A História do Som (2025) e o que permanece Gravado: Amor, Silêncio e Memória
A História do Som (2025), dirigido por Oliver Hermanus e exibido no Festival de Cannes e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um drama histórico sobre memória, música e amor silencioso entre dois homens no início do século XX. Baseado no conto de Ben Shattuck e estrelado por Paul Mescal e Josh O’Connor, o filme usa a etnomusicologia e a preservação de canções populares como metáfora para aquilo que o tempo insiste em apagar.
Introdução
A História do Som, filme de Oliver Hermanus estreado em Cannes em 2025 e exibido na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, começa com uma pergunta quase sinestésica: o que você vê quando ouve música? Para Lionel Worthing, jovem nascido no Kentucky rural na virada do século XIX para o XX, sons têm cor, cheiro, forma.
É uma percepção que o isola e, ao mesmo tempo, o torna singular. O filme parte dessa ideia para construir algo muito mais amplo — uma meditação sobre o que escolhemos preservar, o que o tempo apaga e o que sobrevive apenas na memória do corpo.
Baseado no conto de Ben Shattuck, com roteiro adaptado pelo próprio autor, o longa se ancora em dois personagens que funcionam como polaridades complementares: Lionel (Paul Mescal), introvertido, sensível, quase recolhido sobre si mesmo; e David White (Josh O’Connor), professor de composições, mais expansivo e inquieto. A química entre os dois é o fio condutor do filme. E também o seu principal campo de batalha crítica.
O Contexto Histórico e a Música em A História do Som
O contexto histórico de A História do Som não é mero cenário. A Primeira Guerra Mundial irrompe no meio da história como uma fratura irreparável, separando corpos que mal haviam se encontrado. Quando David retorna e convida Lionel para uma expedição ao interior do Maine — uma viagem para mapear e registrar canções populares em cilindros de cera —, o filme encontra seu eixo mais fértil.
A prática da etnomusicologia emerge aqui com uma dimensão simbólica precisa: registrar música folk americana é, no fundo, tentar preservar o que a história insiste em apagar. As vozes de trabalhadores, de famílias pobres, de pessoas negras às margens da violência racial.
Há uma cena em que os dois homens se juntam a um pai e uma filha negros prestes a serem abordados por uma polícia racista, e o coral que emerge dali tem uma potência que o restante do filme raramente alcança. Hermanus filma esses encontros com contenção deliberada, deixando as vozes falarem por si. É quando o filme respira com mais liberdade.
A expedição é também uma alegoria do próprio amor que se forma ali. Lionel e David recolhem canções que ninguém mais guardará. E um ao outro — furtivamente, entre neve e silêncio —, fazem o mesmo.
O Romance Silencioso entre Lionel e David
Aqui reside a tensão mais produtiva e mais problemática do filme.
Hermanus opta por uma estética de extrema contenção para retratar o romance entre os dois homens. Numa época em que a homossexualidade era ilegal e moralmente estigmatizada, o desejo entre Lionel e David se manifesta em olhares prolongados, proximidades calculadas, vozes que se harmonizam antes que os corpos possam se tocar.
Essa escolha tem uma coerência histórica e uma elegância formal inegáveis. A fotografia de tons pastel, os planos longos e as paisagens áridas do Maine constroem uma atmosfera de introspecção que espelha o amor silenciado dos protagonistas. O desejo latente pode ser mais perturbador do que o desejo explícito — e há momentos em que o filme entende isso com precisão.
O problema é que Hermanus parece ter corrigido demais o leme. A contenção, que poderia ser radicalismo estético, às vezes escorrega para o vazio emocional. As cenas de beijo, conversa e olhar têm apenas uma nota. O diretor retira do filme o calor que sua própria narrativa exige para funcionar. Sobra o quadro. Falta o que deveria habitá-lo.
Mescal e O’Connor são dois dos atores mais precisos de sua geração para retratar o desejo silencioso e quase proibido. Normal People e Challengers, respectivamente, são testemunhos disso. Mas isolados dentro de uma mise-en-scène que recua diante do afeto, eles não conseguem sozinhos aquecer o que o filme teima em deixar frio.
O Ensaio Sobre o Que Não Dura
A segunda metade de A História do Som acompanha Lionel ao longo das décadas seguintes, até os anos 1980, num percurso que mapeia o vazio deixado por um amor interrompido. É uma estrutura ambiciosa que esbarra num problema: ao afastar os dois personagens, o filme perde também seu interesse pela música. Passamos longos minutos acompanhando Lionel ansiando por um retorno à arte e ao afeto, numa melancolia que se torna calculada demais para doer de verdade.
Há uma contradição ideológica no coração do filme que vale nomear. A obra pretende resgatar do esquecimento tanto as canções populares quanto o amor queer não vivido plenamente. Mas ao tratá-los ambos com excesso de delicadeza, acaba reproduzindo, inadvertidamente, a mesma lógica que forçou esses amores à invisibilidade: a de que o desejo entre homens deve permanecer discreto, etéreo, quase imaterial. A contenção como estética pode ser sofisticada. A contenção como apagamento é outra coisa.
Ben Shattuck, ao adaptar o próprio conto, preserva a fidelidade tonal da obra literária. Mas literatura e cinema são linguagens distintas. O que na página pode funcionar como elipse poética, na tela exige outra materialidade. A voz interior que um conto pode oferecer ao leitor não tem equivalente automático em imagem. E Hermanus, talvez por excesso de respeito ao texto original, não encontrou completamente essa tradução.
Por que A História do Som ainda importa no Cinema Contemporâneo
A História do Som chega num momento em que o cinema queer enfrenta uma tensão produtiva: de um lado, obras que apostam na visibilidade explícita do desejo como ato político; de outro, filmes que reivindicam a elegância e a subtileza como forma igualmente válida de representação. Hermanus claramente pertence ao segundo campo, e esse posicionamento tem valor.
Num cenário cultural em que narrativas queer ainda enfrentam censura, boicote e apagamento em diversas partes do mundo — inclusive no Brasil —, um filme que trata um romance gay com a seriedade de um drama histórico de prestígio internacional é, em si, um gesto político. A História do Som foi exibido em Cannes, na Mostra de SP e circulou em festivais que amplificam seu alcance. Isso não é trivial.
Além disso, a escolha pela etnomusicologia como tema evoca debates urgentes sobre preservação cultural, memória oral e o apagamento sistemático de tradições populares. Há algo de contemporâneo nessa arqueologia sonora, mesmo ambientada há um século.
O que permanece, depois que os cilindros de cera silenciam
A imagem mais precisa de A História do Som não está em suas cenas de romance. Está na figura de Lionel contemplando o equipamento rudimentar de gravação e percebendo, talvez pela primeira vez, que é possível compartilhar com os outros o que acontece em sua mente quando escuta algo. Registrar é um ato de amor. E de desespero.
O filme de Oliver Hermanus é, no fundo, sobre a impossibilidade de preservar completamente aquilo que nos foi mais precioso. As canções se degradam nos cilindros. Os amores não ditos envelhecem em silêncio. O que resta é o eco — frágil, mas insistente — de que algo ali existiu. A História do Som é um filme que acredita que esse eco basta. Parte da crítica discorda. Mas o gesto de gravá-lo, ao menos, permanece.
A História do Som é um filme sobre aquilo que não pode ser preservado completamente — nem na música, nem no amor, nem na memória. Oliver Hermanus constrói um drama delicado sobre o eco das experiências humanas que o tempo insiste em apagar. Mesmo quando os cilindros de cera silenciam, algo permanece: a tentativa de registrar o que sentimos antes que desapareça.
