Crítica de #SalveRosa (2025): o thriller da Netflix sobre infância e redes sociais
O que acontece quando a câmera não desliga — e a mãe nunca sai do frame
Rosa tem 13 anos, mais de 2 milhões de seguidores e nenhum lugar para ser criança. Esse é o ponto de partida de #SalveRosa, filme brasileiro lançado na Netflix em 2025 e dirigido por Susanna Lira.
Aqui, ela dirige a câmera para dentro de uma casa que parece perfeita por fora — e é uma prisão por dentro. O filme não se interessa em denunciar. Ele se interessa em mostrar como a jaula foi construída tijolo a tijolo, com amor, ambição e mentira.
A tese do filme é incômoda justamente porque não tem vilão simples. Tem sistema.
A Fábrica de Encantamento
O filme #SalveRosa chega ao streaming da Netflix em 2025 carregando três prêmios do Festival do Rio — incluindo Melhor Atriz para Klara Castanho e Melhor Longa pelo Voto Popular — e o peso de um contexto cultural que ele não precisa explicar. O caso Bel Para Meninas já havia escancarado para o Brasil o que acontece quando adultos transformam infâncias em produto. Susanna Lira não recua diante disso; pelo contrário, aprofunda.
O filme existe no cruzamento entre dois gêneros que raramente se encontram com essa elegância: o drama familiar e o thriller psicológico. Começa como um, termina como outro. E no intervalo, constrói algo raro — um horror cotidiano que não precisa de sangue para causar sufocamento.
Cores que Mentem
A primeira decisão estética de #SalveRosa já é uma declaração de intenção. A fotografia de Lílis Soares satura cada cena como se o mundo de Rosa fosse um filtro permanente — cores vívidas, luz quase de sonho acordado, paleta de videoclipe infantil. É belíssimo. E é exatamente por isso que incomoda.
O figurino de Renata Russo — premiado no Rio — e a direção de arte de Monica Palazzo reforçam essa camada: tudo parece montado para uma câmera que nunca para de gravar. A mise-en-scène funciona como crítica embutida. Quando o real começa a sangrar pelas bordas desse verniz, o efeito é de desorientação genuína. O espectador percebe, junto com Rosa, que estava olhando para uma embalagem o tempo todo.
O Peso de Dois Corpos em Cena
Nas atuações, #SalveRosa se sustenta principalmente na relação entre Klara Castanho e Karine Teles.
Karine Teles entrega uma mãe que é simultânea ao amor e ao controle — Dora não é monstro porque odeia a filha. É monstro porque a ama de um jeito que sufoca. Teles sustenta essa ambiguidade sem ceder a nenhum dos dois lados, o que é tecnicamente formidável.
Klara Castanho, com 23 anos interpretando uma adolescente de 13, faz algo ainda mais difícil: habita a ingenuidade sem performá-la. Rosa não sabe de tudo — e o filme respeita isso. A descoberta acontece no corpo da atriz antes de chegar ao roteiro, e é nesse ritmo físico que o filme encontra seu pulso mais verdadeiro.
Os personagens secundários, no entanto, pagam o preço da densidade concentrada nas protagonistas. Ficam à margem com motivações pouco desenvolvidas, o que em certos momentos enfraquece o envolvimento emocional do espectador com as situações periféricas.
Onde a Máquina Trava
O roteiro de Mara Lobão e Ângela Hirata Fabri sustenta a construção dramática com precisão na primeira metade — e encontra turbulência na segunda. Algumas revelações chegam de forma forçada, como se o filme soubesse onde quer chegar mas não encontrasse o caminho mais orgânico para lá.
A oscilação de tom — drama, thriller, denúncia explícita — nem sempre é costurada com fluidez. Em determinados momentos, o filme parece decidir ser didático quando poderia ser mais perturbador. A mensagem sobrevive, mas a tensão narrativa cede um pouco em favor da clareza pedagógica.
Isso não anula o que o filme constrói. Reduz, em alguns instantes, o que ele poderia ter sido.
A Adolescência como Mercado
#SalveRosa dialoga com um fenômeno que não é brasileiro, mas que o Brasil encarna de forma especialmente cruel: a monetização da infância. Crianças que trabalham enquanto brincam de trabalhar. Mães que gerenciam carreiras de filhos que ainda não sabem o que é uma carreira. Plataformas que não diferenciam conteúdo de produto — desde que os números subam.
O filme não precisa citar algoritmos para falar de algoritmos. Ele os encarna na própria estrutura da vida de Rosa: cada refeição, cada roupa, cada sorriso calibrado para o engajamento. A pergunta que o filme faz sem fazer — o que resta de uma criança quando tudo dela é conteúdo? — é a pergunta que nenhuma plataforma digital quer responder.
Há aqui um parentesco com A Substância, de Coralie Fargeat, não pela estética, mas pela lógica: a de que corpos — especialmente corpos femininos, especialmente jovens — são constantemente solicitados a performar para sobreviver dentro de sistemas que os consomem.
Depois que o Feed Para
O que #SalveRosa deixa não é uma resposta. Deixa uma imagem: Rosa, em algum momento do filme, olhando para uma câmera que não está gravando. E não saber o que fazer com o próprio rosto quando ninguém está assistindo.
Susanna Lira construiu um filme que é, ao mesmo tempo, um retrato do presente e um aviso para o futuro. Não porque seja profético, mas porque o presente já é suficientemente assustador — e o filme tem a coragem de mostrar isso sem filtro, mesmo quando tudo na tela parece filtrado.
Salvar Rosa é, em última análise, perguntar o que sobrou dela para salvar.
