Golden: como um grupo que não existe superou o K-pop real — e redefiniu a autenticidade

Grupo fictício HUNTRX performando no filme KPop Demon Hunters com estética inspirada no K-pop e luzes neon
O grupo fictício HUNTRX, do filme KPop Demon Hunters, que levou a música Golden ao topo das paradas globais

Há um paradoxo no centro do fenômeno Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters): sua canção mais poderosa, Golden, foi escrita para um grupo que não existe — e se tornou, ainda assim, o maior hit de K-pop de todos os tempos.

HUNTR/X se tornou o primeiro grupo associado ao K-pop a liderar o ranking all-format Radio Songs da Billboard, superando décadas de avanço lento e doloroso de artistas reais de Seul para o mercado americano. O que isso diz sobre autenticidade, sobre a indústria cultural e sobre a estranha poética do nosso tempo?

A resposta não é simples — e é justamente aí que o filme de Maggie Kang e Chris Appelhans deixa de ser entretenimento e se torna documento cultural.

Antes de tudo, é preciso dizer: “Golden” é, na superfície, uma música sobre superação — sobre tornar-se aquilo que se sonha ser, apesar das falhas, da rejeição e da pressão. Mas reduzir a canção a isso é perder o que ela tem de mais interessante. Porque, em KPop Demon Hunters, “Golden” não é apenas uma mensagem: é um sintoma.


O ídolo como função, não como pessoa

O K-pop construiu, ao longo de três décadas, uma das arquiteturas mais sofisticadas de produção de subjetividade da cultura de massas. Não se vende apenas música: vende-se uma persona calculada, uma narrativa de superação, um vínculo afetivo que os fandoms chamam de parasocial. O grupo existe para ser amado, e esse amor opera segundo regras tão rígidas quanto invisíveis.

KPop Demon Hunters radicaliza essa lógica ao dispensar o corpo real. Rumi, Mira e Zoey são personagens animadas; suas vozes pertencem a cantoras reais, entre elas EJAE, ex-trainee da SM Entertainment que passou mais de uma década em treinamento antes de ser dispensada e recomeçar no mercado americano. A ficção, aqui, não mascara a realidade: ela a amplifica. O que “Golden” canta — a superação, o brilho conquistado a duras penas — não é roteiro. É biografia.

Chris Molanphy, da Slate, identificou a canção como “uma música de coroação de American Idol ou uma canção ‘I want’ da Disney passada pela máquina do K-pop, um hino de empoderamento calibrado para que os fãs se relacionem individualmente e parasocialmente”. É uma descrição precisa, mas incompleta. O que Molanphy vê como fórmula é também, neste caso, confissão.


A ficção que sangra no real

Existe uma categoria crítica pouco utilizada fora dos estudos de mídia: a diegetic overflow, ou transbordamento diegético — quando elementos do mundo ficcional extravasam seus limites e produzem efeitos no mundo empírico. Em KPop Demon Hunters, esse fenômeno ocorreu de maneira inédita e perturbadora em sua escala.

“Golden” foi o primeiro single a fazer HUNTR/X liderar o Billboard Global 200 — tornando-os o primeiro grupo ficcional a reinar no ranking. Não apenas isso: a trilha sonora teve quatro músicas simultaneamente no top dez do Billboard Hot 100, feito que só quatro álbuns na história da plataforma haviam alcançado. Grupos reais de K-pop, incluindo BTS e BLACKPINK, nunca chegaram tão longe no mercado americano. Um grupo que existe apenas em pixels os superou.

A semiótica tem um conceito para isso: o simulacro, conforme elaborado por Jean Baudrillard. Na sua formulação, o simulacro não é uma cópia pobre do real — é uma representação que precede e condiciona o real, que passa a se organizar em torno dela. HUNTR/X não imita o K-pop: ela o modela, projeta sobre ele uma forma ideal que os grupos reais agora precisarão habitar ou contra a qual serão medidos. O fictício tornou-se o padrão.


