O Morro dos Ventos Uivantes: Da Brutalidade Literária ao Melodrama Clássico

Laurence Olivier e Merle Oberon em O Morro dos Ventos Uivantes (1939), dirigidos por William Wyler

Como um romance sobre violência psíquica virou um melodrama romântico — e o que se perdeu nessa adaptação.

O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, não é uma história de amor romântico. É um romance sobre obsessão, violência emocional e heranças de ódio.

Ainda assim, o filme de 1939, dirigido por William Wyler, transformou essa narrativa brutal em um melodrama clássico sobre paixão impossível.

Neste artigo, analisamos como essa adaptação reformulou o sentido da obra original — e o que se perdeu no caminho.


A primeira coisa que se perde na travessia de Emily Brontë para William Wyler é a segunda metade do livro.

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, romance de 1847; filme de 1939) encerra onde a morte de Cathy encerra o romance — mas o romance, publicado em 1847, não termina ali. Ele continua, obsessivamente, por mais uma geração inteira.

A vingança de Heathcliff se perpetua nos filhos. A violência se transmite como herança genética. O ciclo só se rompe quando a repetição se exaure em Hareton e na jovem Catherine, que reaprendem, penosamente, a não odiar.

Wyler corta isso. E ao cortar, muda o gênero.

O que era um estudo sobre a crueldade como linguagem — sobre como o trauma se inscreve no corpo, na terra, na arquitetura, na fala — vira um romance gótico clássico. Heathcliff (Laurence Olivier) e Cathy (Merle Oberon) tornam-se amantes trágicos, separados por classe social e orgulho. A charneca deixa de ser um personagem psíquico (espaço de desolação interior) e vira cenário.

Não é que o filme de Wyler seja ruim. É que ele escolhe a redenção onde Brontë escolheu a irredimibilidade.


O que o filme preserva (e transforma)

O roteiro de Ben Hecht e Charles MacArthur mantém a espinha dorsal: o encontro de Heathcliff e Cathy na infância, a humilhação de classe, o casamento de Cathy com Edgar Linton, o retorno vingativo de Heathcliff, a morte de Cathy.

Mas o tom muda radicalmente.

No livro, Heathcliff não é um herói byrônico romântico. É um abusador sistemático. Ele enforca o cachorro de Isabella. Bate em Hareton. Manipula, controla, destrói. Nelly Dean, a narradora, o descreve com horror e fascínio — mas nunca com piedade incondicional. O leitor vê Heathcliff pela estrutura narrativa de Brontë: enquadrado, mediado, problemático.

No filme, ele é Laurence Olivier: belo, intenso, ferido. A câmera de Gregg Toland (o mesmo de Cidadão Kane, dois anos depois) o ilumina com chiaroscuro expressionista. Ele se torna vítima. A violência de classe que sofreu justifica a violência que exerce.

Essa inversão semiótica é o coração da adaptação.

Wyler não quer falar sobre ciclos de abuso. Quer falar sobre amor impossível. E para isso, precisa romantizar o que Brontë deixou brutal.

Ainda assim, em alguns momentos — nos silêncios prolongados de Olivier, na rigidez quase mortuária dos interiores, na recusa em transformar Heathcliff em herói plenamente redimido — o filme deixa escapar vestígios do desconforto original. São rachaduras discretas no verniz melodramático, mas insuficientes para romper sua lógica conciliatória.


O que se perde: a segunda geração e o fim da vingança

Emily Brontë escreveu um romance em duas partes simétricas e opostas.

Na primeira, Heathcliff é vítima e algoz. Na segunda, ele é apenas algoz — até perceber que a vingança não preenche nada. Ele para de comer. Para de dormir. Vê o fantasma de Cathy em todo lugar. Desiste de viver.

A segunda geração (Hareton e a jovem Catherine) é o que impede o livro de ser puro niilismo. Eles reaprendem a ternura. Quebram o ciclo. Não porque são puros, mas porque escolhem não repetir.

