Por Que a Cultura Pop Nunca Abandona o Herói?
Da Odisseia aos Vingadores, a cultura pop repete a mesma estrutura há milênios. A questão não é por que o herói sempre vence — mas o que ele esconde quando vence.
Em maio de 2023, Guardiões da Galáxia Vol. 3 arrecadou mais de 800 milhões de dólares nas bilheterias mundiais contando a história de um grupo de inadaptados que, contra todas as probabilidades, salva o universo. Em setembro do mesmo ano, The Last of Us — série da HBO baseada em videogame — ganhou múltiplos prêmios Emmy narrando a jornada de um homem destruído que atravessa um mundo apocalíptico para proteger uma menina.
Formatos diferentes, orçamentos distintos, públicos variados. Mas uma estrutura idêntica.
Por que, com toda a capacidade criativa da indústria do entretenimento global, continuamos contando a mesma história? E — mais importante — o que essa repetição diz sobre nós?
Este texto defende que o arquétipo do herói na cultura pop não é apenas uma fórmula narrativa bem-sucedida. Ele é um mecanismo psíquico coletivo: uma tecnologia emocional que as sociedades usam para processar medo, construir identidade e adiar certas perguntas que preferem não responder.
A Fórmula Que Tem Três Mil Anos
Em 1949, o mitólogo Joseph Campbell publicou O Herói de Mil Faces, obra em que descreveu o que chamou de “monomito”: uma estrutura narrativa encontrada em culturas tão díspares quanto a Grécia antiga, a Índia védica e os povos indígenas da América. O herói parte de um mundo comum, enfrenta uma provação extraordinária, transforma-se e retorna com um dom para sua comunidade.
Campbell não estava inventando uma teoria. Estava mapeando algo que já existia. E o que ele mapeou foi tão preciso que, décadas depois, George Lucas usaria explicitamente seu trabalho para construir Star Wars — o filme que, em 1977, reinventou o que o cinema popular poderia ser. A partir dali, a indústria encontrou um manual.
O resultado está nos dados: dos 50 filmes de maior bilheteria de todos os tempos, mais de 80% seguem alguma variação da jornada do herói. Não é acidente — é estratégia. Mas a questão que raramente se faz é: estratégia a serviço de quê?
O Herói Como Espelho Deformado
Quando assistimos a um herói, não estamos apenas nos divertindo. Estamos nos identificando — e essa identificação não é inocente. O pesquisador holandês Wim Staat, estudando narrativas de super-heróis, observou que o público tende a absorver não apenas os valores explícitos do personagem, mas também sua cosmologia implícita: a ideia de que o mundo tem um sentido, que a virtude é recompensada e que um indivíduo excepcional pode, sozinho, mudar o curso dos eventos.
Isso é reconfortante. E é exatamente aí que mora o problema.
Tony Stark inventa uma solução tecnológica para uma ameaça cósmica. Batman usa sua fortuna pessoal para combater o crime. Katniss Everdeen carrega nos ombros a revolução de um povo inteiro. Em todos esses casos, a estrutura narrativa converge para o mesmo ponto: o problema coletivo tem solução individual. A crise é real, mas a resposta é um homem — ou uma mulher — fora do comum.
“O herói pop não resolve crises coletivas. Ele as personifica — e ao personificá-las, sugere que a salvação é uma questão de caráter excepcional, não de estrutura social.”
Essa lógica tem consequências fora da tela. Pesquisas em psicologia política, como as conduzidas por Scott Allison da Universidade de Richmond, indicam que a exposição sistemática a narrativas heroicas individuais aumenta a crença em lideranças carismáticas e reduz o engajamento com soluções institucionais. Em outras palavras: quanto mais heróis consumimos, mais esperamos um salvador — e menos confiamos em processos coletivos.
Quando o Mito Vira Produto
O arquétipo do herói existe há milênios porque responde a uma necessidade psíquica genuína: diante do caos e da morte, as sociedades humanas precisam de narrativas que tragam ordem, sentido e esperança. Não há nada de errado nisso — é uma das funções mais antigas da arte.
O problema começa quando essa necessidade psíquica é capturada por uma lógica industrial. A Marvel, por exemplo, não apenas conta histórias de heróis — ela administra um universo narrativo com a precisão de uma corporação multinacional, calculando ciclos de lançamento, arcos emocionais e saturação de mercado. O mito vira IP. O arquétipo vira franquia. E a jornada do herói — que Campbell descreveu como transformação genuína — vira roteiro com pontos de ação pré-fixados.
O contraponto é justo: nem toda narrativa heroica pop é rasa. Breaking Bad inverte o arquétipo — Walter White é o herói que se torna o vilão. BoJack Horseman desconstrói a redenção. The Boys satiriza o culto ao super-herói com violência quase didática. A cultura pop é mais ambivalente do que seus críticos mais severos admitem.
Mas essas exceções confirmam a regra ao precisar se posicionar contra ela. O fato de que The Boys precisa ser uma sátira para questionar o que Homem de Ferro celebra revela a força gravitacional do arquétipo. Desconstruir o herói ainda exige, como ponto de partida, o herói.
O momento de virada está aqui: o arquétipo não é o problema. O problema é a ausência de alternativas narrativas com o mesmo alcance e o mesmo orçamento. Histórias de transformação coletiva, de vulnerabilidade sem redenção, de vitórias parciais e ambíguas — essas narrativas existem, mas vivem nas margens. O centro pertence ao herói.
Conclusão
O herói pop não vai desaparecer — e talvez não deva. Ele responde a algo real na psique humana: o desejo de sentido diante do caos, de coragem diante do medo, de esperança diante do fim. Campbell tinha razão ao enxergar nele um padrão universal, não uma invenção ocidental.
Mas uma civilização que só sabe contar histórias de salvadores individuais está, silenciosamente, treinando sua imaginação para esperar por alguém que resolva seus problemas — em vez de construir as estruturas que os resolvam. A pergunta que a cultura pop raramente faz é: e se não vier nenhum herói? E se o problema for grande demais para um homem, por mais excepcional que seja?
“Talvez o próximo passo da maturidade cultural seja aprender a contar histórias onde ninguém salva o mundo — mas onde o mundo, lentamente, aprende a se salvar.”
