Análise sobre a morte do cachorro Orelha em Florianópolis e a lógica da comoção nas redes sociais
Em janeiro de 2026, a morte violenta de um cachorro virou conteúdo viral no Brasil.
Em poucas horas, estava nos principais portais, nas timelines, nos grupos de WhatsApp, nos perfis de influenciadores indignados. Hashtags, pedidos de punição, promessas de justiça, declarações emocionadas, textos inflamados.
O nome dele era Orelha.
Durante alguns dias, parecia que o país inteiro se importava. Depois, como acontece quase sempre, seguiu em frente.
Este texto não é apenas sobre um cachorro. É sobre como aprendemos a nos indignar quando mandam — e a esquecer com a mesma eficiência.
O que realmente aconteceu com Orelha
No dia 3 de fevereiro de 2026, a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu o inquérito sobre a morte de Orelha, ocorrida na Praia Brava, em Florianópolis.
O relatório foi direto: adolescentes envolvidos no crime, pedido de internação de um dos jovens, três adultos indiciados por coação a testemunhas, conclusão das investigações sobre agressões contra outro cão, Caramelo. Processos em segredo de Justiça, conforme o Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Do ponto de vista institucional, não há muito a questionar. Houve apuração, coleta de provas, responsabilização e encaminhamento judicial. Orelha teve justiça. Isso precisa ser reconhecido.
Mas o problema não começa aí.
Ele começa justamente depois.
Por que esse caso virou comoção nacional
A explosão emocional em torno de Orelha não foi aleatória.
Ela seguiu uma lógica conhecida por qualquer pessoa que estude mídia, redes sociais e economia da atenção. O caso reunia todos os ingredientes valorizados pelo algoritmo: uma vítima “inocente” e fotogênica, uma violência visualmente chocante, vilões identificáveis, narrativa simples, possibilidade de desfecho, material facilmente compartilhável.
Era uma história pronta. Pronta para virar manchete, para virar post, para virar engajamento.
Enquanto isso, centenas de outros casos semelhantes continuam acontecendo no país sem qualquer repercussão. Sem câmera, sem hashtag, sem editorial indignado. Não rendem clique, logo não rendem empatia.
Orelha virou símbolo porque funcionava.
A violência que não aparece no feed
Parte fundamental desse fenômeno acontece em ambientes fechados, especialmente em plataformas como o Discord.
No papel, existem regras, termos de uso, canais de denúncia. Na prática, milhares de servidores funcionam como territórios autônomos: acesso restrito por convite, moderação improvisada, anonimato quase total, fiscalização mínima.
É nesses espaços que circulam vídeos de tortura, humilhações coletivas, desafios violentos, estímulos à crueldade, banalização do sofrimento. Não como exceção.
Como rotina.
Quando algum episódio escapa desse porão digital e chega à superfície, vira escândalo. O restante permanece invisível.
A fala incômoda que quase ninguém quis ouvir
Durante a repercussão do caso, a juíza Vanessa Cavalieri alertou publicamente que episódios como o de Orelha não são exceção. Segundo ela, casos semelhantes ocorrem com frequência, inclusive em grupos fechados da internet.
O que essa fala dizia, em essência, era simples: o problema é estrutural.
Mas essa parte quase não viralizou. Não rendia narrativa, não rendia vilão claro, não rendia catarse. Era complexa demais para circular.
Outro elemento decisivo para o choque foi o perfil dos envolvidos. Eram jovens de classe média. Isso desmonta uma fantasia social muito confortável: a de que a barbárie sempre vem “da periferia”, “da margem”, “do outro”.
Não veio.
Veio de dentro.
Esse ponto foi levantado por Jota Marques, no podcast BdF Entrevista (vídeo da entrevista abaixo), da Brasil de Fato. Ele questionou se redes de poder, influência e recursos poderiam funcionar como blindagem. Não foi acusação direta. Foi uma pergunta incômoda.
No Brasil, a justiça raramente opera fora do contexto social.
A catarse coletiva que substitui a ação
Durante semanas, milhões de pessoas compartilharam posts, comentaram com raiva, exigiram punições, assinaram petições, pressionaram autoridades. Parecia mobilização. Na prática, foi descarga emocional.
O ciclo é previsível: choque, indignação, engajamento, saturação, esquecimento. Raramente vira política pública ou prevenção. Raramente vira mudança estrutural.
Compartilhar vira sinônimo de agir.
Quando a dor vira ativo digital
As redes sociais sobrevivem de emoção. Não de reflexão, não de complexidade. De emoção. Raiva, medo e choque mantêm pessoas conectadas.
Nesse sistema, tragédias viram conteúdo, sofrimento vira ativo, indignação vira mercadoria. O caso foi explorado por portais em busca de tráfego, páginas em busca de seguidores, influenciadores em busca de relevância, políticos em busca de visibilidade.
Todos surfaram a onda.
Poucos ficaram depois que ela quebrou.
Minha participação no problema
Eu também compartilhei. Eu também senti raiva, cobrei punição, segui rolando a timeline. Escrevi mais de um texto sobre o caso. Nenhum me satisfez.
Eram corretos, informados e educados.
Mas eram vazios.
Faltava admitir o essencial: eu também fazia parte do mecanismo, consumindo indignação como entretenimento moral.
O verdadeiro escândalo não é Orelha
A morte de um animal é cruel, repulsiva e criminosa. Mas não é novidade.
O verdadeiro escândalo é outro. É que dezenas de “Orelhas” são violentados todos os dias fora do campo de visão público. Sem inquérito, sem manchete, sem pressão, sem justiça.
Porque não viraram produto.
Enquanto a empatia depender do algoritmo
O caso Orelha terminou nos tribunais. Como deveria. Mas o sistema que o produziu segue intacto.
Plataformas continuam lucrando. Violência continua circulando. Jovens continuam sendo socializados na crueldade. A sociedade continua reagindo apenas quando mandam.
Enquanto a empatia depender de engajamento, narrativa vendável e lógica algorítmica, o horror continuará organizado. Não por monstros isolados. Mas por estruturas eficientes.
Orelha teve justiça.
Outros continuam invisíveis.
Essa é a verdadeira tragédia.
