A jornada de trabalho no mundo varia drasticamente entre os países. Enquanto algumas nações discutem a semana de quatro dias, outras ainda operam com jornadas que ultrapassam 50 horas semanais. Segundo dados recentes da OCDE, a diferença anual de horas trabalhadas por país — entre economias como México e Alemanha — ultrapassa centenas de horas. Mas essa disparidade não é apenas econômica: ela revela valores culturais, escolhas políticas e modelos de sociedade.
Este texto defende que a jornada de trabalho não é apenas uma questão de horas — é um espelho cultural, político e econômico que revela o que cada sociedade decide valorizar quando escolhe como distribuir o tempo humano.
Em 2024, a Bélgica se tornou o primeiro país da Europa a garantir por lei a semana de quatro dias de trabalho sem redução de salário. A notícia circulou o mundo como se fosse ficção científica. No Brasil, enquanto isso, tramita no Congresso uma PEC que pode ampliar a jornada de motoristas para até 12 horas diárias. Dois países, dois planetas. A pergunta que fica é simples e perturbadora: por que o tempo de trabalho varia tanto entre as nações — e o que isso diz sobre nós?
A resposta não está apenas na economia. Está na cultura, na história política de cada país e, sobretudo, nas escolhas que sociedades fazem sobre o que merece ser protegido. Horas trabalhadas são, no fundo, uma declaração de valores.
Este texto percorre as escalas de trabalho nos principais países do mundo para mostrar que por trás de cada modelo existe uma visão de mundo — e que o debate sobre jornada é, na verdade, um debate sobre qual tipo de vida queremos viver.
O Mundo que Trabalha Demais
Para entender as diferenças na jornada de trabalho no mundo, observe o comparativo abaixo com dados recentes da OCDE:
Horas Trabalhadas por Ano (dados OCDE recentes)
| País | Horas Trabalhadas por Ano | Jornada Semanal Legal | Observações |
|---|---|---|---|
| México | ~2.200+ horas | 48h | Maior média da OCDE |
| Costa Rica | ~2.100 horas | 48h | Alta carga anual |
| Coreia do Sul | ~1.900 horas | 52h (limite máximo) | Redução legal recente |
| Japão | ~1.600–1.700 horas | 40h | Histórico de karoshi |
| Brasil | ~1.700–1.900 horas* | 44h | Alta informalidade |
| Alemanha | ~1.340 horas | 40h | Alta produtividade |
| Noruega | ~1.400 horas | 37,5h | Forte equilíbrio |
| Dinamarca | ~1.380 horas | 37h | Alta produtividade por hora |
O México lidera um ranking que ninguém quer vencer. Segundo dados da OCDE, os mexicanos trabalham em média 2.226 horas por ano — mais do que qualquer outro país da organização. Em segundo lugar vem a Costa Rica, seguida pela Coreia do Sul, com cerca de 1.900 horas anuais. Para comparar: um alemão trabalha aproximadamente 1.340 horas por ano. A diferença é de quase um terço da vida produtiva.
O Gwarosa e o Karoshi
Na Coreia do Sul, o fenômeno tem até nome: gwarosa, morte por excesso de trabalho. O país registrou casos documentados de profissionais que morreram após semanas sem dormir adequadamente, presos em culturas corporativas onde sair antes do chefe é visto como deslealdade. O governo coreano chegou a reduzir o limite legal de horas semanais de 68 para 52 em 2018 — mas a pressão cultural ainda supera a lei.
O Japão carrega um problema semelhante com o karoshi — literalmente “morte por overwork” —, fenômeno reconhecido oficialmente desde os anos 1980. Há casos registrados de funcionários que trabalharam mais de 100 horas extras em um único mês antes de morrer de infarto ou suicídio. O governo japonês instituiu um “dia de saída pontual” mensal nas empresas públicas, o que diz muito sobre o nível de distorção: é preciso criar um dia oficial para que as pessoas saiam no horário.
O que une México, Coreia e Japão não é pobreza — é uma combinação de cultura de sacrifício, estrutura econômica baseada em mão de obra intensiva e ausência histórica de movimentos trabalhistas fortes o suficiente para impor limites ao capital.
