áudio “exclusivo”, o infográfico explicativo, a hashtag do dia, o debate polarizado, a enquete nas redes. Tudo segue uma gramática reconhecível. O escândalo não revela a corrupção; a encena.

E aqui está o ponto crucial: essa encenação não busca esconder o crime. Busca estetizá-lo. Transformá-lo em narrativa consumível, compartilhável, comentável. A corrupção deixa de ser falha sistêmica e vira conteúdo. Conteúdo gera engajamento. Engajamento se converte em capital político. Capital político compra proteção. O ciclo se fecha — ou melhor, se perpetua.

Não por acaso, políticos investigados adotam estratégias de celebridade: live com milhões de visualizações, merchandising de apoio, narrativa de perseguição. A audiência não julga mais com base em provas jurídicas. Julga com base em identificação emocional. O réu que performa melhor sua inocência vence, independentemente dos autos.

A Fadiga do Indignado

Há um custo psíquico nessa overdose de escândalo. A indignação moral é um recurso finito. Exige energia emocional, crença na mudança, fé nas instituições. Quando o escândalo se torna rotina, a indignação vira pose. Performamos revolta porque é socialmente esperado, mas por dentro já desistimos.

Essa fadiga não é fraqueza individual. É estratégia de dominação. Regimes autoritários sempre souberam: não é preciso convencer ninguém de que tudo está bem. Basta convencer de que nada pode mudar. A corrupção espetacularizada cumpre essa função com perfeição. Ela exibe o crime, mobiliza a emoção pública — e então demonstra a impotência coletiva.

O resultado é cinismo estrutural. Não o cinismo do corrupto, que sempre existiu, mas o cinismo da vítima. “São todos iguais.” “Sempre foi assim.” “Rouba mas faz.” Essas frases não são apenas resignação. São capitulação. E uma sociedade que capitula diante da corrupção não precisa mais ser enganada. Ela se tornou cúmplice voluntária do próprio saque.

Pior: esse cinismo é contagioso. Contamina a linguagem pública, corrói a possibilidade de distinção moral, aplana qualquer hierarquia ética. Se tudo é espetáculo, nada é verdade. Se todos roubam, ninguém é corrupto. A própria categoria de corrupção se dissolve em relativismo.

O Que Resta Quando o Escândalo Passa

A Lava Jato prometeu refundar a República. Hoje, seus principais investigados ocupam cargos, seus métodos foram anulados, e o juiz-símbolo virou político derrotado. O mensalão que derrubou um governo teve suas penas abrandadas, seus réus soltos, sua memória diluída. Os Panamá Papers revelaram fortunas ocultas — e mudaram rigorosamente nada nas estruturas de poder.

Um exemplo emblemático desse processo foi a divulgação, em 2019, das mensagens entre procuradores da Lava Jato e o juiz responsável pelos processos. Os diálogos expunham articulações impróprias, estratégias combinadas e fragilidades institucionais graves. Durante semanas, o material dominou o debate público, gerou indignação e mobilizou a mídia. Em pouco tempo, porém, foi absorvido pelo fluxo incessante de notícias, relativizado por disputas políticas e neutralizado pela fadiga coletiva. O escândalo foi transformado em episódio, em unidade narrativa descartável — e, como todo episódio, rapidamente substituído pelo próximo.

O que esses fracassos revelam? Que o problema nunca foi falta de informação. Foi excesso de espetáculo. Quanto mais a mídia transforma corrupção em show, menos a sociedade consegue transformá-la em pauta de mudança real. A superexposição não gera transparência. Gera anestesia.

Enquanto isso, a infraestrutura da corrupção segue operando silenciosamente: emendas secretas, indicações políticas, lobbies disfarçados, contratos sem licitação, negociações de bastidor. Nada disso vira manchete porque não tem o apelo dramático da prisão, da delação, do áudio vazado. A corrupção real é burocrática, técnica, entediante. Por isso, invisível.

Essa é a grande vitória do espetáculo: ele ocupa todo o espaço simbólico com escândalo performático enquanto o saque efetivo acontece na sombra. Discutimos as lives dos investigados. Não discutimos o orçamento secreto.

A Revolta Possível

Se a corrupção virou espetáculo, a resistência não pode ser mais espetáculo. Não adianta trocar de canal, mudar de hashtag, eleger novo herói. O problema não está nos atores. Está no palco.

Desmontar esse sistema exige recusar o jogo. Não significa ignorar escândalos, mas deixar de consumi-los como entretenimento. Significa exigir processos, não performances. Cobrar resultados institucionais, não satisfação emocional. Lembrar que delação não é condenação, que manchete não é prova, que indignação nas redes não é política.

Significa, acima de tudo, recuperar a linguagem. Enquanto chamarmos espetáculo de transparência, show de investigação, fadiga de lucidez, estaremos apenas alimentando a máquina que nos anestesia. A corrupção brasileira não precisa mais ser escondida. Ela descobriu algo melhor: ser exibida até perder o sentido.

O espetáculo vai continuar. Novos escândalos virão, novas operações surgirão, novos réus se tornarão celebridades. A questão é: vamos assistir sentados, ou vamos desligar a TV — e reaprender a agir fora dela?

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