Em Zuzubalândia — O Filme (2024), uma bruxa decide abandonar o caldeirão e assumir o papel de influencer digital. Seu plano é simples: convencer as abelhas do reino a abandonar a polinização para buscar carreiras mais “modernas” e visíveis. O resultado é um colapso silencioso em um mundo feito de comida. O que parece apenas uma aventura infantil revela, na verdade, uma pergunta inquietante sobre o nosso próprio tempo: o que acontece quando todos querem ser vistos, mas ninguém quer sustentar o mundo?
Logo no início de Zuzubalândia — O Filme surge uma cena que resume, com precisão desconcertante, o dilema cultural do nosso tempo. A vilã da história não é uma bruxa de caldeirão e maçã envenenada — é uma Bruxa disfarçada de web influencer, que manipula as abelhas a abandonarem suas funções vitais para seguir carreiras modernas como youtubers, designers de sobrancelha e professoras de ioga.
O reino, feito inteiramente de comida, começa a perecer. Não por falta de recursos, mas por falta de sentido coletivo. Para uma animação infantil de sessenta minutos, essa é uma tese política bastante robusta.
A pergunta que o filme coloca — mesmo sem perceber a profundidade da pergunta — não é sobre abelhas. É sobre o que acontece quando uma civilização inteira substitui a função pelo desejo de visibilidade. Quando o trabalho concreto, o cuidado com o mundo, a responsabilidade comunitária cedem espaço à performance de si mesmo como produto. Zuzubalândia não critica o capitalismo em linguagem acadêmica. Critica o capitalismo em jujubas.
Por trás das cores e das jujubas, Zuzubalândia encena uma parábola inesperada sobre trabalho, fama e o vazio da sociedade do espetáculo.
O Reino de Zuzubalândia Como Metáfora Social
A criação de Mariana Caltabiano tem raízes longas: nasceu como livro infantil em 1997, virou programa de TV em 1998, série animada em 2018 e agora chega ao cinema em formato de longa. Esse percurso não é mera curiosidade biográfica. É o sinal de que o universo de Zuzubalândia sobreviveu a múltiplos ciclos culturais porque toca em algo estrutural na maneira como o Brasil imagina a infância — e, através dela, a si mesmo.
O reino feito de comida é, em termos semióticos, um espaço de abundância condicionada. A comida não existe por acidente: ela exige trabalho coletivo, ciclos naturais, cuidado cotidiano. A harmonia e a prosperidade do reino dependem da polinização das abelhas — de agentes que cumprem uma função que não escolheram por glamour, mas que é absolutamente indispensável. Zuzu e suas colegas são, nesse sentido, trabalhadoras essenciais num mundo de fantasia. E a ameaça que recebem não vem de fora, de um inimigo externo facilmente identificável. Vem da promessa de que elas merecem algo mais.
Essa é a estrutura ideológica da sedução contemporânea: não o chicote, mas o espelho.
A Bruxa de Anel de Luz
Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo (1967), descreveu um mundo no qual tudo que era vivido diretamente se afastou para uma representação. Ele não poderia prever o Instagram, mas descreveu com precisão a sua lógica: a vida real é substituída pelo acúmulo de aparências; ser é ser visto. A Bruxa de Zuzubalândia opera exatamente nessa lógica. Ela não proíbe a polinização. Ela torna a polinização irrelevante diante da promessa de se tornar famosa.
Com as abelhas desmotivadas pela sedução das carreiras modernas, a comida no reino começa a escassear. A escassez não é resultado da maldade direta da Bruxa — é resultado do vazio deixado quando cada indivíduo passa a perseguir seu projeto pessoal de visibilidade no lugar do projeto comum de sustento. O mal, aqui, tem algoritmo. Tem engajamento. Tem métricas de sucesso que ninguém sabe exatamente para que servem.
Numa cena reveladora, os personagens discutem os programas de culinária que deixaram de existir após o sucesso da pílula mata-fome, com referências diretas a figuras reais da gastronomia brasileira na TV — um gesto de cumplicidade com os pais na plateia, mas também um diagnóstico preciso: quando ninguém cozinha mais, a cultura culinária também desaparece. A pílula mata-fome não alimenta: elimina a fome. A diferença entre saciar e suprimir é exatamente o que o filme, talvez sem intenção filosófica declarada, insiste em defender.
Zuzu Contra o Vazio da Visibilidade
Há uma tensão interpretativa que o filme não resolve — e que é sua parte mais interessante. A própria personagem principal foi reconfigurada como influencer para os tempos atuais, o que cria um paradoxo saboroso: a heroína que vai salvar o mundo da sedução das redes sociais é ela mesma uma figura de influência digital. Zuzu não recusa a visibilidade — ela a redireciona. Usa a audiência a serviço do bem comum em vez de usá-la a serviço de si mesma.
Isso não é ingenuidade narrativa. É, na verdade, uma solução mais sofisticada do que parece. O filme não prega contra a internet. Não diz que ser youtuber é errado. Diz que o problema não está na ferramenta, mas no propósito. A Bruxa não criou as redes sociais — ela as colonizou com o vazio. A diferença entre Zuzu e as abelhas seduzidas não é de plataforma, é de comprometimento com algo além da própria imagem.
Nesse ponto, Zuzubalândia conversa, sem saber, com Hannah Arendt e sua distinção entre trabalho, obra e ação. As abelhas que abandonam a polinização para se tornarem professoras de ioga não renunciam ao trabalho em favor do ócio — renunciam à função coletiva em favor de uma ação que só faz sentido diante de uma plateia. Quando a plateia não alimenta ninguém, o reino enfraquece.
O Que o Reino de Comida Diz Sobre o Brasil
Ler Zuzubalândia apenas como entretenimento infantil é, no mínimo, desperdício analítico. O filme emerge num contexto em que o Brasil debate, com crescente urgência, o colapso das vocações coletivas em favor das narrativas individuais de sucesso. A geração que cresceu assistindo ao universo de Mariana Caltabiano na TV é a mesma que hoje precisa decidir se vai trabalhar em algo que sustenta o mundo ou em algo que sustenta seu feed.
Zuzu sonha em ser uma cantora famosa, mas não percebe que tem uma voz terrível — e essa é uma das piadas mais amargas da série original, que o filme carrega como herança. O desejo de ser visto não está necessariamente alinhado com o talento, nem com a necessidade do mundo. A dissonância entre o que queremos ser e o que somos capazes de fazer — e o que o mundo precisa que façamos — é o centro nervoso de toda a narrativa de Zuzubalândia, da jujuba original ao cinema.
No fundo, o filme faz uma pergunta muito simples, embrulhada em doces e animação: quem vai polinizar o mundo enquanto todo mundo tenta ficar famoso?
A resposta, como sempre, depende de quem ainda está disposto a trabalhar sem anel de luz.
🎬 Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop.
Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.
Mensagem & Movimento Leituras sobre cinema, cultura e discurso social. Um espaço dedicado à interpretação das narrativas, das imagens e dos símbolos que moldam o imaginário contemporâneo.
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