Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.
Existe uma cena que se repete nas redes sociais brasileiras com a regularidade de um fenômeno climático: dois grupos, cada um convicto de sua superioridade moral, se contemplam mutuamente com desprezo e espanto.
Cada lado acredita genuinamente que o outro é composto de idiotas — ingênuos, manipulados, incapazes de ler a realidade com clareza.
Nelson Rodrigues, o dramaturgo que escreveu sobre o Brasil com a precisão cruel de um entomologista, cunhou um conceito que parece ter sido fabricado para este exato momento: o idiota da objetividade. O problema é que ele acertou no alvo errado — ou melhor, acertou em todos os alvos ao mesmo tempo.
Para Rodrigues, o idiota da objetividade era aquele que enxerga a realidade sem o filtro da paixão, do mito, da grandeza. Era o sujeito que prefere o factual ao épico, o pragmático ao sublime.
A expressão, em seu contexto original, dialogava com debates intelectuais de sua época — mas o conceito é vivo demais para permanecer onde foi colocado.
No Brasil de hoje, a idiotia da objetividade se multiplicou: há uma versão de cada lado, e ambas são igualmente cegas à própria cegueira.
O que é o “idiota da objetividade” em Nelson Rodrigues
Rodrigues escrevia em um Brasil em que as identidades políticas ainda tinham texturas regionais, religiosas, corporais. A polarização que ele presenciou — e alimentou com gosto — era uma polarização de temperamentos, não apenas de programas.
O que ele chamava de idiota não era o ignorante, mas o dessensibilizado: aquele que perdeu a capacidade de ser afetado pelo trágico, pelo contraditório, pelo humano em estado bruto.
O conceito migrou.
Hoje, cada bolha política brasileira produz sua própria versão da idiotia. À direita, o idiota da objetividade é quem acredita que basta apresentar dados econômicos para convencer o eleitor do interior; quem supõe que a narrativa pode ser substituída pela planilha.
À esquerda, é quem reduz cultura a política identitária sem mediação simbólica; quem imagina que a consciência de classe emerge naturalmente da exposição à informação correta.
Em ambos os casos, o idiota é aquele que subestima o poder do mito, que foi justamente o que Rodrigues soube usar como nenhum outro.
O paradoxo é vertiginoso: os herdeiros de Rodrigues — tanto os que o citam quanto os que nunca o leram — reproduzem exatamente a operação que ele denunciava. Ao chamar o adversário de idiota, cada campo demonstra que não compreende o funcionamento simbólico do adversário.
E não compreender o símbolo do outro é, na definição rodriguiana, a forma mais perfeita de idiotia.
Por que a emoção vem antes da razão na política
Há em Rodrigues uma intuição que antecipa as ciências cognitivas em décadas: a razão não precede a emoção, ela a segue. Seus personagens não chegam ao amor ou ao ódio por deduções — eles são arremessados pela paixão e depois inventam justificativas.
O mesmo ocorre na política de massas.
A pesquisa em psicologia moral, especialmente nos trabalhos de Jonathan Haidt, confirmaria décadas depois o que o dramaturgo carioca já encenava: formamos nossas convicções morais por intuição e racionalizamos depois. O argumento vem a reboque da emoção.
A polarização brasileira atual opera exatamente nesse registro.
Não é que os brasileiros discordem sobre fatos — eles discordam sobre quais fatos importam, e essa hierarquia de importância é inteiramente emocional e simbólica.
Um eleitor que sente que sua dignidade foi restaurada por um determinado governo não vai ser movido por índices de desemprego; um eleitor que sente que a ordem foi violada não será convencido por curvas de crescimento do PIB.
Rodrigues entendia que o Brasil é um país que vota com as vísceras, e tratava isso não como uma patologia a ser curada, mas como uma realidade a ser encenada — tragicamente, comicamente, sempre com sangue.
O que falta ao debate público brasileiro contemporâneo é precisamente essa disposição trágica. Substituímos a tragédia pelo manual: de um lado, o manual do progressismo; do outro, o manual do conservadorismo. Rodrigues não teria reconhecido nenhum dos dois como literatura.
O espelho que ninguém quer ver na polarização
Recentemente, ouvi um homem chamar todos à sua volta de idiotas. Falava com nostalgia de um tempo em que se podia fumar em qualquer lugar e dirigir sem cinto de segurança. Para ele, aquilo era liberdade. E isso bastava.
A contribuição mais perturbadora de Nelson Rodrigues não é o diagnóstico do outro — é o diagnóstico de si mesmo. Em suas peças, os personagens que se julgam lúcidos são frequentemente os mais capturados pela ilusão.
O moralista esconde o pervertido; o patriota esconde o covarde; o racionalista esconde o fanático. É nessa camada que o conceito de idiota da objetividade atinge sua força máxima: não é uma ofensa que se lança ao adversário, mas um espelho que se apresenta ao leitor.
A polarização brasileira evita esse espelho com habilidade notável. Construímos sistemas de informação, círculos sociais e linguagens políticas projetados para confirmar o que já acreditamos.
Quando Rodrigues escrevia que “o brasileiro não suporta a verdade nua”, ele não estava falando de um partido ou de uma classe — estava falando de uma estrutura de caráter nacional que atravessa famílias, profissões e gerações.
O que tornaria possível um debate público mais fértil não é mais objetividade — não é a planilha apresentada com mais clareza, nem o argumento mais rigoroso.
É mais Rodrigues: mais consciência trágica, mais disposição para se reconhecer no inimigo, mais honestidade sobre o papel da paixão em tudo que acreditamos saber. Um país que consegue rir de si mesmo com a profundidade com que Rodrigues ria já está a meio caminho de se compreender.
A questão não é quem tem razão. A questão é quem tem coragem de ser o espelho.
O problema nunca foi o idiota. O problema é que ninguém pensa que pode ser ele.





