Pai, diretora e policial observam desenho infantil de Iansã em sala de aula durante debate sobre atividade escolar de cultura afro-brasileira.
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Quando um pai chama a polícia para uma lição de história: educação e polarização no Brasil

Uma escola de educação infantil em São Paulo, policiais armados no corredor, uma diretora explicando a Lei 10.639. O episódio parece absurdo — mas revela uma disputa que vai muito além de uma lição de casa sobre Iansã.


Na tarde de uma segunda-feira comum, policiais militares entraram armados em uma escola de educação infantil de São Paulo para apurar a reclamação de um pai.

O motivo: uma atividade pedagógica sobre cultura afro-brasileira havia mencionado Iansã, orixá do candomblé.

A diretora, câmeras corporais ligadas, explicou pacientemente que não estava ensinando religião — estava cumprindo a Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira no currículo nacional.

O policial respondeu que ela tentava “impor sua ideologia”. As imagens circularam. O debate explodiu.

O episódio, por mais localizado que pareça, funciona como sintoma. Ele não é sobre Iansã. É sobre quem tem autoridade para nomear o que é conhecimento — e quem tem o poder de interromper esse processo quando a resposta não agrada.


A fronteira invisível entre ensinar sobre e ensinar a crer

Existe uma distinção que qualquer currículo de humanidades conhece bem: há diferença entre ensino religioso — a transmissão de uma fé, o convite à adesão doutrinária — e o estudo cultural de tradições religiosas, que trata mitos, rituais e divindades como objetos de análise histórica, literária e antropológica.

Aprender que Iansã é orixá dos ventos e das tempestades no candomblé não é diferente, em natureza, de aprender que Ares é o deus da guerra na mitologia grega. Ninguém interpreta o estudo da Ilíada como proselitismo helênico.

Mas essa distinção, que no papel parece simples, na prática opera sobre um terreno minado.

Parte porque a escola brasileira convive com uma assimetria histórica profunda:

o catolicismo foi, durante séculos, o referencial implícito do que se chamava de “cultura” — e o candomblé, a umbanda, as religiões de matriz africana ficaram classificadas como folclore, superstição ou, pior, ameaça.

Nesse contexto, apresentar Iansã como elemento curricular não soa neutro para quem foi educado na ideia de que o sagrado tem um único endereço legítimo.

“Ensinar sobre uma religião é o mesmo que ensinar uma religião?” A pergunta parece simples. É justamente onde se concentra o conflito real.

A filósofa Martha Nussbaum, ao discutir a educação para a cidadania democrática, argumenta que aprender a olhar para a alteridade cultural — inclusive religiosa — é condição para a vida pública em sociedades plurais.


Não se trata de converter ninguém: trata-se de formar pessoas capazes de habitar um mundo que não é monolítico. A escola pública, em uma república laica e multiétnica, não tem outra escolha senão ensinar a pluralidade. Omiti-la não é neutralidade — é privilégio disfarçado de cautela.


Policiais na escola: quando o conflito simbólico ganha corpo e arma

O segundo aspecto do episódio é igualmente perturbador, e merece ser lido por conta própria:

policiais armados adentraram uma escola de educação infantil para apurar uma queixa curricular.

Independentemente do mérito da reclamação, há algo estruturalmente errado nessa cadeia de resposta.

A escola não é extensão da delegacia. A pedagogia não é matéria de ocorrência policial. O momento em que agentes do Estado com armas na cintura passam a arbitrar disputas sobre conteúdo curricular marca uma confusão de instâncias que deveria preocupar todo espectro político.

Porque hoje é Iansã. Amanhã pode ser Darwin. Ou Paulo Freire. Ou a tabela periódica — se alguém decidir que a idade do universo contraria suas convicções.

Não se trata de demonizar a corporação policial: a apuração interna da conduta dos agentes indica que há, dentro da própria instituição, consciência de que algo saiu dos trilhos.

O problema é sistêmico.

Ele revela que, em um ambiente de polarização extrema, os mecanismos de mediação legítima — diálogo com a direção, conversa com o conselho escolar, recurso às instâncias educacionais — foram pulados em favor de uma intervenção que garante visibilidade e sensação de poder imediato. A escola virou palco antes de virar campo de resolução.

O preço da autocensura escolar

O conceito de “guerra cultural” — popularizado por sociólogos americanos nos anos 1990 para descrever os conflitos de valores que substituíram, em parte, as antigas clivagens de classe — descreve bem o que está acontecendo na educação brasileira.

Não estamos diante de um debate honesto sobre pedagogia. Estamos diante de uma disputa por hegemonia simbólica: quem define o que é legítimo ensinar define, em última instância, o que é legítimo existir no espaço público.

Nesse cenário, o professor e a diretora de escola se tornam figuras quase impossíveis. Espera-se que sejam tecnicamente competentes, emocionalmente estáveis, juridicamente seguros e politicamente inofensivos — ao mesmo tempo.

Que ensinem a história do Brasil sem tocar em suas feridas. Que apresentem a diversidade cultural do país sem incomodar as famílias que preferem não enxergá-la. Que cumpram a legislação federal enquanto negociam, corredor por corredor, a interpretação do que essa legislação significa.

O resultado dessa pressão acumulada não é a escola neutra que alguns imaginam: é a escola paralisada. A escola que se autocensura antes que o policial chegue. Que retira o projeto antes que o pai reclame. Que aprende, ao longo do tempo, que o único conteúdo seguro é o inócuo.

A escola que aprende a ser inofensiva aprende, ao mesmo tempo, a ser inútil.


A Lei 10.639/2003 não surgiu do acaso.

Surgiu do reconhecimento de que durante décadas o currículo oficial brasileira silenciou contribuições africanas e afro-brasileiras à formação do país — na língua, na culinária, na religião, na música, na filosofia, na resistência política.

Ensinar sobre Iansã não é capricho ideológico: é reparação histórica com respaldo legal. Questionar esse ensino não é proteção da família: é a continuidade, por outros meios, de um apagamento que a república brasileira já decidiu — formalmente — superar.

O que o episódio de São Paulo revela, no fundo, é que a polarização não é apenas política. Ela é epistêmica: trata-se de um conflito sobre o que conta como conhecimento válido, sobre quais histórias merecem ser contadas e sobre quem tem o direito de interrompê-las.

A escola pública, nesse cenário, não é um espaço neutro ameaçado por ideologias externas. Ela é, ela mesma, o território em disputa. E educar, nessas condições, é um ato que exige, além de competência técnica, algo que os currículos raramente ensinam: coragem civil.

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