Durante mais de 80 anos, pessoas foram exibidas como atrações em zoológicos humanos na Europa e nos Estados Unidos.
Em 1810, uma jovem sul-africana chamada Saartjie Baartman desembarcou em Londres com a promessa de fazer fortuna.
O que encontrou foi uma gaiola.
Exibida nua em circos, museus, bares e universidades por toda a Inglaterra, ela se tornaria conhecida pelo nome artístico que seus exploradores lhe impuseram: a Vênus Hotentote.
O público europeu fazia fila para tocá-la mediante pagamento. Cientistas mediam seu corpo com instrumentos de precisão. A imprensa a descrevia como um fenômeno da natureza — não como uma pessoa.
O caso de Saartjie não foi uma aberração. Foi a regra.
Por mais de oitenta anos, centenas de exposições públicas de seres humanos foram organizadas na Europa e na América do Norte, geralmente apresentando seus exibidos num estado erroneamente rotulado de “natural” ou “primitivo”.
Chamavam isso de ciência. Chamavam de entretenimento. Chamavam de progresso. O que era, de fato, constitui um dos capítulos mais reveladores sobre como o Ocidente construiu sua própria identidade — não pela afirmação do que era, mas pela animalização do que decidiu que os outros eram.
Zoológicos humanos na Europa: a construção do “selvagem”
Entre 1877 e 1912, cerca de trinta exposições etnológicas foram montadas com sucesso no Jardim Zoológico de Aclimação, em Paris.
A grande imprensa qualificava as atrações como “grupos de animais exóticos, acompanhados por indivíduos não menos singulares”. O eufemismo é, em si, um documento histórico: a gramática usada para descrever pessoas era a mesma usada para descrever as feras nas jaulas ao lado.
Não havia ambiguidade intelectual nesse projeto. As correntes de pensamento racial da época estabeleciam hierarquias e colocavam negros, indígenas e outros povos colonizados no início de escalas da evolução humana.
As exposições ajudavam a dar crédito à noção de inferioridade racial e ensinavam ao público que o racismo era científico, terminando por incutir sentimentos de superioridade no branco e ocidental, justificando o crescente imperialismo.
O arquiteto central desse negócio foi Carl Hagenbeck, filho de um pescador alemão. Ao fechar um acordo com o Jardim Zoológico de Hamburgo, financiado por empresários norte-americanos, ele incluiu em suas buscas o sequestro e transporte de povos considerados “selvagens” de diversas partes do planeta.
Para a inauguração, um grupo de lapões — povo nativo do norte da Europa — foi capturado e exibido em uma imitação de vila típica construída no meio de Hamburgo. O sucesso foi absoluto, e os shows se tornaram tão populares que ganharam um termo próprio em alemão: Völkerschau.
A escala do fenômeno é vertiginosa. Durante a Exposição Universal de 1889 em Paris, mais de 18 milhões de pessoas visitaram pessoas expostas nessas condições.
A mesma feira que inaugurou a Torre Eiffel como símbolo da modernidade e do gênio humano exibia, a poucos metros, aldeias montadas com seres humanos vivos para deleite dos visitantes.
O monumento à razão e o espetáculo da barbárie coexistiam sem nenhum constrangimento — o que diz muito sobre como aquela civilização entendia a si mesma.
O racismo científico e a legitimação dos zoológicos humanos
O que distingue os zoológicos humanos de outras formas históricas de crueldade é precisamente a cumplicidade do conhecimento organizado.
Não eram apenas empresários ávidos por lucro que sustentavam o sistema: eram anatomistas, antropólogos, médicos e filósofos que conferiam legitimidade científica à desumanização.
As fronteiras entre ciência e cultura popular cruzavam-se constantemente, tornando difícil uma divisão entre a exibição colonial do indígena por razões de conhecimento científico e a sua mera exploração comercial num contexto de entretenimento.
Uma mesma pessoa podia passar meses num jardim zoológico, depois ocupar seu lugar no pavilhão de uma exposição universal, e em seguida ser objeto de estudo de um congresso de medicina. O circuito era fechado, e o consenso era total.
