O som como testemunho e o silêncio como cumplicidade
Há filmes que exigem avaliação. E há filmes que exigem posicionamento. A Voz de Hind Rajab, da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, pertence inequivocamente à segunda categoria — e é exatamente essa distinção que torna qualquer análise convencional uma tarefa incompleta, quase desonesta.
Não porque o filme dispense o olhar crítico, mas porque ele o transforma. Ao longo de seus 89 minutos, Ben Hania não oferece cinema para ser admirado. Oferece escuta para ser suportada.
A tese da obra é simples na forma e insuportável no conteúdo: um escritório da Crescente Vermelha na Cisjordânia, quatro funcionários, um telefone tocando, e do outro lado da linha, a voz real de uma menina de seis anos sozinha num carro rodeado de mortos.
O que aconteceu em 29 de janeiro de 2024 — e por que isso importa
Hind Rajab existiu. Essa é a primeira e mais pesada afirmação do filme.
Ela ficou presa dentro do carro do próprio tio, após o veículo ser atingido, e passou três horas no telefone com voluntários do Crescente Vermelho antes de ser encontrada morta, ao lado dos paramédicos, doze dias depois da ligação.
O genocídio orquestrado por Israel ao povo palestino visto pelo ângulo de voluntários da Cruz Vermelha distancia a obra de mera ficção.
Ben Hania não reconstrói a guerra. Ela a reduz a uma mesa, quatro cadeiras e um arquivo de áudio. É justamente essa escolha de escala que produz o efeito mais devastador do filme: a violência não está nas imagens, mas no que se ouve entre elas.
A diretora decidiu não escalar uma atriz para interpretar Hind em respeito à menina e sua família.
No filme, é usada apenas a voz da jovem e as ligações de áudio verdadeiras feitas para o serviço de emergência palestino. Essa ausência de corpo é, paradoxalmente, a presença mais poderosa da obra.
Entre o audível e o visível: onde o filme realmente acontece
Ben Hania já havia demonstrado em As Quatro Filhas de Olfa uma habilidade rara de borrar as fronteiras entre documento e encenação.
Em A Voz de Hind Rajab, essa operação se radicaliza numa estrutura quase cirúrgica: o esquema estabelece uma divisão entre o áudio, de natureza documental, e o visual, ficcionalizado com atores.
O uso da voz real de Hind, sem a materialização do corpo, é talvez o gesto mais perturbador do filme. O cinema produz empatia pela imagem — e aqui nos vemos reduzidos à escuta. E escutar é mais difícil do que ver.
A voz infantil, frágil, interrompida por ruídos, silêncios e medo, não permite distanciamento crítico confortável.
Hind Rajab repete apenas “venham me buscar, estou sozinha, está escuro, estou com medo, estão atirando em nós”, enquanto os soldados num tanque israelense disparam ininterruptamente contra o carro onde ela está.
Não há poesia.
E é exatamente essa recusa ao lirismo que confere ao filme sua força moral. Qualquer embelezamento seria cumplicidade com o esquecimento.
A burocracia como violência estrutural
Em termos dramatúrgicos, o filme se estrutura em torno de um impasse ético: se os personagens seguirem as regras, uma garota de seis anos possivelmente vai morrer. Se não as seguirem, são os paramédicos quem provavelmente vão morrer.
Não importa o que façam — a regra é a morte. O sistema está desenhado para que inocentes pereçam impunemente.
A câmera observa, a montagem respeita o tempo real da espera, o espaço é iluminado de maneira funcional, quase laboratorial. Não há música conduzindo sentimentos. Qualquer excesso estético poderia funcionar como anestesia — o que não é a intenção.
O filme prefere o desconforto seco, contínuo, administrativo, porque é exatamente assim que a violência se organiza naquele contexto.
O escritório da Crescente Vermelha torna-se, assim, uma metonímia do mundo: um espaço onde pessoas de boa vontade são aprisionadas por estruturas que não controlam, obrigadas a negociar permissões para salvar uma vida enquanto a vida escorre pelo telefone.
Os limites da dramatização e o risco da manipulação
Nenhuma obra séria escapa ilesa do escrutínio — e A Voz de Hind Rajab tampouco deveria.
Quando o filme opta por rotas mais tradicionais de dramatização — desmaios, conflitos que parecem servir mais para os atores escancararem emoções e alguns truques de montagem —, o espectador é afastado. São artimanhas que até suavizam o efeito do filme, que é melhor justamente quando se firma no simples.
Ben Hania nos entrega o discurso pronto a respeito de quem amar e quem odiar. Ninguém duvida das atrocidades cometidas em Gaza — mas o posicionamento motivado pela pena do outro nem sempre representa a melhor arma política de conscientização.
Em geral, ferramentas do gênero despertam uma reação epidérmica seguida do alívio de não nos encontrarmos em situação semelhante.
A questão que o filme abre, sem querer fechá-la, é precisamente esta: até que ponto a emoção gerada no espectador se converte em consciência, e a consciência em ação? Chorar numa sala escura e sair aliviado por não ser palestino é exatamente o fracasso que o filme tenta combater.
O cinema diante do que não pode representar
Há um momento em que Ben Hania coloca os atores diante das telas de celular exibindo vídeos reais gravados pela equipe da Crescente naquele dia.
A cineasta quebra a quarta parede para expor a nossa inércia, a nossa indiferença, o nosso comodismo como espectadores passivos do fim de qualquer noção de civilização humana.
O filme transcende a crítica tradicional: não pede avaliação, pede posicionamento. Não busca admiração, busca responsabilidade. Ao final, quando a voz se cala, o que resta não é apenas tristeza ou revolta, mas um vazio ético — a percepção de que falhamos como sociedade.
Hind Rajab se converte, por essa perspectiva, num ícone da situação degradante em que foi colocado o povo palestino na totalidade, diante da letargia ou conivência de órgãos políticos e potências mundiais. A menina que não aparece na tela ocupa, paradoxalmente, todo o espaço do filme.
Quando o filme termina — e o silêncio começa
Há relatos de sessões em festivais onde o público simplesmente não aplaudiu ao final. Tudo o que pôde ser ouvido foi um silêncio sepulcral. Esse silêncio coletivo talvez seja a crítica mais honesta que se pode fazer ao filme — e ao mesmo tempo a sua maior vitória.
A Voz de Hind Rajab não é um filme perfeito. Sua estrutura às vezes vacila entre a sobriedade necessária e o melodrama desnecessário. Mas a obra de Ben Hania faz algo que pouquíssimos filmes contemporâneos ousam: recusa-se a ser confortável. Recusa-se a deixar o espectador sair com a sensação de dever cumprido apenas por ter assistido.
A voz de Hind Rajab foi silenciada em 29 de janeiro de 2024.
O filme garante que ela continue sendo ouvida — não como memória, mas como acusação. E enquanto houver uma sala escura disposta a escutá-la, haverá alguma chance de que essa acusação encontre os responsáveis.




