O Último Nascer do Sol: crítica do filme do Prime Video que confunde beleza com profundidade
Há um subgênero cada vez mais reconhecível no streaming: o romance de verão em que a beleza da paisagem trabalha horas extras para cobrir a fragilidade do roteiro. O Último Nascer do Sol, novo filme do Prime Video, se encaixa nele com uma precisão quase didática — e é justamente essa previsibilidade, mais do que qualquer defeito técnico isolado, que define os limites da obra.
Uma adaptação que chega com pedigree
O filme é baseado no romance de Anna Todd, autora que se tornou fenômeno editorial com a saga After, e chega ao catálogo do Prime Video dirigido por Carlson Young, com roteiro de Anna Klassen.
A protagonista é Ry, papel de Maia Reficco, uma jovem de 22 anos criada sob vigilância constante da mãe, Isolde, vivida por Eva Longoria, por conta de uma condição de saúde grave. Uma viagem a Maiorca muda essa rotina: ali, Ry conhece Julián, interpretado por Fernando Lindez, e passa a viver, pela primeira vez, fora do controle materno.
A escolha de Maiorca não é decorativa. O filme claramente aposta na ilha como personagem — luz mediterrânea, falésias, festas à beira-mar — para sustentar emocionalmente uma trama que, no papel, já é bastante conhecida.
Química de elenco versus espessura temática
Maia Reficco constrói uma Ry crível na transição entre contenção e desejo de liberdade, e Fernando Lindez cumpre com naturalidade o papel do rapaz que representa tudo aquilo de que ela foi mantida distante.
A química funciona o suficiente para carregar as cenas mais românticas sem soar artificial.
O problema está um degrau acima, na espessura do que o filme quer dizer. A narrativa toca em morte, liberdade, arrependimento e amor com uma frequência quase obsessiva, mas raramente aprofunda qualquer um desses temas além do gesto simbólico.
Cada conversa importante parece existir para preparar a próxima imagem bonita, não para desenvolver ideia alguma sobre o que significa viver sabendo que o tempo é curto.
A fórmula que o filme não ousa quebrar
Existe uma diferença relevante entre uma história simples e uma história rasa, e é nessa fronteira que O Último Nascer do Sol tropeça.
A fórmula — protagonista superprotegida, rapaz que encarna liberdade, cenário paradisíaco, diagnóstico que transforma cada cena em possível despedida — é reconhecível de longe, e o filme não se esforça para subvertê-la.
Mesmo a relação entre Ry e a mãe, que poderia render o conflito mais interessante da trama, fica em segundo plano diante do romance, desperdiçando a oportunidade de dar à personagem de Eva Longoria algo além de obstáculo narrativo.
Por que esse tipo de história ainda importa
Apesar das reservas, vale entender por que produções assim continuam sendo feitas e consumidas em volume.
O romance juvenil ambientado em cenários turísticos, com uma personagem enfrentando doença ou perda iminente, oferece ao público uma forma segura de lidar com temas pesados — mortalidade, tempo, escolhas — sem exigir o desconforto real que esses temas normalmente trazem.
É cinema de conforto disfarçado de drama existencial, e há um público legítimo para isso, especialmente dentro da lógica de consumo rápido do streaming.
O risco é que essa segurança emocional vire também superficialidade emocional, e é exatamente aí que o filme de Carlson Young se enquadra: mais interessado em confortar do que em provocar.
A conclusão que a paisagem não consegue adiar
O Último Nascer do Sol entrega o que promete no nível mais básico — paisagens deslumbrantes, um casal com química palpável, um ritmo de verão fácil de acompanhar.
Mas ao tocar em temas como morte e liberdade sem realmente se comprometer com eles, o filme escolhe o caminho mais confortável quando tinha material para arriscar mais. No fim, sobra um nascer do sol bonito de se ver — e pouco para se levar além dele.







