Estou Pensando em Acabar com Tudo: O Horror de Não Existir

Cena do filme Estou Pensando em Acabar com Tudo, de Charlie Kaufman, com personagem coberta de neve
Estou Pensando em Acabar com Tudo (2020), de Charlie Kaufman.

Há um momento em Estou Pensando em Acabar com Tudo em que a protagonista muda de profissão três vezes dentro da mesma conversa. Em uma cena, ela é pintora. Na seguinte, poeta. Depois, física quântica. Ninguém reage. Jake continua dirigindo. A fazenda permanece no horizonte.

E o espectador, se ainda não desistiu, começa a entender: este não é um filme sobre uma viagem. É um filme sobre uma existência construída como projeção.

A obra de Charlie Kaufman, lançada pela Netflix em 2020, não é cinema de entretenimento. É cinema de dissolução. O que inicialmente parece um thriller psicológico sobre um relacionamento sufocante revela-se, gradualmente, como um estudo sobre solidão, envelhecimento e identidade. A pergunta que o filme faz não é “o que está acontecendo?”, mas “quem está realmente ali?”.

Estou Pensando em Acabar com Tudo é uma das mais radicais traduções audiovisuais da angústia existencial contemporânea — e que sua recepção controversa diz mais sobre nosso desconforto com a ambiguidade do que sobre a qualidade da obra.


Iain Reid

O filme é baseado no romance homônimo de Iain Reid, publicado em 2016. Kaufman, porém, não adapta — ele reconstrói. Onde o livro oferecia um suspense com estrutura relativamente definida, o cineasta ergue um labirinto psicológico deliberadamente instável.

A narrativa acompanha uma jovem mulher (Jessie Buckley) em uma viagem à fazenda dos pais do namorado, Jake (Jesse Plemons). Ao longo do trajeto, ela pensa em terminar o relacionamento. Mas, desde cedo, pequenas fissuras indicam que algo não se encaixa: diálogos circulares, inconsistências biográficas, mudanças sutis de figurino e comportamento.

Kaufman já havia explorado a fragmentação identitária em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e levado o colapso da subjetividade ao extremo em Sinédoque, Nova York. Aqui, o procedimento se torna ainda mais radical. A protagonista não possui nome fixo. Suas referências culturais se deslocam. Suas memórias parecem emprestadas.

O filme estreou em plena pandemia — um período em que milhões de pessoas estavam isoladas, confrontando memória, rotina e finitude. Não é coincidência que tenha provocado reações tão intensas: devoção absoluta ou rejeição imediata.


A Arquitetura do Eu Inventado

Kaufman constrói a personagem feminina como uma entidade instável. Ela cita críticas de cinema, recita poemas, formula reflexões intelectuais que parecem vir de diferentes fontes — de Pauline Kael a Eva H.D. Sua identidade não evolui; ela se reorganiza constantemente.

Essa instabilidade não é ruído narrativo. É estrutura.

A personagem funciona como projeção psíquica: um mosaico de traços, vozes e possibilidades. Ela é menos um indivíduo e mais um espaço mental onde desejos, arrependimentos e fantasias se acumulam.

Jake não ama uma pessoa específica. Ele ama a ideia de conexão, a hipótese de não estar sozinho.

A própria mise-en-scène reforça essa lógica. As roupas mudam entre cortes. Os diálogos ecoam variações anteriores. A continuidade clássica dissolve-se em favor de uma lógica subjetiva.


A Família Como Memória Instável

A cena do jantar com os pais de Jake é um dos momentos mais perturbadores do filme. Os personagens envelhecem e rejuvenescem sem transição. A mãe alterna entre acolhimento e fragilidade. O pai oscila entre gentileza, agressividade e apagamento emocional.

Nada disso é apresentado como evento sobrenatural.

É memória em estado bruto.

Kaufman transforma a casa em um espaço psíquico onde o tempo não é linear, mas associativo. Culpa, nostalgia e desconforto coexistem. A fazenda deixa de ser cenário físico e passa a operar como território mental.

Lembramos assim: em camadas, contradições, distorções.


O Tempo Como Armadilha

No terceiro ato, o filme abandona qualquer pretensão de linearidade objetiva. A viagem revela-se como construção mental. A protagonista emerge como figura projetada. E o zelador idoso — aquele homem silencioso que atravessa os corredores da escola — assume o centro gravitacional da narrativa.

Ele não é apenas um personagem paralelo.

Ele é a chave interpretativa.

Kaufman filma a velhice como horror ontológico. Não a velhice romantizada, cercada de reconhecimento, mas a velhice marcada pela invisibilidade. O zelador existe entre resíduos: pôsteres desbotados, troféus de outras gerações, memórias que nunca foram suas.

Ele observa a vida acontecer sempre em outro lugar.

Sempre para outros.


Tulsy Town e o Colapso da Fantasia

A sequência da sorveteria Tulsy Town cristaliza essa ruptura. O espaço é artificial, quase asséptico. As funcionárias parecem desconectadas da realidade do filme. Há um desconforto difuso, uma sensação de que algo essencial está fora de lugar.

É o momento em que a fantasia começa a rachar visivelmente.

O porão proibido, os vestígios de outras identidades, o rash na pele do zelador — tudo aponta para a materialidade do corpo e para a impossibilidade de sustentar indefinidamente a ficção.


O Delírio Como Último Refúgio

No desfecho, Kaufman abandona qualquer compromisso com o realismo psicológico convencional. O musical, o balé, o discurso de premiação — tudo se organiza como delírio compensatório.

Não é celebração.

É súplica.

A cena final encena o desejo fundamental do personagem: ser visto, reconhecido, validado. O palco imaginário surge como compensação tardia para uma vida marcada pela ausência de testemunho.

O filme termina com o zelador isolado, dentro do carro coberto de neve.

Sem plateia.

Sem narrativa redentora.


O Espelho Que Muitos Recusaram

A recepção dividida de Estou Pensando em Acabar com Tudo é previsível. Vivemos em uma cultura que privilegia resolução, clareza, superação. Kaufman oferece o oposto: ambiguidade, desconforto, dissolução identitária.

O filme opera como espelho invertido das ficções que construímos sobre nós mesmos. Quantas versões idealizadas de nossa história inventamos para suportar a experiência cotidiana? Quantas conexões ensaiamos mentalmente que jamais se concretizam?

Kaufman transforma essas perguntas em linguagem cinematográfica.

E muitos preferem não olhar.


O Legado da Recusa

Estou Pensando em Acabar com Tudo dificilmente será um clássico popular. Seu destino natural é o culto — a revisitação por espectadores dispostos a habitar a vertigem.

Ele pertence à linhagem de obras que recusam o consolo: Persona, O Espelho, Sinédoque, Nova York. Filmes que não explicam, não encerram, não curam. Apenas expõem.

Kaufman realizou um filme sobre a mente como abrigo e prisão. Sobre a identidade como construção precária. Sobre o tempo como mecanismo de erosão.

No fim, a neve cobre tudo.

E o que resta não é uma história de amor, mas o silêncio de uma existência que buscava, desesperadamente, ser percebida.

Talvez seja por isso que o filme incomode tanto.

Ele não nos oferece respostas.

Ele nos oferece um reflexo.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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