O destino de Saartjie Baartman ilustra essa cumplicidade com precisão brutal. Ela atraiu a atenção de cientistas franceses, em particular do anatomista Georges Cuvier, tendo sido objeto de inúmeras ilustrações científicas.
Quando morreu em 1815, Cuvier fez um modelo em gesso de seu corpo, preservando suas dimensões corporais para exibição no Musée de l’Homme de Paris. Seu esqueleto, seus órgãos genitais e seu cérebro, conservados em frascos de formol, ficaram expostos naquele museu até 1985.
Leia essa data novamente: 1985. Não é um equívoco tipográfico.
Os restos mortais de Saartjie Baartman permaneceram em exibição pública em Paris por 170 anos após sua morte. Seus restos mortais só retornaram à África do Sul em 2002, após décadas de campanhas de ativistas antirracistas.
A violência não cessou com o último suspiro — ela continuou, metodicamente catalogada, dentro de uma instituição de saber.
O último zoológico humano: por que isso aconteceu até 1958
Há uma data que tende a ser esquecida nessa história: 1958. A última dessas exposições ocorreu em Bruxelas, na Bélgica, onde o que era considerado pelos expositores como uma “autêntica família de um vilarejo do Congo” foi exposta em uma jaula.
Isso aconteceu dois anos após a primeira transmissão de televisão em cores na Europa. Seis anos depois de A velha senhora indecente de Bertolt Brecht estrear nos palcos. Três anos antes da construção do Muro de Berlim.
Não estamos falando de um passado medieval e nebuloso. Estamos falando de um passado que nossos avós viveram.
Um caso conhecido há poucos anos é o dos bisavós do futebolista francês Christian Karembeu, nascido em 1970 em Nova Caledônia. Ambos foram para Paris em 1931 para serem exibidos ao lado de palhotas montadas na Exposição Colonial Internacional.
A centena de habitantes proveniente da Nova Caledônia constituiu uma das principais atrações. Karembeu levantou a taça da Copa do Mundo pela França em 1998. Seus bisavós estiveram em gaiolas em Paris 67 anos antes.
Que distância existe, de fato, entre essas duas cenas?
Zoológicos humanos hoje: o legado e o racismo que ainda persiste
Os zoológicos humanos nada revelam sobre as “populações exóticas”. Por outro lado, constituem um instrumento extraordinário de análise das mentalidades europeias do final do século XIX até os anos 1930.
Não seriam essas dissimulações raivosas a imagem invertida da ferocidade real da própria conquista colonial? Não haveria a vontade deliberada ou inconsciente de legitimar a brutalidade dos conquistadores por meio da animalização dos conquistados?
A pergunta não é retórica. Ela é o núcleo do problema — porque as estruturas de pensamento que tornaram os zoológicos humanos possíveis não desapareceram com as exposições. Elas migraram. Tornaram-se mais sofisticadas, mais dispersas, mais difíceis de nomear.
A tendência a produzir uma classificação hierárquica dos povos, favorecendo as sociedades europeias como mais civilizadas, ainda é frequente, assim como a noção de que certas sociedades são primitivas e selvagens.
A animalização de pessoas negras e de diversos povos não brancos são outros comportamentos racistas com os quais precisamos lidar ainda nos dias de hoje.
O zoológico humano não era apenas uma atração de fim de semana. Era uma pedagogia.
Ensinava às multidões — família popular que saía para o passeio dominical, ao lado do antropólogo que assim evitava a incomodidade de uma viagem — que havia uma ordem natural no mundo, e que essa ordem justificava tudo o que havia sido feito em nome dela.
Quando olhamos para as fotografias daquelas exposições — e elas existem, em quantidade perturbadora — não estamos olhando para monstruosidades isoladas da história. Estamos olhando para o espelho de uma civilização que se chamava a si mesma de humanista.
A gaiola foi desmontada. A ideia que a sustentava, essa ainda precisa ser.







