Milla Jovovich volta às telas em um filme que a crítica especializada desprezou, mas que coloca na mesa uma questão que o cinema de ação raramente resolve com honestidade: o que acontece quando a mulher mais perigosa da sala também é mãe?
A cena de abertura de Vingadora (Protector, 2026) já é uma declaração de princípios.
Antes de qualquer perseguição ou tiro, Milla Jovovich para diante de um fundo completamente preto e olha diretamente para a câmera. Ela narra sua própria história. Não espera que ninguém a apresente.
Essa pequena decisão formal diz mais sobre o filme do que qualquer linha de crítica convencional conseguiu capturar.
Ficha Técnica – Vingadora (2026)
- Título original: Protector
- Título no Brasil: Vingadora
- Ano de lançamento: 2026
- País de origem: Estados Unidos
- Gênero: Ação, Thriller
- Duração: 92 minutos
Direção e roteiro
- Direção: Adrian Grünberg
- Roteiro: Bong-Seob Mun
Elenco principal
- Milla Jovovich (Nikki), Matthew Modine (Coronel)
Sinopse
Uma ex-agente altamente treinada é forçada a retornar ao mundo da violência quando sua filha é sequestrada por uma rede de tráfico humano. Em uma jornada brutal e emocional, Nikki confronta não apenas seus inimigos, mas também o papel que tentou abandonar: o de arma.
Um Frankenstein de influências: quando o filme não quer se encaixar
Vingadora é, antes de tudo, um produto híbrido e assumidamente perturbador em sua composição. O diretor Adrian Grünberg, mexicano responsável pelo controverso Rambo: Até o Fim, trabalha a partir de um roteiro assinado pelo sul-coreano Bong-Seob Mun.
A combinação é, no mínimo, desconcertante. As brincadeiras temporais, as quebras de quarta parede e as reviravoltas que marcam o ritmo do filme carregam claramente a influência do thriller de ação coreano — o mesmo universo que produziu Força Bruta e Oldboy.
Só que há uma diferença fundamental entre Vingadora e esses referenciais: quando os coreanos abraçam a artificialidade do gênero, fazem isso com cineastas e atores completamente entregues à loucura do dispositivo.
Aqui, a parceria internacional produz um filme meio Frankenstein — partes que não se encaixam perfeitamente, mas que, nos momentos em que funcionam, funcionam com uma audácia genuína.
A pergunta que o filme levanta sem nunca responder diretamente é: quanto dessa artificialidade é falha de execução, e quanto é escolha deliberada de um filme que não se leva a sério porque não precisa?
Nikki e o arquétipo da mãe armada no cinema de ação
Nikki não é uma personagem nova. Ela habita um arquétipo que o cinema de ação contemporâneo vem construindo com certa insistência desde Atomic Blonde e The Old Guard: a mulher treinada para matar que o mundo preferiu esquecer, até que o mundo cometeu o erro de tocar em algo que ela ama.
O que Vingadora faz com esse arquétipo é menos sofisticado do que poderia ser, mas mais honesto do que parece. Nikki não é apresentada como uma supermulher imune à dor. Ela apanha. Ela erra. Ela sangra.
Milla Jovovich, que construiu sua carreira sobre esse tipo de corpo em ação — desde Alice em Resident Evil até produções menores —, usa aqui algo que o tempo lhe deu: credibilidade física temperada pela idade. O corpo que envelhece e ainda assim persiste tem um peso simbólico que nenhum efeito especial substitui.
Isso importa porque o filme, em seu núcleo emocional, não é sobre vingança. É sobre recusa. Nikki se recusa a ser a mãe pacífica que o mundo esperava que ela se tornasse ao abandonar o campo de batalha. Quando sua filha Chloe é sequestrada por uma rede de tráfico humano, essa recusa se torna política.
Os limites da fórmula: onde Vingadora (2026) falha — e por quê
Seria desonesto ignorar o que Vingadora não resolve. O roteiro de Bong-Seob Mun estabelece um conflito que tem potencial para ser mais denso do que é entregue.
O tráfico humano aparece como cenário, não como problema. Os personagens secundários existem como obstáculos ou ferramentas narrativas, não como pessoas.
Matthew Modine, como o coronel que funcionaria como âncora moral da história, cumpre um papel que parece saído diretamente do manual do gênero — o superior que explica ao mundo quem é a protagonista, como Richard Crenna nos filmes do Rambo.
Há também um uso excessivo de câmera lenta e enquadramentos escuros que em alguns momentos dificultam, ao invés de potencializar, a leitura da ação.
O filme tangencia discussões sociais relevantes sem encontrar densidade para sustentá-las — e em certos momentos celebra o aparato militar americano com um entusiasmo que contrasta com qualquer leitura crítica que o próprio roteiro parece querer insinuar.
Você já se perguntou o que separa um filme B honesto de um filme B que simplesmente desistiu? Vingadora vive nesse limiar de forma incômoda.
Entre crítica e público: o que o mercado realmente quer ver
Vingadora estreou com 19% no Rotten Tomatoes. O número é revelador — mas não necessariamente sobre a qualidade do filme. Ele revela, sobretudo, o abismo entre o que a crítica institucionalizada considera digno de atenção e o que o público que vai ao cinema às quartas-feiras à tarde realmente busca.
Há um mercado vasto e consistente para o cinema de ação B com protagonistas femininas. É o mesmo mercado que sustentou seis filmes de Resident Evil, que colocou Charlize Theron em Mad Max e que transformou Karen Gillan em uma estrela de ação improvável através dos Guardiões da Galáxia.
Vingadora não está inventando uma demanda. Está respondendo a ela com os recursos que tem.
O dado que importa: o filme chegou aos cinemas brasileiros em 26 de março de 2026 e já movimenta discussão nas redes sociais com uma energia que filmes supostamente melhores raramente conseguem.
Vale a pena assistir Vingadora (2026)?
Sim — mas não pelos motivos que a crítica costuma valorizar.
Vingadora (2026) funciona mais como experiência do que como obra “bem resolvida”.
Qualquer análise de Vingadora que ignore o seu desfecho é uma análise incompleta. Sem revelar o que acontece, é possível dizer que o final do filme foge do esperado com uma ousadia que desestabiliza o contrato básico que o espectador estabeleceu com a narrativa desde o primeiro ato.
É genuinamente de cair o queixo — e não porque é particularmente sofisticado, mas porque, num gênero que vive de previsibilidade, fazer uma aposta assim é um ato de coragem ou de loucura. Possivelmente os dois ao mesmo tempo.
E talvez seja exatamente isso que torna Vingadora um filme mais interessante do que suas críticas deixam parecer: não o que ele acerta, mas a disposição com que arrisca errar.
Nikki para diante da câmera no começo do filme e conta sua própria história.
Ao final, fica a sensação de que o filme fez o mesmo — narrou a si próprio sem pedir permissão, sem se desculpar pelo que é, e sem prometer ser o que não pode ser.
Numa indústria que cada vez mais prefere a segurança ao risco, isso ainda conta alguma coisa.







