Por Que Red Dead Redemption 2 Incomoda Até Quem o Ama
Este texto defende que Red Dead Redemption 2 não é apenas o melhor jogo já feito — é o primeiro a nos fazer envergonhar de apertar o gatilho.
Em outubro de 2018, milhões de pessoas acordaram mais cedo para buscar uma cópia de um jogo sobre cowboys no século XIX. Não era nostalgia. Era outra coisa. Algo que a indústria do entretenimento raramente consegue provocar: a sensação de que você está prestes a vivenciar algo que vai mudar o que você acha possível dentro de uma tela. Seis anos depois, o debate ainda não fechou. Red Dead Redemption 2 é o melhor jogo de todos os tempos?
O problema central não é técnico. Não é sobre gráficos ou mecânicas — embora ambos sejam extraordinários. O problema é filosófico: o que significa um jogo ser “o melhor”? E por que RDR2, especificamente, consegue polarizar até os jogadores que o amaram profundamente?
Este texto não vai apenas defender o jogo. Vai tentar explicar por que ele representa uma virada na história da mídia interativa — e por que essa virada ainda desconforta muita gente.
Uma Indústria que Aprendeu a Contar Histórias
Durante décadas, o videogame foi tratado como entretenimento menor. Divertido, sim. Arte, talvez. Mas literatura? Jamais. A virada começou a se consolidar nos anos 2010, com jogos como The Last of Us (2013) e The Witcher 3 (2015), que mostraram que narrativa e jogabilidade podiam coexistir sem se destruir.
A Rockstar Games, criadora de RDR2, construiu sua reputação em cima de mundos abertos caóticos e satíricos — Grand Theft Auto é o exemplo mais óbvio. Mas com Red Dead Redemption 2, a empresa fez algo inesperado: desacelerou. Intencionalmente. Em um mercado viciado em estímulo constante, eles criaram um jogo que pede paciência, silêncio e contemplação.
O resultado foi um orçamento estimado em mais de 500 milhões de dólares, oito anos de desenvolvimento e um produto que vendeu mais de 61 milhões de cópias até 2024 — números que rivalizam com os maiores lançamentos da história do cinema.
O Que Torna RDR2 Diferente: A Lentidão Como Argumento
O primeiro choque de quem começa RDR2 é a velocidade — ou a falta dela. O personagem caminha devagar. O cavalo galopa, mas nunca parece apressado. Você pode passar minutos apenas observando um pôr do sol no deserto, sem missão, sem objetivo. Isso irrita jogadores acostumados com ritmo frenético. E é exatamente aí que o jogo faz sua primeira declaração crítica.
A lentidão em RDR2 não é bug. É linguagem. O design força o jogador a habitar o mundo, não apenas atravessá-lo. O filósofo e crítico cultural Byung-Chul Han diria que vivemos em uma “sociedade do cansaço”, viciada em produtividade e incapaz de contemplação. RDR2 é, nesse sentido, um ato de resistência embutido em um produto comercial.
Arthur Morgan, o protagonista, é um fora da lei que começa o jogo como executor — e termina como um homem tentando entender se há redenção possível para alguém como ele. Essa jornada não é contada em cutscenes grandiosas. É construída em pequenos momentos: uma conversa à beira da fogueira, um cervo que você decide não matar, uma carta que você escreve para ninguém.
O Incomodo Central: Você É o Vilão
Aqui está o contraponto que os defensores do jogo precisam enfrentar: RDR2 é moralmente perturbador de um jeito que poucos jogos têm coragem de ser. O mundo reage às suas escolhas com uma consistência brutal. Se você mata civis, a comunidade muda. Se você negligencia seu cavalo, ele morre com menos bravura. O jogo registra tudo.
Essa é a virada interpretativa central: RDR2 não deixa o jogador se sentir herói passivamente. Ele exige que você negocie com sua própria brutalidade. Em determinado momento, você percebe que passou horas dentro de um sistema que o recompensou por violência — e que o jogo estava, silenciosamente, documentando isso.
Nenhum outro jogo fez isso com tanta sofisticação. Nem mesmo The Last of Us 2, que tentou provocação similar mas de forma mais explícita e, por isso, mais fácil de rejeitar. RDR2 te seduz primeiro. Depois apresenta a conta.
Conclusão: O Melhor Jogo ou o Jogo Mais Importante?
A pergunta “melhor jogo de todos os tempos” é, em última análise, a pergunta errada. Melhor em quê? Para quem? Em qual momento da vida?
Mas se reformularmos: qual jogo expandiu mais radicalmente o que a mídia interativa pode ser — emocional, narrativa e filosoficamente — Red Dead Redemption 2 tem um argumento difícil de rebater. Ele tratou o jogador como adulto capaz de suportar ambiguidade moral, lentidão contemplativa e uma tragédia sem resolução fácil.
“Num mercado que vende evasão, RDR2 vendeu responsabilidade. Essa é sua grandeza — e o motivo pelo qual ainda divide opiniões.”
O cavalo de Arthur Morgan galopa para um horizonte que não oferece salvação garantida. E quando o sol se põe naquele mundo de 1899, algo estranhamente real acontece: você sente falta de um lugar que nunca existiu, de um homem que nunca foi real, de uma vida que você mesmo destruiu enquanto jogava.
Isso não é entretenimento. Isso é literatura.
