Queens of the Dead: Quando o Glitter e o Sangue Dividem o Mesmo Palco

Cena do filme Queens of the Dead (2025) com personagens em um clube durante o apocalipse zumbi
Cena de Queens of the Dead (2025), filme de terror dirigido por Tina Romero que mistura cultura drag e apocalipse zumbi.

Em Queens of the Dead (2025), um apocalipse zumbi irrompe durante um drag show no Brooklyn. Presas dentro do clube, drag queens, artistas e funcionários precisam superar rivalidades para sobreviver à invasão dos mortos-vivos.

Sinopse de Queens of the Dead

Há filmes que nascem carregando um peso impossível. Queens of the Dead, longa de 2025 dirigido por Tina Romero, filha do criador do subgênero zumbi moderno, George A. Romero, entra nessa categoria com naturalidade desconcertante. O peso da linhagem, aqui, não paralisa. Ele dança. Com salto plataforma, maquiagem extravagante e uma faca ensanguentada na mão.

A premissa é uma declaração de intenções: um apocalipse zumbi irrompe durante um drag show no Brooklyn, e as rainhas do palco precisam deixar rivalidades de lado para sobreviver. O absurdo está no DNA do projeto. Mas a inteligência de Tina Romero reside exatamente em nunca deixar que o absurdo vire desculpa para o vazio.


O Contexto do Cinema de Zumbis

O subgênero zumbi passou por uma saturação dramática na primeira década dos anos 2000. Entre games, séries de televisão e filmes de orçamento massivo, a metáfora sociopolítica que George Romero havia cimentado desde A Noite dos Mortos-Vivos (1968) foi sendo diluída até perder quase toda a agressividade original.

Paródia de zumbi, em 2025, soa como território de risco. Duas décadas depois de Todo Mundo Quase Morto, quem ainda aguenta?

Tina Romero encontra uma resposta cirúrgica para essa armadilha. Ela não tenta revitalizar o subgênero. Ela o usa como cenário para outra conversa. Queens of the Dead é um filme de zumbis da mesma forma que é um filme sobre drag queens, sobre negritude, sobre transexualidade, sobre família escolhida. O morto-vivo, aqui, é figurante num teatro do absurdo muito mais interessante do que ele mesmo.

A produção pelo Shudder, plataforma especializada em horror com perfil autoral, garante a liberdade que um orçamento hollywoodiano proibiria. Com poucos cenários e elenco enxuto, Tina filma sem amarras e recebe sem pré-julgamentos. O resultado é uma obra que respira.


Estética Camp e Cultura Drag no Filme

O filme possui um núcleo analítico generoso para quem quiser aprofundar a leitura. A maquiagem cinza-azulada dos mortos-vivos ecoa a estética clássica dos filmes do pai. A participação de Tom Savini, lendário maquiador e ator da franquia original, funciona como assinatura de reverência. Mas é a escolha do protagonismo negro — um enfermeiro vivido por Jaquel Spivey — que carrega o gesto mais carregado de sentido.

Em 1968, George Romero escalou Duane Jones para liderar A Noite dos Mortos-Vivos no auge do movimento negro americano por direitos civis. Não era ingênuo. Era político. Tina repete o gesto em outro tempo, com outro personagem, em outra batalha. A jornada silenciosa de Spivey por autoestima dentro de um apocalipse é a continuação direta dessa escolha de 57 anos atrás.

A estética camp não é ornamento. É linguagem. O exagero das performances, a teatralidade constante, o humor venenoso entre as personagens — tudo isso pertence à lógica interna da subcultura drag. O filme não explica essa lógica para o espectador de fora. Ele a habita. E essa decisão é uma forma de respeito.


Entre a Reverência e o Escracho: onde o Filme Tropeça

Queens of the Dead não é um filme sem problemas. O roteiro mostra sinais de fadiga na segunda metade, com piadas que retornam sem ganhar novos contornos e um desequilíbrio entre o horror corporal e o drama relacional. Em determinados momentos, os zumbis parecem desaparecer narrativamente justo quando deveriam intensificar a pressão sobre os personagens.

Há também uma tensão não inteiramente resolvida entre o panfleto político e a ficção de gênero. O filme sabe disso — os monólogos edificantes são entregues com consciência do ridículo, o que os imuniza parcialmente da solenidade excessiva. Mas nem sempre esse equilíbrio se sustenta. Em alguns trechos, a mensagem pesa mais do que a cena consegue carregar.

Isso não invalida a proposta. Invalidar seria dizer que o filme falha em ser o que nunca tentou ser. Dentro dos seus limites — de orçamento, de escopo, de estreia —, Tina Romero entrega mais do que o esperado.


O Significado Cultural de Queens of the Dead

A ressonância de Queens of the Dead com o presente não precisa ser forçada. O filme existe num momento em que corpos trans são legislados, regulados e atacados com uma intensidade que tornaria qualquer metáfora redundante. Tina Romero não recorre à metáfora. Ela usa a transformação do corpo como dado concreto, não como símbolo.

Os mortos-vivos aparecem aqui associados a influencers digitais e hipsters do Brooklyn — uma piada interna que desvia a alienação zumbi do registro político tradicional para o cultural. A verdadeira resistência não vem do horror. Vem das queens que sobrevivem a ele. O ultraje performático da subcultura drag se revela, no contexto do apocalipse, como treinamento para a sobrevivência real.

Nesse sentido, o filme dialoga com o que há de mais urgente na produção cultural queer contemporânea: a recusa ao cinismo. Queens of the Dead consegue operar a ironia e a sinceridade ao mesmo tempo — e essa é uma façanha rara num cinema saturado de distância irônica que se envergonha de qualquer emoção não mediada.


Vale a pena assistir?

Tina Romero não faz um grande clássico. Faz algo mais difícil: um primeiro longa que encontra voz própria dentro de uma herança que poderia ter engolido qualquer realizadora menos segura de si.

Há nesse filme a autoridade de quem tomou para si a linguagem do ultraje não como pastiche, mas como instrumento. O pai construiu uma metáfora sobre os mortos que os vivos não querem enxergar. A filha a herda e a popula com pessoas que o cinema, por décadas, não quis ver.

Quando os créditos sobem com energia de pista de dança, fica uma impressão difícil de apagar: que esse apocalipse, ao contrário de tantos outros, deixou seus sobreviventes mais inteiros do que estavam antes de começar.


FABIO BONIFACIO

Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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