Hig, Bangley e seu cachorro em Ponto Sem Retorno
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Ponto Sem Retorno: quando a paisagem fala mais alto que o roteiro

Há uma pergunta que atravessa toda a obra recente de Ridley Scott: o que fazer quando um cineasta ainda domina a forma, mas parece cada vez mais indiferente ao conteúdo? Ponto Sem Retorno, adaptação do romance “Na Companhia das Estrelas”, de Peter Heller, responde a essa pergunta de um jeito ambíguo. 

É um filme que impressiona pela composição de cada plano e, ao mesmo tempo, se perde na tarefa mais básica de qualquer narrativa de sobrevivência: fazer o espectador sentir urgência.

Aos 88 anos, Scott segue trabalhando num ritmo que intimidaria diretores com metade da sua idade, e essa vitalidade produtiva já seria, por si só, um dado curioso sobre sua carreira. 

Mas produtividade não é sinônimo de consistência. Depois de O Último Duelo ter sido, para boa parte da crítica, um dos pontos mais sólidos de sua fase recente, Ponto Sem Retorno chega como um novo capítulo de uma trajetória irregular, quase errática, em que cada lançamento reabre a mesma discussão: este é o Scott inspirado ou o Scott em piloto automático?

Um mundo pós-pandêmico e uma dupla desencontrada

A trama acompanha Hig, piloto viúvo vivido por Jacob Elordi, que sobrevive num hangar isolado no Colorado após uma pandemia dizimar a maior parte da humanidade. Ele divide o cotidiano com seu cachorro Jasper e com Bangley, ex-fuzileiro naval interpretado por Josh Brolin, numa convivência de conveniência mais do que de afeto. 

A rotina de patrulhas e sobrevivência é rompida quando Hig capta uma transmissão de rádio que sugere a existência de outros sobreviventes, empurrando‑o para fora do perímetro que aprendeu a considerar seguro.

É terreno conhecido para o gênero pós-apocalíptico, que historicamente oscila entre dois polos: a espetacularização da violência e a melancolia contemplativa do vazio humano. Scott escolhe claramente o segundo caminho, e é nessa escolha que reside tanto a força quanto a fragilidade do filme.

Fotografia grandiosa, ritmo que hesita

O primeiro eixo que sustenta a crítica é o visual. Aqui não há meio-termo: Scott continua sendo um dos diretores mais seguros do cinema contemporâneo na hora de construir um mundo através da imagem. 

Os campos desertos, o aeroporto abandonado e os voos solitários de Hig compõem uma sensação de isolamento que não precisa de explicações verbais — ela está na composição do quadro. A fotografia, grandiosa sem ser artificial, faz o espectador sentir o peso daquele cotidiano reduzido à subsistência.

O problema surge no segundo eixo, o da condução narrativa. O filme investe pesadamente numa cadência contemplativa, sobretudo no primeiro ato, e essa opção cobra um preço alto no andamento dramático. 

Há uma diferença entre um silêncio que constrói tensão e um silêncio que apenas adia o conflito, e Ponto Sem Retorno nem sempre sabe distinguir os dois. As sequências iniciais se estendem além do necessário sem acrescentar novas camadas ao estado psicológico de Hig, e o resultado é um filme que alterna momentos genuinamente envolventes com trechos que se arrastam — não por ambição estética, mas por indecisão de roteiro.

O terceiro eixo é o do elenco, que funciona como contrapeso a essas oscilações. Elordi entrega um Hig contido, que comunica desgaste emocional através de gestos mínimos, sem recorrer a grandes explosões dramáticas. É um tipo de atuação que exige do público paciência, mas que recompensa quem a oferece. 

Brolin, por sua vez, evita transformar Bangley numa caricatura de sobrevivencialista raivoso, dando à personagem uma dureza mais funcional do que espetacular. A relação entre Hig e Jasper, aliás, revela mais afeto genuíno do que boa parte das interações entre os personagens humanos — um sintoma sutil de que o roteiro tem mais facilidade em sugerir sentimento do que em dramatizá-lo entre pessoas.

O paradoxo de um filme competente e inerte

A tensão central de Ponto Sem Retorno é essa: raramente um filme tão bem filmado parece tão hesitante sobre o que quer contar. 

Scott recusa transformar cada espaço vazio numa preparação para o próximo ataque, e essa recusa tem mérito — evita que o cenário apocalíptico vire apenas um parque de diversões para perseguições. Mas a alternância entre contemplação e ação pontual deixa buracos de ritmo, especialmente quando a quietude demora demais para produzir consequências dramáticas.

Há também uma escolha estrutural discutível na forma como o roteiro usa a perda como motor emocional do protagonista, recorrendo a um evento traumático para justificar a virada da trama. 

O recurso funciona como gatilho narrativo, mas chega de um jeito que soa mais mecânico do que conquistado, como se o filme precisasse de um empurrão externo para admitir que sua própria premissa já continha tensão suficiente. É o tipo de decisão que revela um roteiro em conflito consigo mesmo: ora confiante na força do silêncio, ora inseguro a ponto de recorrer a atalhos emocionais.

Por que um filme “apenas correto” ainda diz algo sobre o cinema de catástrofe

Ponto Sem Retorno chega num momento em que o cinema de sobrevivência pós-apocalíptica virou quase um subgênero saturado, e a obra de Scott expõe um dilema comum a boa parte dessas produções recentes: como equilibrar espetáculo visual com uma reflexão real sobre isolamento, luto e a fragilidade dos vínculos humanos, sem que um desses elementos engula o outro. 

Quando o filme funciona, é justamente nos momentos em que essas duas camadas — a estética e a emocional — se encontram, como na relação entre Hig e seu cachorro. Quando falha, é porque a ambição contemplativa não encontra parceria à altura no roteiro, deixando a sensação de um edifício belíssimo construído sobre uma fundação incompleta.

Isso também diz algo sobre a posição atual de Scott na cultura cinematográfica: um diretor cuja assinatura visual segue sendo praticamente inconfundível, mas cuja capacidade de escolher — ou fortalecer — os roteiros que filma tornou-se o verdadeiro ponto de interrogação de sua fase tardia.

Um ponto sem Retorno e sem Chegada

Depois de quase duas horas de paisagens desoladas e silêncios bem fotografados, Ponto Sem Retorno chega ao seu desfecho sem o peso que sua construção visual prometia. Não é um fracasso — está longe disso —, mas também não é a obra que a soma de seus talentos envolvidos sugeria ser possível. Fica a sensação de um filme que sabe exatamente como parecer importante, mas hesita em decidir sobre o que, de fato, quer se importar.

Se há uma imagem que resume essa experiência, é a do próprio Hig sobrevoando um território vazio: competente, disciplinado, tecnicamente impecável — e, ainda assim, incapaz de encontrar, por conta própria, o destino que o justifique.


na companhia das estrelas

Leitura Recomendada – Na Companhia das Estrelas – Peter Heller

Em um mundo devastado pela doença, Hig conseguiu escapar à gripe que matou todo mundo que ele conhecia. Sua esposa e seus amigos estão mortos, e ele sobrevive no hangar de um pequeno aeroporto abandonado com seu cachorro, Jasper, e um único vizinho, que odeia a humanidade, ou o que restou dela.

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