O Oscar e a lacuna que ninguém queria nomear

Na cerimônia do Oscar, ao receber o prêmio de Melhor Filme de Animação, a diretora Maggie Kang disse em lágrimas: “Para aqueles que se parecem comigo — lamento que tenha demorado tanto para nos ver em um filme assim. Isso é pela Coreia e pelos coreanos em todo o mundo.”

A frase é uma espada de dois gumes. De um lado, celebra uma vitória cultural legítima: um filme enraizado na mitologia e na estética coreanas, dirigido por uma cineasta coreano-americana, ganha o prêmio máximo da indústria cinematográfica ocidental. De outro, denuncia — implicitamente — que Hollywood nunca havia feito isso por conta própria. Foi preciso um produto da Netflix, uma animação, um gênero historicamente subestimado, para que uma história coreana chegasse ao centro.

O K-pop real, com seus artistas de carne e osso que treinaram por anos em sistemas muitas vezes cruéis, não havia conseguido o Grammy. “Golden” foi a primeira música de K-pop a vencer o Grammy, na categoria de Melhor Canção Escrita para Mídia Visual. E ela pertence a um grupo que não pode apertar a mão da gravadora, que não sofreu com as dietas impostas pelos estúdios, que não tem um contrato de exclusividade de sete anos. O reconhecimento institucional chegou pela via da ficção — o que diz mais sobre as instituições do que sobre a ficção.


O que “Golden” promete que o K-pop não pode cumprir

A grandeza artística de “Golden” reside, em última instância, em sua honestidade estrutural. A música é construída para emocionar — e emociona. Mas o que ela emociona não é a fantasia do ídolo perfeito. É a memória de quem quase desistiu.

EJAE declarou: “Me sinto como se tivesse vivido todas as facetas do K-pop. Fui trainee, me tornei compositora, trabalhei como diretora vocal para ídolos. Então me identifiquei profundamente com Rumi. Ela é uma perfeccionista tentando esconder sua vergonha, esconder suas falhas. Na época em que compus ‘Golden’, eu precisava de uma música assim.”

Aqui está o nó conceitual do fenômeno: a música funciona porque foi escrita de dentro de uma dor real, ainda que cantada por um avatar animado. A performance é dupla — Rumi canta para seus fãs fictícios no filme; EJAE canta para si mesma, para a criança de onze anos que entrou na SM Entertainment cheia de esperança. O espectador e o ouvinte recebem as duas camadas simultaneamente, mesmo sem saber de nenhuma delas conscientemente.

Walter Benjamin escreveu que a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica perde sua aura — aquela unicidade ligada ao aqui e agora de uma presença. KPop Demon Hunters inverte a premissa: ao remover completamente o corpo, ao fazer da mediação técnica a própria condição de existência do grupo, o filme paradoxalmente reconstitui uma espécie de aura — a da autenticidade emocional, desprendida de qualquer suporte físico.


Ser dourado é uma escolha que a indústria raramente permite

O que o fenômeno de KPop Demon Hunters revela, no fundo, é um desejo coletivo reprimido: o desejo por ídolos que sejam humanos sem precisar ser explorados para isso. A indústria do K-pop produz humanidade encenada com um custo humano enorme. A ficção animada reproduz a humanidade encenada — sem o custo.

Isso não é uma vitória. É um diagnóstico.

Com mais de 500 milhões de visualizações na Netflix e uma sequência já confirmada com os mesmos diretores, HUNTR/X continuará sua jornada. E os grupos reais de K-pop continuarão treinando, sendo moldados, sendo lançados — e talvez, agora, sendo comparados a um padrão que nunca precisou dormir cinco horas por noite nem recusar um prato de arroz para manter o peso.

Ser dourado, a música nos diz, é o que você é quando para de esconder suas rachaduras. A indústria que inspirou o filme raramente concorda. E é esse atrito — entre o que a arte promete e o que o mercado permite — que faz de “Golden” algo mais do que um hit: faz dela um espelho, e um espelho sempre revela mais do que quem o fabricou pretendia mostrar.

FABIO BONIFACIO

Apaixonado por narrativas e significados escondidos nas entrelinhas da cultura pop. Escrevo para transformar filmes, séries e símbolos em reflexão — porque toda imagem carrega uma mensagem.

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