Beast Games: a nova religião do dinheiro (e a estética da crueldade)

Imagem promocional de Beast Games com MrBeast cercado por participantes e dinheiro no Amazon Prime Video
Mil participantes, prêmios milionários e eliminações brutais: Beast Games virou fenômeno — e debate cultural.

Cem milhões de dólares. É o maior prêmio da história dos reality shows. Em dezembro de 2024, o Amazon Prime Video estreou Beast Games, o programa de MrBeast — o maior criador de conteúdo do mundo —, com mil participantes competindo por uma quantia que a maioria das pessoas jamais verá reunida em uma conta bancária. O episódio de estreia foi assistido por dezenas de milhões de pessoas nas primeiras 48 horas. O fenômeno não é apenas televisivo. É cultural. E merece ser lido com cuidado.

Minha tese é que Beast Games não é só entretenimento: é o momento em que a lógica do YouTube se fundiu com a lógica do capitalismo de espetáculo para produzir algo novo — um ritual coletivo onde o dinheiro ocupa o lugar que a salvação ocupava na religião.

O que o programa revela não é a generosidade de MrBeast. É o que estamos dispostos a assistir — e o que isso diz sobre nós.


O Espetáculo Como Escritura Sagrada

MrBeast, cujo nome real é Jimmy Donaldson, construiu seu império sobre um princípio simples: escala. Enquanto outros YouTubers davam presentes a uma pessoa, ele dava a cem. Enquanto outros faziam desafios, ele os transformava em produções cinematográficas. A fórmula sempre foi a mesma — generosidade performática em doses industriais — e sempre funcionou.

Beast Games é a versão máxima dessa fórmula. Mil pessoas. Um prêmio absurdo. Eliminações em massa. O formato lembra Round 6 — referência que o próprio programa não tenta esconder —, mas com uma diferença crucial: aqui, ninguém morre de mentira. A humilhação é real. O desespero é real. As lágrimas são reais.

É aqui que a semiótica do programa começa a revelar sua camada mais incômoda. Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, argumentou que o espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. Em Beast Games, a relação social é explícita: pessoas reais em situação de vulnerabilidade financeira competem enquanto milhões assistem confortavelmente. O sofrimento é o produto. A esperança é o combustível.


A Teologia do Merecimento

Todo sistema religioso tem sua teologia. A de Beast Games é a do merecimento — a crença de que quem vence é quem mais quer, mais se esforça, mais resiste. É o Evangelho da Prosperidade em formato de reality.

Não é coincidência que vários participantes do programa falem sobre suas dívidas, doenças na família, sonhos adiados. A produção seleciona essas histórias com precisão cirúrgica. Elas funcionam como confissões — o momento em que o fiel expõe sua fragilidade diante do altar para merecer a graça.

O dinheiro, nesse contexto, não é apenas prêmio. É redenção. Ganhar cem milhões de dólares num programa de televisão significa que o universo te escolheu. Que você merecia. Que sua dor tinha um propósito.

Essa narrativa é poderosa porque ecoa algo profundamente americano — e cada vez mais globalizado: a ideia de que riqueza é sinal de virtude, e pobreza, de falha pessoal. Beast Games não inventou esse mito. Apenas o transformou em entretenimento de alta definição.


A Estética da Crueldade Como Produto

O contraponto necessário: há quem defenda que programas como esse democratizam o acesso a grandes prêmios, dão visibilidade a histórias comuns, e representam uma forma legítima de entretenimento. MrBeast, afinal, realmente distribui dinheiro. As pessoas participam voluntariamente.

O argumento é válido — e insuficiente.

A crueldade de Beast Games não está na violência física. Está na arquitetura emocional do formato. O programa é construído para maximizar o momento da eliminação: a câmera fecha no rosto de quem perde, a música sublinha o colapso, a narrativa edita o fracasso como drama. Isso não é acidente de produção. É escolha estética deliberada.

Susan Sontag, em Diante da Dor dos Outros, escreveu que nos acostumamos a consumir imagens de sofrimento alheio com uma distância que nos protege da empatia real. Beast Games opera exatamente nesse registro — só que o sofrimento não é de vítimas de guerra ou desastre natural. É de pessoas comuns que queriam pagar suas dívidas e toparam ser filmadas enquanto tentavam.

A crueldade aqui tem estética. Tem ritmo. Tem trilha sonora. E por isso é mais difícil de nomear.


Conclusão: O que Estamos Adorando

Beast Games vai acabar. O vencedor vai ser coroado, o dinheiro vai ser entregue, o ciclo vai recomeçar com outro programa, outro criador, outra escala absurda. Mas o que o fenômeno deixa como rastro é mais duradouro do que qualquer episódio.

Vivemos num momento em que a atenção é moeda, e a emoção alheia é matéria-prima. MrBeast não é uma anomalia — é o sintoma mais bem-acabado de um sistema que aprendeu a transformar desigualdade em conteúdo e esperança em produto.

A pergunta que o programa nos força a encarar não é “quem vai ganhar?”. É: o que diz de nós o fato de que não conseguimos parar de assistir?

Toda religião tem seus fiéis. E toda religião precisa de um sacrifício.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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