Euphoria e o Colapso do Crescer: Por Que a Série Mais Perturbadora da TV Ainda Não Terminou de nos Assombrar
Este texto defende que Euphoria não é uma série sobre adolescentes. É uma série sobre o que a sociedade adulta fez com a adolescência — e por que prefere olhar para isso como entretenimento a encarar como sintoma.
Em 2019, uma série estreou na HBO e dividiu o mundo em dois grupos: os que disseram “isso é pornografia disfarçada de arte” e os que choraram no banheiro assistindo sozinhos às três da manhã. Raramente uma obra audiovisual provocou reações tão opostas e tão intensas ao mesmo tempo. Euphoria, criada por Sam Levinson e baseada na série israelense homônima, virou fenômeno global, referência estética, objeto de escândalo e, sobretudo, espelho incômodo. O problema de espelhos incômodos é que a maioria das pessoas prefere quebrá-los a se olhar neles.
O debate sobre a série voltou com força nos últimos anos — com o anúncio da terceira temporada, com as polêmicas públicas entre Levinson e parte do elenco, e com uma geração que cresceu assistindo à Rue Bennett desabar e ainda não sabe muito bem o que fazer com o que sentiu. O que Euphoria tocou não foi apenas sensibilidade estética. Foi uma ferida coletiva que muita gente nem sabia que tinha.
O Mundo que Construímos para Eles
Para entender Euphoria, é preciso entender o contexto que a tornou possível — e necessária.
A geração retratada na série é a Geração Z, nascida entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010. São os primeiros humanos que cresceram com redes sociais como infraestrutura emocional, não como novidade tecnológica. Instagram, TikTok e Snapchat não são ferramentas que eles usam — são ambientes em que habitam. E nesses ambientes, a performance da felicidade é condição de sobrevivência social.
Estudos do CDC americano apontaram, entre 2019 e 2023, aumentos significativos de ansiedade, depressão e ideação suicida entre adolescentes, especialmente meninas. A pandemia acelerou o colapso, mas não o criou. Ele já estava lá. Euphoria chegou exatamente quando esse colapso começava a vazar para fora dos quartos fechados.
A série não inventou a dor. Ela apenas recusou olhar para o outro lado.
A Estética Como Argumento
Uma das críticas mais recorrentes à série é que ela glamouriza o que deveria condenar — drogas, sexo, violência, autodestruição. É uma crítica que revela mais sobre quem a faz do que sobre a obra em si.
Euphoria usa beleza visual de forma deliberada e perturbadora. As sequências filmadas pelo diretor de fotografia Marcell Rév — com luzes neon, close-ups de glitter sobre pele suada, câmera lenta sobre corpos em colapso — não estão ali para seduzir o espectador à imitação. Estão ali para reproduzir a lógica interna da experiência adolescente contemporânea: tudo parece intenso, tudo parece importante, tudo parece mais vivo do que é. A estética é a tese.
O semiólogo Roland Barthes dizia que a cultura frequentemente transforma história em natureza — faz parecer natural o que é construído. Euphoria faz o inverso: pega o que parece natural na adolescência (a festa, o desejo, a euforia do título) e revela a estrutura artificial e dolorosa por baixo. Quando Rue narra sua própria história com distância clínica, ou quando Jules se olha no espelho e não reconhece o que vê, a série está desmontando a naturalização da juventude como tempo feliz.
A beleza não glamouriza o caos. Ela mostra por que o caos parece tão atraente — e por que isso é exatamente o problema.
O que os Adultos Não Conseguem Ver
Aqui está o contraponto que a série raramente recebe crédito por construir: Euphoria é também uma crítica feroz ao mundo adulto.
Os pais na série não são monstros. São pessoas ausentes de formas muito específicas e muito reconhecíveis. A mãe de Rue ama a filha e não sabe como alcançá-la. O pai de Cassie nunca aparece. Os adultos em posição de poder — professores, conselheiros, figuras de autoridade — aparecem brevemente, ineficazes, desconectados. Não por maldade. Por incapacidade estrutural de enxergar o que está diante deles.
Isso é o ponto de virada que muita análise da série perde: Euphoria não é sobre adolescentes que se autodestruem no vácuo. É sobre adolescentes que se autodestruem num mundo que os formou para a performance e os abandonou na execução. A euforia do título não é alegria. É o estado alterado que se produz quando alguém precisa sentir algo num ambiente que anestesiou tudo que era real.
A frase que resume a série não está no roteiro. Está no espaço entre as cenas: ninguém aqui sabe como estar presente para ninguém.
O Rastro que Ela Deixa
Euphoria permanece porque tocou numa questão que não tem resposta fácil: o que significa crescer num mundo que simultaneamente exige tudo de você e não oferece estrutura para nada?
A geração que assistiu à série entre 2019 e hoje está agora na casa dos vinte anos, navegando mercados de trabalho instáveis, crises climáticas, colapsos políticos e a herança emocional de uma adolescência parcialmente vivida em telas. Rue Bennett não era um personagem distante. Era o espelho que alguém finalmente teve coragem de segurar.
Séries passam. Fenômenos culturais se dissipam. Mas as perguntas que Euphoria fez — sobre identidade, sobre desejo, sobre o preço da performance, sobre o que os adultos devem às crianças que formaram — essas perguntas permanecem abertas, sem resposta e sem prazo de validade.
Talvez o maior mérito da série seja justamente esse: ela não nos deixa confortáveis o suficiente para esquecê-la.
