O cinema virou trincheira: o “boicote” contra Kleber Mendonça Filho

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Quando o filme incomoda mais que o roteiro

Poucos diretores brasileiros são tão respeitados fora do país quanto Kleber Mendonça Filho. E poucos são tão atacados dentro dele.

Desde Aquarius (2016), sua trajetória foi empurrada para um lugar que raramente combina com arte: a guerra ideológica. O protesto da equipe em Cannes — contra o impeachment — transformou um filme sobre memória, cidade e resistência em um “símbolo político”.

E aí nasce o boicote: não como decreto oficial, mas como clima.

Campanhas de rejeição nas redes, ataques a elenco, tentativas de rotular o diretor como “militante” e a repetição de um roteiro velho: a arte não pode provocar, só agradar.

O boicote moderno não proíbe — ele desgasta

Hoje, boicote não precisa queimar livro nem censurar em cartório. Basta algo mais eficiente: descredibilizar.

Quando a discussão sobre um filme vira sobre “de que lado ele está”, o público deixa de ser espectador e vira torcida. Não se pergunta se a obra é boa — pergunta-se se ela “merece”.

É por isso que Kleber sofre boicote, sim: não necessariamente por um ato formal, mas por uma dinâmica constante de deslegitimação pública. E isso diz menos sobre ele do que sobre nós.

Porque, no fundo, o cinema só vira alvo quando acerta o nervo.

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