O Ônibus Perdido e o Peso do Mundo que Queima

Cena do filme O Ônibus Perdido com Matthew McConaughey e America Ferrera dirigindo ônibus durante incêndio na crítica do filme
Matthew McConaughey e America Ferrera em O Ônibus Perdido (The Lost Bus), drama de Paul Greengrass inspirado no incêndio Camp Fire de 2018.

Paul Greengrass nunca filmou catástrofes. Ele filma a iminência delas. O que define sua assinatura desde Domingo Sangrento não é o espetáculo da destruição, mas o instante exato em que o corpo humano percebe que o controle acabou. Em O Ônibus Perdido, esse instante dura 130 minutos.

O filme chega em 2025 pela Apple TV+ com um peso que antecede o roteiro. Baseado em fatos reais do Camp Fire de novembro de 2018 — o incêndio florestal mais mortal da história da Califórnia, responsável por 85 mortes, mais de 150 mil acres consumidos e uma cidade inteira apagada do mapa —, a obra não pede licença para emocionar. Ela simplesmente coloca 22 crianças dentro de um ônibus, fecha a porta e começa a queimar tudo ao redor.

O diretor coescreveu o roteiro com Brad Ingelsby, produtor de Mare of Easttown, a partir do livro de Lizzie Johnson, que documentou a luta da cidade de Paradise para sobreviver às chamas. De uma história de centenas de páginas, Greengrass escolheu apenas um punhado delas: aquelas onde o motorista Kevin McKay pegou um ônibus escolar e não parou até colocar as crianças em segurança.

Um Homem Comum no Centro do Inferno

A construção de Kevin McKay, vivido por Matthew McConaughey, é deliberadamente excessiva no primeiro ato. Ele é o homem que falhou — com o filho, com a mãe adoecida, com a própria vida que tentou escapar ao voltar à cidade natal. Greengrass sobrecarrega o personagem antes que o fogo apareça porque precisa que o espectador entenda o que está em jogo além das crianças.

Há um gesto simbólico de risco calculado nessa escolha. O roteiro usa o filho e a mãe reais de McConaughey nos papéis ficcionais correspondentes — um dado que confunde e potencializa ao mesmo tempo. A câmera olha para o ator com aquela cumplicidade que Greengrass reservou antes a Tom Hanks em Capitão Phillips: há uma imagem pré-construída na cultura pop sendo colocada a serviço do drama, e não o contrário.

America Ferrera, como a professora Mary Ludwig, opera num registro completamente diferente. Onde Kevin é caos contido, Mary é clareza funcional. A dinâmica entre os dois remete, inevitavelmente, a thrillers de confinamento — dois desconhecidos que precisam construir linguagem comum enquanto o tempo desaparece. Funciona porque nenhum dos dois tenta ser herói. Eles apenas fazem o que precisa ser feito.

A Câmera como Instrumento de Sobrevivência

A fotografia de Pål Ulvik Rokseth — que já colaborou com Greengrass em 22 de Julho — transforma a câmera na mão de recurso estético em ferramenta dramática. No começo, o movimento parece justificativa técnica. Quando o fogo avança, ele se torna respiração.

Greengrass filma o incêndio como uma entidade autônoma. As chamas se movem pelos enquadramentos com a mesma intencionalidade com que um predador flanqueia a presa. Não há ângulo seguro, não há plano fixo que dê resposta. A pouca luz que enche a tela de grãos e distorce rostos em meio à fumaça não é falha de produção — é a tradução visual do desorientamento total. O som amplifica isso de forma precisa: o vento e o barulho das chamas crescem até sufocar qualquer tentativa de racionalizar o perigo.

Há uma sequência de resgate que opera como cinema de guerra puro. O shaky cam deixa de ser câmera e passa a ser o estado interno de quem está dentro daquilo. Greengrass desnorteia deliberadamente — porque as vítimas também estavam desorientadas, e qualquer clareza seria desonestidade formal.

Onde o Fogo Encontra a Contradição

O Ônibus Perdido tem uma ambiguidade ideológica que merece ser nomeada. O filme existe sobre um desastre provocado por negligência de uma empresa privada de energia — a PG&E atrasou o desligamento das linhas durante ventos fortes, o que desencadeou o incêndio —, e Greengrass reconhece esse dado nos diálogos. O chefe dos bombeiros, interpretado por Yul Vásquez, o nomeia explicitamente.

Mas o filme recua. Ele não quer ser um panfleto ambiental, e essa recusa tem custo. A fala do personagem parece sair do trilho da narrativa — um comentário que tenta dar escopo político sem comprometê-lo de fato. Greengrass escolhe o drama humano como foco central, e essa escolha é cinematograficamente legítima. O problema é que a tragédia de Paradise não existe sem a cadeia de decisões corporativas e regulatórias que a tornaram possível. Silenciar isso é também uma posição.

Os efeitos digitais, igualmente, produzem fricção. Há momentos em que o fogo parece tecnicamente impecável e emocionalmente distante — quase videogame. A verossimilhança que Greengrass construiu com riqueza em Voo United 93, onde quase não havia efeitos, aqui depende de uma infra-estrutura visual que às vezes trabalha contra a textura documental que o diretor tanto preza.

Paradise, Califórnia. E Também Aqui.

O Camp Fire de 2018 destruiu 90% da cidade de Paradise. Mais de 50 mil pessoas foram deslocadas. A cidade ainda se reconstrói. O fato de que o filme chegou às telas no mesmo ano em que os incêndios de Los Angeles dominaram o noticiário global não é coincidência do calendário — é a realidade climática funcionando como contexto permanente.

O Ônibus Perdido não precisa de atualidade para ser relevante. A tragédia que narra é estrutural, não episódica. Os wildfires que já ocupam os noticiários todos os anos, as comunidades que vivem na margem do incontrolável, os trabalhadores comuns que se tornam os últimos agentes de proteção quando as estruturas falham — isso não é um tema. É uma condição.

O cinema de desastre dos anos 1990 e 2000 tratava a catástrofe como exceção espetacular. Greengrass filmou algo diferente: a catástrofe como normalidade administrada de forma precária por pessoas sem poder suficiente para mudá-la. Kevin McKay não salvou aquelas crianças porque o sistema funcionou. Ele as salvou porque o sistema não funcionou.

Depois que a Fumaça Baixa

O cinema de Paul Greengrass sempre soube que o heroísmo silencioso é mais perturbador do que o épico declarado. Em Voo United 93, os passageiros não foram glorificados — foram documentados. Em Capitão Phillips, a câmera ficou tão perto de Tom Hanks no desfecho que a fronteira entre ficção e colapso nervoso desapareceu.

Em O Ônibus Perdido, esse princípio se repete com uma diferença de escala. Aqui não há reféns de piratas nem terroristas. Há um homem dirigindo um ônibus cheio de crianças pelas estradas de uma cidade que está sendo apagada. A heroicidade de Kevin McKay não está em nenhuma decisão extraordinária. Está na recusa de parar.

O fogo passou. Paradise ainda existe, parcialmente reconstruída. As crianças cresceram. E o cinema de Greengrass registra tudo isso com a mesma câmera que já capturou a falência do controle em outros cenários, outros anos, outras urgências. O que muda é o nome da cidade. O que permanece é a pergunta: o que fazemos quando o que deveria nos proteger também pega fogo?

FABIO BONIFACIO

Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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