Sweetpea: Quando a Fúria Feminina Transforma a Vítima em Vilã

Ella Purnell como Rhiannon Lewis na série Sweetpea, thriller psicológico sobre uma mulher invisível que se torna assassina
Rhiannon Lewis (Ella Purnell) na série Sweetpea, thriller britânico sobre invisibilidade social e violência.

Sweetpea é a história bombástica de Rhiannon Lewis, uma moça tímida e invisível que é levada ao extremo quando seu pai morre e sua agressora dos tempos de escola volta para a cidade.

Lançada em 2024 pela Sky/Starz, s série adapta o romance de C. J. Skuse e acompanha a transformação de uma mulher invisível em uma vigilante homicida.

Sweetpea, a série britânica de 2024 protagonizada por Ella Purnell, constrói um momento desconfortável para o espectador: percebemos que estamos torcendo para que o assassinato dê certo. Não como transgressão irônica, não como distância segura do cinema de gênero, mas com uma cumplicidade visceral que incomoda justamente porque parece natural.

Rhiannon é uma mulher invisível que decide parar de sê-lo da maneira mais radical possível. E a câmera nos posiciona ao seu lado com uma intimidade que recusa o julgamento fácil. Esse desconforto não é falha narrativa — é a tese da série.

A premissa tem parentesco óbvio com Dexter, You e toda uma genealogia de protagonistas assassinos que o streaming normalizou como objeto de identificação.

Mas Sweetpea desloca o eixo: onde aqueles thrillers operavam com homens que matam para afirmar poder já existente, aqui temos uma mulher que mata para existir. A distinção não é pequena. Ela reorganiza o que entendemos por violência, por visibilidade e pelo tipo específico de raiva que a cultura pop passou a nomear — com algum desconforto — como feminina.


O Peso de Ser Ignorada em Sweetpea

Rhiannon passa os primeiros episódios submetida a uma condição que qualquer mulher reconhece com precisão desagradável: ser o ruído de fundo da própria vida. Colega de trabalho subestimada, filha invisível, parceira descartável. A série constrói esse apagamento com paciência cirúrgica antes de deixá-lo explodir. Quando a violência finalmente emerge, ela não parece aberração psicológica — parece consequência.

Roland Barthes escreveu sobre o mito como operação que naturaliza o contingente, que faz parecer inevitável o que é apenas convenção. Sweetpea trabalha exatamente essa inversão: desnaturaliza a docilidade feminina ao mostrar seu custo real, e então oferece a fúria como alternativa que, dentro da lógica narrativa da série, soa menos absurda do que a resignação. A violência de Rhiannon não é glamourizada no sentido estético convencional — é humanizada, o que é mais subversivo.

O paralelo com Fleabag é inevitável. Embora a série de Phoebe Waller-Bridge resolva a autodestruição feminina pela via do humor e da quebra da quarta parede. Sweetpea recusa esse escape. Não há piada que dissolva a tensão, não há olhar cúmplice para a câmera que nos libere da responsabilidade de acompanhar. Somos mantidos dentro da perspectiva de Rhiannon sem saída de emergência.


A Política do Monstro Simpático

A figura da mulher monstruosa tem história longa e sintomática na cultura ocidental — de Medeia a Amy Dunne em Garota Exemplar, passando por todas as variações da femme fatale que o cinema noir codificou com tanta precisão. O que muda em Sweetpea é o endereço da monstruosidade: não se trata de uma mulher que subverte a ordem para defender um homem, seduzir um homem ou destruir um homem por ciúme. Rhiannon mata porque o mundo a tratou como se ela não importasse. O móvel é ontológico antes de ser passional.

Isso importa porque reposiciona o gênero do thriller psicológico num momento em que a cultura pop está negociando ativamente os limites da identificação com protagonistas moralmente complexos. Series como The Bear, Succession e White Lotus nos acostumaram a habitar subjetividades difíceis — mas quase sempre masculinas, ou filtradas por ironia suficiente para manter o espectador confortavelmente distante. Sweetpea não oferece essa distância para sua protagonista feminina, e o resultado é uma fricção reveladora.

Há um contraponto legítimo aqui. A série pode ser lida como estetização da violência feminina que, ao invés de questionar estruturas, simplesmente inverte a posição do agressor — trocando um tipo de brutalidade por outro sem análise real. É uma crítica séria. Mas ela pressupõe que o gesto da série é celebratório quando, mais precisamente, ele é diagnóstico. Sweetpea não diz que matar é a resposta. Diz que uma sociedade que fabrica invisibilidade fabrica também, inevitavelmente, a explosão que vem depois dela.


O Que Torcemos Para Ver

O prazer do espectador diante de narrativas de transgressão raramente é inocente. Quando torcemos por Walter White, estamos investindo numa fantasia de poder masculino que a cultura já legitimou de mil maneiras antes. Quando torcemos por Rhiannon, estamos navegando território diferente — uma fantasia de visibilidade que expõe, pelo excesso, o quanto a invisibilidade foi normalizada.

Essa é a virada que Sweetpea executa com mais eficiência do que aparenta: ela usa os códigos do entretenimento de gênero para fazer uma pergunta que o entretenimento raramente se permite. Não “até onde vai a maldade humana?” — pergunta segura, distante, filosófica — mas “o que você foi ensinado a não sentir, e o que acontece quando isso deixa de funcionar?”.

Ella Purnell carrega a série com uma performance que recusa tanto a frieza calculada do serial killer clássico quanto a quebra emocional da vítima. Rhiannon sente tudo, o tempo todo, intensamente — e ainda assim age. Essa combinação desestrutura a divisão tácita que o thriller psicológico costuma manter entre emoção e perigo.

Ao final, o que Sweetpea deixa não é catarse, mas uma pergunta instalada. Não sobre violência, exatamente. Sobre o que construímos — social, cultural, relacionalmente — quando decidimos que certas pessoas não precisam ser vistas. A série não responde. Só garante que a pergunta doa no lugar certo.

A fúria que não encontra forma encontra outra.

FABIO BONIFACIO

🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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