Quando o Demônio é o Protagonista: Nefarious (2023) e a Batalha Pela Alma do Cinema Cristão
O filme de horror, em sua raiz mais primitiva, é um gênero do questionamento. Ele pergunta o que se esconde na escuridão, quais são os limites da sanidade. Sua força está no mistério, na ambiguidade, no mal que resiste à categorização. Nefarious (2023) é diferente. Ele não sugere; ele prega.
O longa é dirigido pela dupla Chuck Konzelman e Cary Solomon — nomes conhecidos no nicho do cinema cristão de grande orçamento —, o filme se apresenta como um thriller sobrenatural sobre um psiquiatra avaliando um serial killer no corredor da morte que alega ser um demônio.
A premissa promete o jogo entre razão e fé, ciência e superstição. O que entrega, no entanto, é um debate teológico rigidamente coreografado, onde o demônio não é uma força do caos, mas um doutrinador eloquente, e a cela de prisão se transforma no palco de uma batalha pela alma não apenas de um homem, mas da modernidade secular.
Este não é apenas mais um filme religioso.
É um ato de apropriação cultural. Nefarious tenta, com frieza calculista, sequestrar a gramática e a tensão do horror para servir a um propósito evangelizador explícito. O resultado é um objeto cultural profundamente divisivo: um fracasso crítico estrondoso que, ao mesmo tempo, encontrou um público cativo e gerou um fenômeno de discussão em igrejas e mídias especializadas.
Analisar Nefarious vai além da crítica cinematográfica. É observar a tensão atual no cinema cristão entre o desejo de entretenimento e a urgência da mensagem, entre dialogar com a cultura e confrontá-la. É testemunhar o momento em que o demônio deixa de ser a antítese do herói para se tornar o protagonista de seu próprio — e muito particular — sermão.
A Fórmula do Sucesso
A história de Nefarious começa em um romance e em uma indústria cinematográfica paralela. O filme é uma adaptação do livro A Nefarious Plot (2016), do conservador Steve Deace. Sua semente já é um texto carregado de uma visão de mundo específica, destinado a um público que consome narrativas de seu engajamento religioso.
A direção ficou para Chuck Konzelman e Cary Solomon, uma dupla que construiu uma carreira navegando as águas entre Hollywood e o nicho cristão. Eles são os roteiristas de Deus Não Está Morto (2014), sucesso comercial de baixo orçamento e distribuição focada em igrejas.
Com Nefarious, repetiram a fórmula. Produzido pela sua própria Solomon Konzelman Productions em parceria com a RockBridge Productions, o filme foi realizado com um orçamento estimado em poucos milhões, típico do gênero — e filmado longe dos centros cinematográficos tradicionais.
O lançamento, em 2023, foi precedido por uma campanha de marketing que mirou diretamente sua audiência-alvo: congregações religiosas conservadoras.
A estratégia funcionou.
Nefarious arrecadou cerca de 13 milhões de dólares nas bilheterias norte-americanas, um retorno excepcional para seu custo. No entanto, esse sucesso financeiro coexiste com um dos abismos mais abissais já registrados na plataforma Rotten Tomatoes: uma aprovação de 0% da crítica na época, contra uma nota superior a 90% do público.
Esse dado mapeia um território cultural dividido.
Boa parte da crítica taxou o filme de “tedioso”, “didático” e “cinematograficamente pobre”. Do outro lado, líderes religiosos e veículos de mídia cristã o elogiaram como “uma obra corajosa”, “um filme necessário” e “uma ferramenta poderosa para evangelização”.
Nefarious deixou de ser um simples produto de entretenimento para se tornar um artefato cultural, um ponto de discussão em sermões e um exemplo da busca por uma contra-narrativa fílmica ao secularismo dominante. Seu contexto não é o do cinema como missão.
O Xadrez verbal do protagonista
O núcleo de Nefarious é uma cela.
Um espaço frio, iluminado por uma luz fluorescente. Esta escolha estética é a primeira metáfora do filme. A direção de Konzelman e Solomon abdica de qualquer ambição visual expansiva. Não há pirotecnia ou jump scares convencionais.
A câmera é estática, os planos são fechados nos rostos dos dois personagens centrais: o psiquiatra forense Dr. James Martin (Jordan Belfi) e o prisioneiro Edward “Nefarious” (Sean Patrick Flanery). A ação não é física, mas retórica. O filme se reduz a um duelo de ideias, uma partida de xadrez verbal onde o tabuleiro é a alma humana.
Aqui, o horror tradicional é remontado como ferramenta apologética.
O verdadeiro jogo do Demônio
O demônio, interpretado com uma calma perturbadora por Flanery, não é um ícone de irracionalidade. É um teólogo do mal. Seu poder está em desmontar as fragilidades da visão do psiquiatra.