Wyler elimina isso.

Ao eliminar, o filme se torna mais sombrio e mais sentimental ao mesmo tempo: mais sombrio porque não há saída (Heathcliff morre pedindo para ser enterrado ao lado de Cathy), mais sentimental porque essa morte é lida como transcendência romântica, não como colapso psíquico.

O fantasma de Cathy e Heathcliff caminhando juntos pela charneca, na cena final, não existe no livro. É pura invenção de Wyler. E funciona, cinematograficamente. Mas é o oposto do que Brontë fez: onde ela recusou o consolo, Wyler oferece sublimação.


A charneca como signo

No romance, a charneca é espaço liminar. Nem civilização, nem selvageria. Nem vida, nem morte. É onde Cathy e Heathcliff se encontram como crianças, fora das regras sociais. E onde Heathcliff vaga como espectro. É o não-lugar onde a identidade se dissolve.

Quando Cathy diz “Eu sou Heathcliff”, não está falando de amor romântico. Está falando de fusão ontológica. Ela não o ama — ela o é. E essa indistinção é aterrorizante, porque significa que a violência dele é também dela.

Wyler tenta capturar isso visualmente. A fotografia de Toland usa neblina, sombras longas, horizontes vazios. Mas a charneca hollywoodiana é cenário controlado, não força telúrica. É bela. E a beleza domestica o horror.

Brontë descreve a charneca como inóspita, repetitiva, sufocante. Um lugar onde se morre de frio, de fome, de solidão. Onde os corpos enterrados não descansam. Onde as pedras têm nome e história.

No filme, ela é sublime. E o sublime, ao contrário do terrível, pode ser contemplado à distância.


O que o corte revela sobre Hollywood (e sobre adaptação)

Em 1939, o Production Code (código de censura de Hollywood) proibia:

  • Adultério não punido
  • Violência gratuita
  • Ambiguidade moral

Wyler não poderia filmar a segunda metade do livro sem violar todas essas regras. Heathcliff tortura Hareton. Isabella foge grávida. Hindley morre alcoólatra. Não há redenção clara — só exaustão do ódio.

Mas mais do que censura, há uma questão de gênero cinematográfico.

Hollywood, nos anos 1930, codificou o romance gótico como melodrama: paixão, obstáculo, sacrifício, morte sublime. Wuthering Heights foi lançado no mesmo ano que …E o Vento Levou. As comparações eram inevitáveis.

Wyler precisava que o público amasse Heathcliff e Cathy. E para isso, precisava apagar tudo o que os tornava insuportáveis.


Conclusão: duas obras, dois sistemas de signos

A adaptação de Wyler não é uma tradução fiel — é uma reescrita genérica.

Ela substitui:

  • Ciclo por linearidade
  • Irredimibilidade por transcendência
  • Abuso por paixão
  • Espaço psíquico por cenário

E ao fazer isso, revela algo fundamental sobre os limites da linguagem cinematográfica clássica: ela ainda não sabia, em 1939, como filmar a ambiguidade moral radical que Brontë propôs.

Para isso, seria preciso esperar o cinema moderno: Buñuel, Bresson, Haneke. Cineastas que aceitam que a câmera pode ser cruel.

O filme de Wyler é tecnicamente impecável. Mas escolheu consolar onde o livro escolheu ferir.

E essa escolha não é neutra. É política, estética, ética.

Porque dizer “eles se amavam tanto que morreram juntos” é muito diferente de dizer “ele a destruiu, e ela deixou, e ambos destruíram todos ao redor, e só a próxima geração conseguiu parar”.

Uma é tragédia romântica.
A outra é diagnóstico.


Emily Brontë escreveu um livro sobre como a violência se transmite.
William Wyler fez um filme sobre como o amor transcende.

Entre os dois, não há conciliação possível.
Só a distância histórica — e a consciência do que se perdeu no caminho.

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