O Mundo que Trabalha Diferente
Na outra ponta do mapa, os países nórdicos operam em outra frequência. Na Noruega, a jornada semanal legal é de 37,5 horas, mas a média real fica ainda abaixo disso. A Dinamarca tem uma das maiores produtividades por hora trabalhada do mundo justamente porque seus trabalhadores descansam. O conceito dinamarquês de hygge — bem-estar, aconchego, equilíbrio — não é apenas estético. É uma filosofia de vida que atravessa contratos de trabalho.
A Alemanha é o caso mais simbólico. Os alemães trabalham menos horas por ano do que praticamente qualquer grande economia industrial — e ainda assim produzem mais por hora do que países que trabalham muito mais. A explicação está em décadas de negociação coletiva robusta, sindicatos poderosos e uma cultura empresarial que entende descanso como investimento, não como perda.
O filósofo coreano Byung-Chul Han, em seu livro Sociedade do Cansaço, argumenta que a sociedade contemporânea substituiu a exploração externa — o patrão que obriga — pela autoexploração: o trabalhador que se pressiona sozinho, convencido de que produtividade é identidade. É um diagnóstico que explica por que países ricos em horas trabalhadas muitas vezes são pobres em bem-estar.
O Brasil no Meio do Mundo
O Brasil ocupa uma posição contraditória nesse mapa. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943, estabelece 44 horas semanais como limite — abaixo da média de países em desenvolvimento. Mas a realidade é outra. Segundo o IBGE, milhões de brasileiros trabalham mais de 49 horas semanais. A informalidade — que atinge quase 40% da força de trabalho — coloca uma parcela enorme da população fora de qualquer proteção legal.
O debate atual sobre escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de folga — mobilizou o país em 2024 como poucos temas trabalhistas nos últimos anos. A pressão popular por sua revisão revelou algo importante: há uma consciência crescente de que o modelo atual é insustentável, mesmo que as estruturas econômicas ainda resistam à mudança.
O Brasil trabalha muito, descansa mal e produz menos por hora do que países que trabalham menos. Esse triângulo perverso não é destino — é escolha política acumulada ao longo de décadas.
Video: Como as Horas Trabalhadas Variam no Mundo
Este vídeo ilustra de forma visual como as jornadas de trabalho variam entre países, reforçando os dados comparativos apresentados acima.
Perguntas Frequentes sobre Jornada de Trabalho no Mundo
Qual país trabalha mais no mundo?
Segundo dados recentes da OCDE, o México está entre os países com maior média anual de horas trabalhadas, ultrapassando 2.200 horas por ano.
Qual país trabalha menos?
Países como Alemanha, Dinamarca e Noruega estão entre os que registram menor número médio de horas trabalhadas por ano, frequentemente abaixo de 1.500 horas.
O Brasil trabalha mais que a Europa?
O Brasil tem jornada legal de 44 horas semanais, superior à média de muitos países europeus, onde jornadas entre 35 e 40 horas são mais comuns. Além disso, a informalidade aumenta a carga real de trabalho.
Trabalhar menos aumenta a produtividade?
Diversos estudos indicam que países com menor carga horária anual frequentemente apresentam maior produtividade por hora trabalhada, sugerindo que eficiência não depende apenas do tempo dedicado.
A semana de quatro dias já é realidade em algum país?
Alguns países europeus, como a Bélgica, permitem legalmente a compressão da jornada em quatro dias sem redução salarial, mantendo a carga horária total semanal.
Conclusão
O que o mapa das jornadas de trabalho revela, no fim, é que horas não são neutras. Cada hora a mais que um trabalhador passa no emprego é uma hora a menos com os filhos, com o próprio corpo, com a vida que existe fora da produção. Países que entenderam isso mais cedo não são mais generosos — são mais inteligentes sobre o que sustenta uma sociedade no longo prazo.
A verdadeira disputa não é entre países que trabalham muito e países que trabalham pouco. É entre modelos que tratam o ser humano como recurso e modelos que o tratam como fim. Essa distinção tem consequências concretas: em saúde pública, em coesão social, em expectativa de vida, em felicidade mensurável.
Trabalhar menos não é preguiça. É, em muitos casos, a política pública mais sofisticada que um país pode adotar.
