Nuremberg (2025): o espelho da banalidade e o mal com rosto sedutor

Cena do filme Nuremberg (2025) mostrando julgamento com Hermann Göring sendo observado no tribunal

O psiquiatra que queria dissecar o diabo acabou fascinado por ele — e esse colapso moral é o verdadeiro julgamento que Nuremberg (2025) coloca em cena.

Nuremberg (2025): ficha técnica e contexto

Antes de mergulhar nas tensões psicológicas e morais que o filme propõe, vale situar Nuremberg (2025) dentro de seu contexto de produção e base histórica.

Ficha técnica essencial:

  • Direção: James Vanderbilt
  • Roteiro: James Vanderbilt
  • Baseado em: O Nazista e o Psiquiatra (Jack El-Hai)
  • Elenco principal: Rami Malek, Russell Crowe, Michael Shannon
  • Gênero: Drama histórico / psicológico
  • Lançamento: Novembro de 2025
  • Ambientação: Alemanha, pós-Segunda Guerra Mundial (1945–1946)

Contexto histórico e narrativo

O filme se passa no intervalo imediatamente anterior aos julgamentos do Julgamentos de Nuremberg, quando líderes do regime nazista aguardavam definição de suas acusações e destino jurídico.

Nesse cenário, entra em cena o psiquiatra militar americano Douglas Kelley, responsável por avaliar a sanidade dos principais prisioneiros — entre eles, Hermann Göring, uma das figuras mais poderosas do Terceiro Reich.

Diferente de outras produções que focam diretamente no tribunal, Nuremberg (2025) desloca o olhar para os bastidores psicológicos desse momento histórico. O foco não está nas sentenças, mas no confronto silencioso entre dois homens:

  • um tentando compreender o mal
  • outro determinado a reencená-lo, mesmo em cativeiro

Um filme sobre o “antes” do julgamento

Ao escolher esse recorte, a obra se aproxima mais de um estudo de comportamento do que de um drama jurídico tradicional. A narrativa investiga não apenas o que esses homens fizeram, mas como pensavam — e, mais inquietante ainda, como conseguiam justificar suas ações.

Esse deslocamento transforma Nuremberg (2025) em algo mais amplo:
não apenas um filme histórico, mas uma reflexão sobre poder, influência e os limites da racionalidade diante do horror.


Nuremberg (2025) e a sala de espera da história

Nuremberg, outono de 1945. A guerra acabou, mas o horror ainda não encontrou um nome jurídico para si. É nesse intervalo tenso — entre a rendição e o tribunal — que James Vanderbilt instala seu filme. 

O psiquiatra Douglas Kelley (Rami Malek) chega à Alemanha com uma pasta de testes psicológicos e uma ambição muito pouco científica: quer ser o homem que explicou o nazismo ao mundo.

O problema é que o nazismo, na forma do Reichsmarschall Hermann Göring (Russell Crowe), não quer ser explicado. Quer ser ouvido.

Lançado em novembro de 2025, nos 80 anos do início dos julgamentos reais, o filme chega carregado de contexto histórico e de uma pergunta que continua sem resposta satisfatória: o que transforma seres humanos comuns nos arquitetos do extermínio?


Da Guerra à Mente: o giro narrativo do cinema histórico contemporâneo

Há uma tendência clara no cinema de grande espetáculo das últimas décadas. Em vez de reconstituir batalhas, as câmeras se voltam para as mentes que as ordenaram — ou para aqueles que tentaram frear o horror. 

A Lista de Schindler, Zona de Interesse, O Julgamento de Nuremberg de 1961: cada geração precisa revisitar esse período não apenas para lembrar, mas para entender o que nele ainda pulsa.

Nuremberg (2025) se insere nessa linhagem com uma aposta específica: não é um filme sobre o julgamento. É um filme sobre o que acontece antes dele. Sobre a antessala psíquica do crime, sobre a negociação entre quem estuda o mal e quem o praticou.

