Gandhari: a lenda da rainha cega vira thriller materno na Netflix
Existe uma diferença enorme entre citar um mito e realmente dialogar com ele. Gandhari, novo filme de ação da Netflix estrelado por Taapsee Pannu, começa apostando na segunda opção — e é exatamente aí que se decide se a obra funciona ou apenas se apropria de uma referência forte para parecer mais profunda do que é.
A resposta, adianto, está no meio do caminho.
Uma premissa que nasce da violência, não da devoção
Na tradição do Mahabharata, Gandhari é a rainha que escolhe vendar os próprios olhos por solidariedade ao marido cego, o rei Dhritarashtra. É um gesto de fidelidade levado ao extremo, um sacrifício voluntário que a mitologia indiana trata como virtude.
O filme dirigido por Makhija, com roteiro de Kanika Dhillon, pega essa imagem e a vira do avesso. Bani, personagem de Taapsee Pannu, perde a filha para uma rede de tráfico infantil numa estação de trem lotada e, no mesmo golpe, perde a visão.
Não há escolha, não há devoção: há apenas uma mãe ferida, obrigada a investigar um crime sem poder ver os rostos das pessoas que cruza pelo caminho.
Essa inversão é o motor crítico de todo o projeto. Onde o mito celebra a cegueira como entrega, o filme a trata como mutilação — e propõe que o verdadeiro sacrifício materno não está em desistir de enxergar, mas em continuar agindo mesmo sem essa ferramenta básica.
Joypurra e os Behrupiyas: o cenário como argumento
O acerto mais interessante de Gandhari não está no roteiro em si, mas na construção do espaço em que a história acontece. Joypurra, a cidade fictícia onde Bani busca a filha, é povoada pela tradição real dos Behrupiyas, artistas indianos especializados na arte do disfarce, capazes de assumir identidades inteiramente novas.
Colocar uma protagonista cega para investigar dentro de uma cidade organizada em torno da falsificação de identidades não é apenas uma coincidência estética: é uma escolha de linguagem.
O filme transforma a limitação física de Bani em espelho do próprio ambiente que ela precisa decifrar. Ninguém em Joypurra é exatamente quem parece ser, e ela, sem poder confiar na visão, é obrigada a desenvolver outras formas de reconhecer a verdade.
É um recurso de world-building que poderia render um thriller de investigação genuinamente original, apoiado menos em pistas visuais óbvias e mais em som, memória e intuição. Quando o filme se compromete com essa ideia, ele funciona.
O problema é sustentar a própria ambição até o fim
E aqui mora a tensão central da obra.
Gandhari começa com uma proposta ousada — reler um símbolo mitológico de devoção como alegoria de trauma e resiliência materna — mas nem sempre tem fôlego para sustentar essa ambição estruturalmente. A força da premissa, plantada logo na primeira meia hora, começa a se diluir conforme a trama avança em direção a resoluções mais convencionais de filme de ação.
O desfecho é o ponto mais discutível: depois de construir uma protagonista que precisa reinventar completamente sua forma de perceber o mundo, o filme parece recuar para saídas mais previsíveis exatamente quando deveria radicalizar sua própria lógica. É como se o roteiro tivesse mais coragem para formular a pergunta do que para respondê-la.
Isso não invalida o que veio antes. Mas cria um desequilíbrio perceptível entre a sofisticação do conceito e a resolução da história — o tipo de contradição que separa um filme ambicioso de um filme plenamente realizado.
Por que essa reinterpretação importa
Reler um mito fundador como o Mahabharata pela chave da maternidade contemporânea é um gesto que ultrapassa o entretenimento. Gandhari participa de um movimento mais amplo do cinema indiano recente: pegar arquétipos antigos, historicamente associados a virtudes femininas de sacrifício e obediência, e questioná-los a partir da experiência de mulheres reais, com raiva, limitação e agência.
Ao transformar a cegueira de escolha devocional em ferida que precisa ser superada pela ação, o filme sugere algo desconfortável e necessário: que a devoção não deveria ser o único roteiro disponível para o sofrimento feminino, e que há dignidade também na recusa, na investigação, na fúria funcional.
Isso é o que torna o projeto relevante mesmo quando tropeça na execução.
O saldo final
Gandhari não é um filme redondo, mas é um filme com ideia — e isso, num catálogo de ação genérico como costuma ser o de streaming, já é significativo. A ambição de transformar um símbolo de submissão em símbolo de resistência sustenta o filme por boa parte de sua duração, mesmo quando o desfecho não acompanha a mesma coragem.
No fim, sobra a imagem que resume tudo: uma mulher que não escolheu a escuridão, mas decidiu não se render a ela. É essa escolha, mais do que qualquer reviravolta do enredo, que fica depois dos créditos.








