Kokuho: O Preço da Perfeição (2025) – O Homem que Desapareceu Dentro da Arte

Atores de kabuki com maquiagem onnagata no filme Kokuho O Preço da Perfeição

Existe uma distinção sutil, e ao mesmo tempo devastadora, entre dedicar a vida a uma arte e ser consumido por ela. Kokuho: O Preço da Perfeição, épico japonês de 2025 dirigido por Lee Sang-il, passa seus quase três horas de duração explorando exatamente esse limiar. Não como metáfora, mas como escolha de vida encarnada em Kikuo Tachibana — um homem que começa órfão, termina tesouro nacional, e perde quase tudo no meio do caminho sem que a narrativa sugira que foi um equívoco.

É um filme que nos recusa o conforto da resposta fácil.


O Japão que Forja seus Próprios Mitos

O ponto de partida é 1964: Nagasaki, boom econômico do pós-guerra, e um garoto de 14 anos cujo pai yakuza acaba de ser assassinado. Kikuo Tachibana, filho de um líder de organização criminosa, é acolhido por Hanai Hanjiro, um famoso ator de kabuki, e esse deslocamento — do mundo do crime para o mundo da arte — não é uma redenção simples. É uma troca de hierarquias igualmente implacáveis.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2025 e tornou-se um fenômeno de público no Japão, chegando a ser o live-action japonês de maior bilheteria da história do país, com cerca de 12 milhões de ingressos vendidos. Esse dado não é trivial. Ele revela que a obra tocou em algo profundo na própria sociedade japonesa — uma cultura que historicamente valoriza a excelência coletiva acima da realização individual, que transforma artistas em símbolos, e que cobra um preço silencioso por essa elevação.

Baseado no romance de Shuichi Yoshida, o filme percorre cinco décadas sem pressa e sem condescendência. Ele não explica o Japão ao espectador ocidental — ele o imerge nele.


A Máscara como Segundo Rosto

O kabuki existe desde o século XVII. Como o xogunato da época considerou a atividade como uma contribuição à decadência da moralidade, mulheres foram proibidas de atuar, cabendo então aos homens assumirem também esses papéis, surgindo os onnagata — os intérpretes de personagens femininos — que ao longo do tempo se tornaram os mais desejáveis nessa arte.

Essa proibição histórica não é apenas curiosidade cultural. Ela é a chave simbólica de toda a narrativa. Kikuo e Shunsuke não aprendem apenas gestos e técnicas — eles aprendem a habitar corpos que não são os seus, a representar feminilidades que a tradição ao mesmo tempo venera e apaga. A maquiagem funciona como gesto de transformação, como um ornamento que ressignifica marcas que não podem ser apagadas. Para Kikuo, que carrega o estigma de sua origem yakuza — simbolicamente inscrito no corpo —, o rosto pintado do onnagata não é fantasia. É o único espaço onde ele pode existir de forma plena.

Há uma reverência grande da produção na forma como o teatro kabuki é apresentado: tudo é perfeito e imaculado, desde a maquiagem dos onnagata, passando pelos impressionantes figurinos e pelo cuidadoso cenário dos teatros. Lee Sang-il faz “teatro filmado” sem imobilizar a câmera — ela se aproxima dos rostos pintados como se buscasse o homem por baixo da tinta. E muitas vezes encontra apenas tensão.


Talento versus Linhagem — um Conflito sem Vencedor limpo

Kikuo e Shunsuke representam duas forças contrastantes: o talento natural versus o privilégio da linhagem, e essa dualidade é o núcleo emocional e dramático do filme. O roteiro de Satoko Okudera resiste à tentação de simplificar. Shunsuke não é o vilão da herança injusta. Kikuo não é o herói do mérito puro. Ambos são prisioneiros de um sistema que os molda antes mesmo de escolherem.

A disputa não é apenas por papéis ou aplausos, mas pela sucessão simbólica dentro da tradição. O título Kokuho — que significa “tesouro nacional” — carrega uma ironia delicada: o artista elevado a patrimônio cultural é também alguém condenado a deixar para trás quase tudo, exceto sua obra.

É nessa ironia que o filme encontra sua maior força. A consagração não é apresentada como chegada — é apresentada como custo.


O que torna Kokuho: O Preço da Perfeição um épico singular

Kokuho não é uma obra sem contradições, e seria desonesto ignorá-las.

Uma temática que aparenta passar despercebida pelo filme refere-se à conexão dos atores kabuki com os personagens por eles interpretados. É notável como as próprias mulheres inseridas na trama são sempre utilizadas como “trampolins” para os objetivos dos homens. Num filme inteiramente dedicado à arte de representar o feminino, a ausência de uma perspectiva feminina substantiva é uma lacuna que a narrativa parece não reconhecer como tal — o que é, em si, um gesto ideológico.

Há também uma tensão não resolvida na forma como o filme lida com o sacrifício. A consagração final não surge como triunfo simples, mas como resultado inevitável de uma trajetória marcada por perdas silenciosas. Ao mesmo tempo em que o filme reconhece o custo humano dessa dedicação extrema, ele também sugere que apenas por meio desse sacrifício total é possível alcançar a grandeza. É uma visão esteticamente poderosa e eticamente ambígua. O filme admira o que descreve, e essa admiração é complexa — mas não totalmente crítica.

As transições temporais, ocasionalmente abruptas ao longo das cinco décadas narradas, fragmentam alguns arcos que mereceriam mais respiração. A segunda metade acumula reviravoltas que testam a economia emocional construída com tanto cuidado na primeira.


A Tradição como Cárcere e como Casa

O que Kokuho capta com rara precisão é a natureza dupla de toda grande tradição: ela sustenta e sufoca. Ela oferece pertencimento e cobra fidelidade absoluta. A tradição aparece como herança cultural, mas também como estrutura que molda e limita — em uma obra que compreende que a perfeição estética pode ser alcançada, mas jamais sem consequências.

Num mundo onde a produção cultural é cada vez mais acelerada, descartável e orientada para o imediato, um filme que dedica três horas a gestos mínimos e silêncios prolongados funciona como um contraponto deliberado. Não é nostalgia — é resistência formal. O ritmo lento do kabuki se infiltra na própria duração do filme, exigindo do espectador a mesma disciplina que exige de seus personagens.

De um elemento particular da cultura japonesa, o filme expandiu com maestria discussões universais daqueles que estão constantemente insatisfeitos e buscam pela perfeição. Essa é a ponte entre o específico e o universal que separa os grandes épicos culturais dos meros exercícios de exotismo.


Depois que a Maquiagem Seca

No final, o que resta de Kikuo quando a última apresentação termina? Resta o título — Kokuho, tesouro nacional. Resta a arte. Resta o palco vazio aguardando a próxima geração que repetirá o mesmo ciclo de renúncia e excelência.

Lee Sang-il não nos convida a lamentar essa escolha nem a celebrá-la. Convida-nos a compreendê-la — o que é muito mais difícil e muito mais honesto. O homem que desaparece dentro da arte não some: ele se transforma em algo que ultrapassa o indivíduo. O preço é real. O resultado também.

Kokuho é o tipo de filme que a cultura pop global raramente produz: lento como um ritual, denso como um símbolo, e perturbador como qualquer obra que recusa nos deixar em paz depois que os créditos sobem.


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