Estou Pensando em Acabar com Tudo: O Horror de Não Existir
Há um momento em Estou Pensando em Acabar com Tudo em que a protagonista muda de profissão três vezes dentro da mesma conversa. Em uma cena, ela é pintora. Na seguinte, poeta. Depois, física quântica. Ninguém reage. Jake continua dirigindo. A fazenda permanece no horizonte.
E o espectador, se ainda não desistiu, começa a entender: este não é um filme sobre uma viagem. É um filme sobre uma existência construída como projeção.
A obra de Charlie Kaufman, lançada pela Netflix em 2020, não é cinema de entretenimento. É cinema de dissolução. O que inicialmente parece um thriller psicológico sobre um relacionamento sufocante revela-se, gradualmente, como um estudo sobre solidão, envelhecimento e identidade. A pergunta que o filme faz não é “o que está acontecendo?”, mas “quem está realmente ali?”.
Estou Pensando em Acabar com Tudo é uma das mais radicais traduções audiovisuais da angústia existencial contemporânea — e que sua recepção controversa diz mais sobre nosso desconforto com a ambiguidade do que sobre a qualidade da obra.
Iain Reid
O filme é baseado no romance homônimo de Iain Reid, publicado em 2016. Kaufman, porém, não adapta — ele reconstrói. Onde o livro oferecia um suspense com estrutura relativamente definida, o cineasta ergue um labirinto psicológico deliberadamente instável.
A narrativa acompanha uma jovem mulher (Jessie Buckley) em uma viagem à fazenda dos pais do namorado, Jake (Jesse Plemons). Ao longo do trajeto, ela pensa em terminar o relacionamento. Mas, desde cedo, pequenas fissuras indicam que algo não se encaixa: diálogos circulares, inconsistências biográficas, mudanças sutis de figurino e comportamento.
Kaufman já havia explorado a fragmentação identitária em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e levado o colapso da subjetividade ao extremo em Sinédoque, Nova York. Aqui, o procedimento se torna ainda mais radical. A protagonista não possui nome fixo. Suas referências culturais se deslocam. Suas memórias parecem emprestadas.
O filme estreou em plena pandemia — um período em que milhões de pessoas estavam isoladas, confrontando memória, rotina e finitude. Não é coincidência que tenha provocado reações tão intensas: devoção absoluta ou rejeição imediata.
A Arquitetura do Eu Inventado
Kaufman constrói a personagem feminina como uma entidade instável. Ela cita críticas de cinema, recita poemas, formula reflexões intelectuais que parecem vir de diferentes fontes — de Pauline Kael a Eva H.D. Sua identidade não evolui; ela se reorganiza constantemente.
Essa instabilidade não é ruído narrativo. É estrutura.
A personagem funciona como projeção psíquica: um mosaico de traços, vozes e possibilidades. Ela é menos um indivíduo e mais um espaço mental onde desejos, arrependimentos e fantasias se acumulam.
Jake não ama uma pessoa específica. Ele ama a ideia de conexão, a hipótese de não estar sozinho.
A própria mise-en-scène reforça essa lógica. As roupas mudam entre cortes. Os diálogos ecoam variações anteriores. A continuidade clássica dissolve-se em favor de uma lógica subjetiva.
A Família Como Memória Instável
A cena do jantar com os pais de Jake é um dos momentos mais perturbadores do filme. Os personagens envelhecem e rejuvenescem sem transição. A mãe alterna entre acolhimento e fragilidade. O pai oscila entre gentileza, agressividade e apagamento emocional.
Nada disso é apresentado como evento sobrenatural.
É memória em estado bruto.
Kaufman transforma a casa em um espaço psíquico onde o tempo não é linear, mas associativo. Culpa, nostalgia e desconforto coexistem. A fazenda deixa de ser cenário físico e passa a operar como território mental.
Lembramos assim: em camadas, contradições, distorções.
O Tempo Como Armadilha
No terceiro ato, o filme abandona qualquer pretensão de linearidade objetiva. A viagem revela-se como construção mental. A protagonista emerge como figura projetada. E o zelador idoso — aquele homem silencioso que atravessa os corredores da escola — assume o centro gravitacional da narrativa.
Ele não é apenas um personagem paralelo.
Ele é a chave interpretativa.
Kaufman filma a velhice como horror ontológico. Não a velhice romantizada, cercada de reconhecimento, mas a velhice marcada pela invisibilidade. O zelador existe entre resíduos: pôsteres desbotados, troféus de outras gerações, memórias que nunca foram suas.
Ele observa a vida acontecer sempre em outro lugar.
Sempre para outros.
Tulsy Town e o Colapso da Fantasia
A sequência da sorveteria Tulsy Town cristaliza essa ruptura. O espaço é artificial, quase asséptico. As funcionárias parecem desconectadas da realidade do filme. Há um desconforto difuso, uma sensação de que algo essencial está fora de lugar.
É o momento em que a fantasia começa a rachar visivelmente.
O porão proibido, os vestígios de outras identidades, o rash na pele do zelador — tudo aponta para a materialidade do corpo e para a impossibilidade de sustentar indefinidamente a ficção.
O Delírio Como Último Refúgio
No desfecho, Kaufman abandona qualquer compromisso com o realismo psicológico convencional. O musical, o balé, o discurso de premiação — tudo se organiza como delírio compensatório.
Não é celebração.
É súplica.
A cena final encena o desejo fundamental do personagem: ser visto, reconhecido, validado. O palco imaginário surge como compensação tardia para uma vida marcada pela ausência de testemunho.
O filme termina com o zelador isolado, dentro do carro coberto de neve.
Sem plateia.
Sem narrativa redentora.
O Espelho Que Muitos Recusaram
A recepção dividida de Estou Pensando em Acabar com Tudo é previsível. Vivemos em uma cultura que privilegia resolução, clareza, superação. Kaufman oferece o oposto: ambiguidade, desconforto, dissolução identitária.
O filme opera como espelho invertido das ficções que construímos sobre nós mesmos. Quantas versões idealizadas de nossa história inventamos para suportar a experiência cotidiana? Quantas conexões ensaiamos mentalmente que jamais se concretizam?
Kaufman transforma essas perguntas em linguagem cinematográfica.
E muitos preferem não olhar.
O Legado da Recusa
Estou Pensando em Acabar com Tudo dificilmente será um clássico popular. Seu destino natural é o culto — a revisitação por espectadores dispostos a habitar a vertigem.
Ele pertence à linhagem de obras que recusam o consolo: Persona, O Espelho, Sinédoque, Nova York. Filmes que não explicam, não encerram, não curam. Apenas expõem.
Kaufman realizou um filme sobre a mente como abrigo e prisão. Sobre a identidade como construção precária. Sobre o tempo como mecanismo de erosão.
No fim, a neve cobre tudo.
E o que resta não é uma história de amor, mas o silêncio de uma existência que buscava, desesperadamente, ser percebida.
Talvez seja por isso que o filme incomode tanto.
Ele não nos oferece respostas.
Ele nos oferece um reflexo.