Ele ataca o ateísmo, o materialismo, o relativismo moral e até mesmo a psiquiatria, com silogismos afiados. A violência do filme não é sanguinária; é epistemológica. O verdadeiro “susto” que Nefarious pretende provocar é o pavor de que o oponente ideológico tenha, de fato, razão.
“Nefarious” detém o controle do significado. O psiquiatra, “representante da razão”, é colocado constantemente na posição de duvidar de suas próprias certezas. O mal, aqui, é inteligente e está sempre um passo à frente. Esta é a doutrina central que o filme veicula: a realidade é um campo de batalha espiritual com regras definidas, e a ignorância dessas regras é a maior vulnerabilidade do homem moderno.
O clímax do filme escancara essa mecânica.
O esperado exorcismo não é um espetáculo de efeitos visuais. É a validação de que a ciência (o psiquiatra) falha. Apenas o rito religioso é eficaz.
A estrutura, portanto, abandona qualquer ambiguidade do thriller psicológico para adotar a linearidade de um caso de estudo teológico: apresentação do sintoma, diagnóstico, aplicação do tratamento. Cinema para alguns, doutrinação para outros. Seu horror é destinado a equipar o espectador crente com argumentos contra um mundo exterior “espiritualmente cego”.
O Que Está em Jogo Não É o Medo, Mas a Verdade
Nefarious força uma pergunta incômoda sobre a natureza da arte engajada: até que ponto a defesa intransigente de uma verdade pode esvaziar a experiência estética que a veicula?
O filme abdica do horror genuíno em favor da certeza. Seu objetivo não é provocar uma inquietação aberta, mas fechar um caso. O demônio deixa de ser um símbolo da irracionalidade atávica (como em O Exorcista) para se tornar um evangelista invertido, um propagador de uma doutrina específica e articulada sobre o mundo.
Aqui, o filme revela os limites de sua própria linguagem. A semiótica do cinema de horror trabalha com a sugestão, o fragmento, o que fica fora de campo. Nefarious, ao fazer do seu monstro um orador, domestica o inefável. Ele transforma o sagrado (e o profano) em discurso, o transcendente em debate.
A obra, portanto, não se situa na linhagem da arte que questiona, mas na da arte que doutrina. Ela substitui a pergunta filosófica “O que é o Mal?” pela afirmação teológica “Eis aqui a natureza e os métodos do Mal”.
Isso coloca Nefarious em um território peculiar: o do realismo dogmático. Parte do pressuposto de que a realidade espiritual que descreve é objetiva, factual e compreensível em seus mecanismos. O sobrenatural não é uma força obscura; é um sistema com regras que podem ser conhecidas e verbalizadas.
Em Nefarious, tudo é compreensível, desde que se adote o ponto de partida correto. A cela, então, não é um local de encontro com o abismo, mas uma sala de aula onde as lições finais são ministradas.
Conclusão: O Legado do Incomodativo
Nefarious não será lembrado como uma obra-prima do cinema. Sua construção é rígida, seu diálogo frequentemente pedante, sua recusa à ambiguidade a empobrece como experiência artística multifacetada. No entanto, seu legado é mais significativo que sua qualidade.
O filme é o sintoma de um cinema cristão que, cansado de tentar se infiltrar na cultura mainstream com mensagens subliminares ou dramas inspiradores, opta por uma tática de confronto. Ele pega emprestado o invólucro de um gênero popular — o horror — para embalar um conteúdo que é, em essência, um contra-ataque ideológico.
Seu “sucesso” medido em bilheteria de nicho e engajamento comunitário prova a viabilidade desse modelo paralelo de produção, distribuição e crítica.
Assim, a batalha pela alma do cinema cristão, sugerida no título, parece encontrar em Nefarious um caminho definido: o da criação de fortalezas narrativas. São filmes que falam, antes de tudo, para os que já estão dentro dos muros, armando-os com histórias que confirmam sua visão de mundo e estilizam seus adversários.
A cela de Nefarious, portanto, transcende sua localização física. Ela se torna a metáfora de um consumo cultural cada vez mais segmentado: espaços herméticos onde ideias circulam sem contaminação, e onde o outro não é um interlocutor, mas um caso a ser diagnosticado e, no plano da narrativa, vencido.
Epílogo: A Cela e o Púlpito
No fim, resta a imagem de dois homens imóveis.
Um, sentado, dono de uma verdade que o enche de uma serena arrogância. O outro, de pé, desmontado pela revelação de que sua realidade era uma fachada frágil.
Entre eles, apenas o eco de um debate que nunca foi realmente aberto.
Nefarious não quer assombrar seus corredores noturnos. Quer convencê-lo, sob a luz crua do meio-dia, de que a única saída da cela é a que ele mesmo aponta.
O cinema, aqui, abdica do sonho para se tornar um manual.
E o demônio, enfim, prega.
