A Família Como Último Refúgio do Ódio: O Que o Crime de Itumbiara Revela Sobre Nós

Imagem conceitual de mulher em ambiente doméstico segurando brinquedo infantil, simbolizando luto, família e reflexão emocional
Quando o refúgio emocional se transforma em silêncio.

Nos dias que antecederam a tragédia, Thales Machado declarou em vídeo: “Família é o que tenho de mais importante na vida.” Dias depois, matou os próprios filhos.

Como explicar que o homem que proclamava publicamente o amor pela família tenha sido o autor de sua destruição? Defendo aqui que a tragédia de Itumbiara não é apenas um caso de polícia, mas um espelho brutal de uma armadilha contemporânea: transformamos a família no último refúgio sagrado — e, paradoxalmente, no depósito silencioso de tudo aquilo que não conseguimos elaborar.


O Altar Doméstico e Seus Sacrifícios

Há décadas, a instituição familiar vem sendo deslocada de seu papel tradicional. Perdemos a fé em tantas coisas — na política, nas instituições, no futuro — que a família passou a ocupar um espaço quase metafísico. Tornou-se a última âncora, o último território onde ainda encenamos o drama da nossa existência com pretensão de sentido eterno.

O caso de Itumbiara expõe o extremo dessa pressão. Imagens idealizadas da família — algumas delas visivelmente artificiais — circulavam em suas redes sociais. Não se tratava apenas de performance digital. Havia ali algo mais profundo: a tentativa de sustentar, por meio da imagem, uma realidade que já se desfazia nos bastidores. Relatos da imprensa mencionaram crise conjugal e suspeitas de traição. O sagrado havia sido profanado — e a resposta foi devastadora.


Onde o Amor Deveria Estar, Instala-se o Espetáculo da Destruição

Vivemos um tempo curioso. Nunca falamos tanto sobre família — e talvez nunca a tenhamos vivido tão pouco.

Transformamos cada momento em conteúdo. O vídeo declarando amor eterno, a imagem cuidadosamente construída, a narrativa da felicidade inabalável. Muitas vezes, essas manifestações não são celebrações espontâneas, mas tentativas ansiosas de provar algo que já não encontra sustentação na intimidade.

A tragédia de Itumbiara nos força a encarar uma verdade incômoda: quando depositamos na família a responsabilidade exclusiva de nos dar sentido, identidade e salvação, criamos um campo de tensão permanente. O amor que deveria ser refúgio pode degenerar em posse. O outro, que deveria ser encontro, vira extensão das nossas expectativas.

E quando essa extensão falha — quando o parceiro decepciona, quando a imagem rui, quando a vida insiste em não obedecer ao roteiro — o que resta? Muitas vezes, resta o ressentimento de quem se sentiu traído não apenas pelo outro, mas pela própria fantasia que construiu.


O Silêncio que Grita nas Entrelinhas

Há um detalhe recorrente em tragédias desse tipo: “A dinâmica dos fatos ainda é apurada.”

Essa frase, burocrática e fria, esconde um abismo. Ninguém jamais saberá com exatidão o que aconteceu dentro daquelas paredes nos momentos finais. E é nesse vazio que a imaginação coletiva se instala.

Talvez seja por isso que casos assim nos perturbem tanto. Não apenas pelo horror do evento, mas pela proximidade desconfortável. Quantas vezes, em conflitos familiares, já experimentamos emoções extremas — frustração, raiva, desejo de fuga? A diferença é que a maioria de nós dispõe de freios sociais, culturais e psicológicos capazes de conter esses impulsos. Quando esses freios falham, o impensável deixa de ser impossível.


A Fratura Exposta do Nosso Tempo

Autoridades afirmaram que a tragédia “atinge toda a sociedade”. A frase, ainda que protocolar, carrega um diagnóstico involuntário.

Atinge porque expõe uma ferida coletiva: a dificuldade contemporânea de lidar com falhas, rupturas e imperfeições. Criamos uma cultura que vende a ideia de que a família deve ser perfeita, a felicidade deve ser visível e o sofrimento deve permanecer oculto.

Mas a vida real é feita justamente de fraturas.

Quando não sabemos elaborar perdas, quando não toleramos frustrações, quando confundimos amor com controle, qualquer fissura pode adquirir proporções existenciais. O colapso de uma relação deixa de ser apenas uma dor privada e passa a ser vivido como aniquilação simbólica.


O Que Fica Depois do Luto

A cidade cumpre seus ritos. Luto oficial, cerimônias, discursos. A engrenagem social segue seu curso inevitável. Mas algumas perguntas permanecem, incômodas e silenciosas.

O que estamos fazendo com o amor que dizemos sentir?

Minha tese é que a família se tornou o palco onde projetamos o melhor e o pior de nós mesmos. Esperamos dela estabilidade absoluta, redenção emocional, sentido permanente. Mas nenhuma instituição humana é capaz de sustentar tamanho peso simbólico.

Talvez a tragédia nos lembre de algo desconfortável: o oposto do amor não é o ódio — é a transformação do outro em propriedade.

Quando o amor vira posse, qualquer ameaça à fantasia de controle pode ser vivida como catástrofe intolerável. E o que deveria ser abrigo corre o risco de se tornar campo de batalha.

A história registrará o nome de Thales Machado como protagonista de uma tragédia irreparável. Mas o pano de fundo é maior do que qualquer indivíduo. É o retrato de uma época que ainda precisa aprender, com urgência, que amar não é possuir — e que aquilo que não elaboramos nunca desaparece. Apenas espera, em silêncio, o momento de voltar para casa.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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