O roteiro de Vanderbilt — baseado no livro de não-ficção de Jack El-Hai, O Nazista e o Psiquiatra — escolhe o conflito interno como palco. E é aí que o filme acerta e tropeça ao mesmo tempo.


O Charme Como Arma: Göring e a performance do poder

Russell Crowe chega ao papel de Hermann Göring como um ator que finalmente encontrou a personagem certa para este momento de sua carreira. 

Göring não é apresentado como um monstro em estado bruto. É um homem de imensa energia social, capaz de encantar, manipular e seduzir — qualidades que, no contexto do nazismo, nunca foram acidentais.

Crowe trabalha com a compacidade de quem não precisa gritar para ocupar o espaço. Há uma cena específica em que Göring, ao perceber que Kelley entende alemão, simplesmente muda de postura — não de medo, mas de prazer. Encontrou um adversário à altura. Ou assim ele decide acreditar.

Essa é a leitura mais perturbadora que o filme oferece: Göring como performer supremo de si mesmo. Um homem que construiu sua identidade sobre a necessidade de plateias. A prisão não o humilhou — transformou o psiquiatra americano em sua mais nova audiência cativa.

O que isso nos diz sobre a natureza do poder autoritário? Que ele não sobrevive sem testemunhas. Que precisa ser visto para existir.


Douglas Kelley e o fascínio proibido em Nuremberg (2025)

Douglas Kelley entra em cena como alguém que acredita na ciência como antídoto para o irracional. Sua missão é avaliar os 22 prisioneiros do alto escalão nazista e determinar se estão aptos para julgamento. Mas desde a primeira conversa com Göring, a hierarquia entre examinador e examinado começa a se dissolver.

Rami Malek interpreta Kelley como um homem de ambição mal disfarçada — inteligente o suficiente para perceber que está diante de material histórico único, ingênuo o suficiente para não perceber que está sendo usado. 

O personagem tem a ética escorregadia de quem sempre mantém um olho no presente e outro na posteridade. E é exatamente essa vaidade que Göring explora com maestria.

Há algo de Clarice Starling e Hannibal Lecter nessa dinâmica — a referência é inevitável. Mas onde O Silêncio dos Inocentes mantinha a tensão do perigo iminente, Nuremberg aposta em algo mais sutil e mais incômodo: a possibilidade do afeto. 

A ideia de que Kelley não apenas estudou Göring, mas de certa forma o apreciou. É esse território moralmente perturbador que o filme mais devia ter explorado — e que às vezes abandona para cumprir as exigências do gênero histórico.


A estética do poder em Nuremberg (2025) e seus limites

Do ponto de vista da produção, Nuremberg impressiona. Filmado em Budapeste com uma reconstituição de época meticulosa, o filme captura a textura daquele inverno alemão de 1945 com seriedade. 

Os interiores da prisão de Mondorf e depois de Nuremberg têm o peso arquitetônico certo — espaços que parecem projetados para esmagar qualquer pretensão de grandeza.

Há também escolhas visuais que funcionam como comentário: Göring, mesmo preso, sempre parece ocupar o centro do enquadramento. Kelley, mesmo livre, frequentemente aparece comprimido nas bordas do frame. 

A linguagem da câmera antecipa o que o roteiro demora a dizer: quem, de fato, tem o controle daquela relação?

Porém, o filme enfrenta um problema de tom que a crítica internacional apontou com razão. 

Há momentos em que a seriedade histórica é quebrada por escolhas de direção que parecem calcadas demais na gramática do cinema de premiações — cenas ovacionadas, diálogos sublinhados, música que instrui o espectador em vez de acompanhá-lo. 

A inserção de imagens documentais reais dos campos de concentração no meio de uma produção tão polida gera um choque genuíno, mas também expõe uma contradição: pode um filme tão bem acabado suportar o peso daquelas imagens sem trair sua própria natureza?


