A Engrenagem Vazia do Horror: Por Que o Filme ‘O Som da Morte’ Falha

Apito da morte asteca usado no filme Som da Morte, objeto amaldiçoado ligado à narrativa do terror contemporâneo

Um apito ancestral, um grupo de jovens marcados pela morte e uma promessa clara de franquia. “O Som da Morte” chega aos cinemas tentando repetir fórmulas recentes do horror — mas revela, logo de início, o esgotamento de um modelo que prefere planilhas a imaginação.

Na última semana, a tentativa mais recente de semear uma nova franquia de horror chegou às salas escuras. “Whistle: O Som da Morte”, dirigido por Corin Hardy, é um artefato cultural sintomático: um produto que nasce olhando para o balcão de bilheteria e para as planilhas de sequências potenciais, antes mesmo de definir sua própria alma.

Minha tese é que este filme encarna a crise criativa do horror contemporâneo, onde a lógica da franquia suplanta a necessidade de uma mitologia autêntica, resultando em uma engrenagem narrativa que gira em falso, sem gerar tensão real ou deixar marcas.

O cenário é familiar. Após o estrondoso retorno de “Premonição 6” no ano passado, o mercado volta os olhos para fórmulas testadas. “O Som da Morte” surge nesse vácuo, como um projeto de baixo orçamento que tenta, de forma quase didática, replicar o sucesso alheio.

A premissa é um caldeirão de tendências: um objeto amaldiçoado (o apito da morte asteca), um grupo de adolescentes, mortes previsíveis e a corrida contra um destino selado.

O filme não esconde suas ambições: ele não quer ser apenas um longa; quer ser o capítulo inicial de uma série. Mas é justamente aí que sua engrenagem emperra.

A Mitologia de Catálogo: Apropriação como Acessório

O contexto do horror pós-pandemia é o da segurança. Em um mercado volátil, estúdios e produtoras independentes buscam atalhos validados.

“O Som da Morte” escolhe o atalho da mitologia, mas de forma tão rasa que se torna um mero acessório de cena. O apito da morte asteca, objeto central, é despojado de qualquer peso cultural ou histórico real.

O filme mistura referências maias e astecas sem qualquer trabalho de pesquisa que dê espessura à maldição.

Essa apropriação vazia não é um detalhe; é o sintoma de uma lógica maior. O filme não está interessado no Memento Mori — a reflexão filosófica sobre a mortalidade que a própria franquia “Hereditário” explorou com maestria.

Está interessado no Memento Mori como conceito de marketing, como palavra-chave que soa inteligente no trailer. O objeto amaldiçoado vira um dispositivo narrativo conveniente, não um símbolo carregado de medo ancestral.

A maldição, portanto, não assusta, porque carece de credibilidade e de raízes. É uma regra de jogo, não uma força obscura.

A Síndrome da Fotocópia: Ritmo, Suspense e a Tirania do Jump Scare

O desenvolvimento narrativo de “O Som da Morte” é onde a engrenagem mais range.

Ele adota a estrutura de “Premonição” — descobrir a regra, tentar enganá-la, falhar — mas esvazia-a do elemento crucial: o suspense genuíno. O segundo ato arrastado, focado na investigação burocrática do apito, freada pelo ímpeto das mortes, revela uma falta de confiança na própria premissa.

O filme precisa pausar para explicar o que deveria ser sentido.

E como compensa essa falta de tensão orgânica? Com a tirania do jump scare. A trilha sonora se torna um metrônomo previsível: uma mudança de tom, um silêncio súbito, e o susto obrigatório.

O filme opera sob a falsa equação de que quantidade de jump scares equivale a qualidade no terror. Como disse o crítico Mark Kermode, “o verdadeiro horror reside na antecipação, não na explosão”. Ao priorizar o susto momentâneo sobre a angústia prolongada, “O Som da Morte” entrega uma experiência descartável, que não ecoa após os créditos finais.

Contudo, mesmo em meio a essa engrenagem vazia, há uma peça que tenta, humanamente, funcionar.

O relacionamento entre as personagens de Dafne Keen e Sophie Nélisse, com uma química inegável, oferece um vislumbre do que o filme poderia ter sido. Este subplot romântico e de descoberta pessoal transforma-se, contra todas as expectativas, na âncora emocional da trama.

É um paradoxo revelador: o filme é mais eficaz e tocante quando abandona sua fórmula de mortes elaboradas e se dedica à conexão frágil entre duas jovens. Isso prova que, por baixo do esqueleto da franquia, havia potencial para uma história de verdade.

O Futuro que Não Ecoa: A Conclusão de uma Fórmula sem Alma

“Whistle: O Som da Morte” fecha seu ciclo não com um gemido de terror, mas com o silêncio de uma oportunidade perdida. Ele sintetiza um momento perigoso para a cultura do horror: o da produção em série de conceitos que buscam, antes de mais nada, serem franqueáveis.

O filme é um produto que corre para o seu streaming, onde encontrará seu público cativo em um fim de semana qualquer, gerando dados de engajamento que justificarão — ou não — uma sequência.

A lição que fica é amarga: você não pode fabricar uma mitologia com base em planilhas. O horror que permanece, que vira franquia orgânica como “Premonição” ou “Invocação do Mal”, nasce de uma visão autoral, de um medo específico e de um respeito pelo próprio imaginário que está invocando.

“O Som da Morte” é o oposto: é o horror como exercício de montagem, onde peças de outros sucessos são juntadas, esperando que o conjunto funcione por associação.

O apito do filme soa, portanto, não como um aviso ancestral da morte, mas como o sinal de chamada para uma reunião de produtores.

Ele não anuncia o fim da vida, mas o esgotamento de uma fórmula. E, no silêncio que se segue ao seu último jump scare, o que ecoa não é o medo, mas a pergunta: quantas vezes acharemos que basta replicar a engrenagem, esquecendo que é preciso dar alma ao mecanismo?

O futuro do horror depende da resposta.

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