As tensões que Nuremberg (2025) não resolve

A crítica mais precisa que se pode fazer a Nuremberg é que ele conhece as perguntas certas, mas recua antes das respostas mais incômodas.

O epílogo real de Douglas Kelley — que passou os anos seguintes ao julgamento tentando alertar os Estados Unidos sobre como a psicologia do nazismo poderia se reproduzir em solo americano, sendo ignorado, e que terminou sua vida tragicamente — merecia muito mais que as linhas de texto apressadas que o filme dedica a ele. 

Esse desdobramento, o do profeta rejeitado, era o coração da história. E foi relegado às bordas.

Há também uma inconsistência narrativa sobre a humanização de Göring. O filme oscila entre mostrá-lo como uma mente brilhante e perigosa e reduzi-lo, nos momentos de virada, a um vilão convencional que “apenas nega a evidência”. Essa simplificação final destoa da complexidade que o filme tanto prometeu.

E então há a questão do elenco. 

Crowe entrega uma performance de alto nível — uma das melhores de sua fase recente. Malek, por sua vez, traz uma estranheza cênica que em certos momentos serve ao papel e em outros o sabota. 

A sensação, apontada por vários críticos, de que seus cacoetes de Freddie Mercury aparecem sem ser convidados, é real. Não é incompetência — é um ator talentoso ainda procurando a frequência exata de um personagem que exige muito mais quietude do que ele naturalmente possui.


Por que Nuremberg (2025) importa agora

Nuremberg estreou em novembro de 2025, ano em que o mundo assistia à normalização de discursos que 80 anos atrás teriam sido reconhecidos imediatamente como sintomas de algo perigoso. Não é coincidência que o filme tenha encontrado audiências que se identificaram visceralmente com sua mensagem.

A pergunta que Kelley tentava responder — se existe um perfil psicológico que predispõe à crueldade institucional, ou se qualquer pessoa, dadas as condições certas, pode tornar-se cúmplice — segue em aberto. E segue urgente.

A cena mais poderosa do filme talvez não seja nenhum duelo verbal entre Crowe e Malek. 

É o momento em que a plateia dentro do tribunal assiste às imagens dos campos pela primeira vez. A câmera, por um instante, vira para os rostos dos espectadores daquela sala. O que se vê não é horror unânime. Há também incredulidade, negação, desconforto.

Vanderbilt não precisava de nenhuma legenda para dizer o que aquela cena significa. Mas acrescentou mesmo assim. É a tentação do cinema com ambições pedagógicas: desconfiar da imagem que ele mesmo criou.


O Psiquiatra no Banco dos Réus

No final, Nuremberg é um filme sobre o preço de olhar o mal de perto demais sem a armadura ética adequada. Kelley foi para Nuremberg querendo dissecar Göring. Voltou transformado por ele — não convertido às suas ideias, mas contaminado pela proximidade com uma mente que recusava qualquer culpa.

Essa é a imagem que fica: não o tribunal, não as sentenças, não o espetáculo histórico. Mas um homem de volta para casa, com anotações brilhantes em um caderno, tentando convencer o mundo de que o perigo não estava nos monstros — estava nos espelhos.

E o mundo, como sempre, preferiu não olhar.


Vale a pena assistir?

Nuremberg (2025) não é um filme confortável — e talvez nem queira ser. Em vez de oferecer respostas fáceis, ele insiste em perguntas que continuam ecoando muito além da tela.

Para quem busca um drama histórico tradicional, centrado em fatos e julgamentos, a experiência pode parecer contida demais. Mas para o espectador interessado nas zonas cinzentas da psicologia, do poder e da responsabilidade moral, o filme encontra sua força justamente no desconforto que provoca.

No fim, não se trata apenas de revisitar o passado — mas de reconhecer o quanto dele ainda insiste em permanecer.

E, por isso, é um filme que vale menos pela resposta que oferece — e mais pela inquietação que deixa.

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