Um condenado à morte que fala demais, um psiquiatra que ouve de menos, e a pergunta que o filme planta antes mesmo de você perceber
Há uma cena em Nefarious que resume tudo o que o filme quer ser — e tudo o que ele arrisca ao querer ser isso.
Um psiquiatra entra numa cela para avaliar a sanidade de um condenado à morte. O homem sentado do outro lado não pede misericórdia. Ele anuncia, com a calma de quem já sabe o resultado, que vai matar três pessoas antes do fim do dia. Uma delas é o próprio doutor.
O filme começa aí — não com sangue, mas com uma conversa. E é precisamente nisso que reside sua aposta mais ousada: transformar o diálogo em campo de batalha teológico.
Ficha Técnica de Nefarious
- Título original: Nefarious
- Ano: 2023
- País: Estados Unidos
- Duração: 98 minutos
- Gênero: Terror / Thriller Psicológico
- Direção: Chuck Konzelman e Cary Solomon
- Roteiro: Chuck Konzelman e Cary Solomon, baseado no romance de Steve Deace
- Produção: Believe Entertainment
- Elenco principal: Sean Patrick Flanery, Jordan Belfi
- Disponibilidade: Amazon Prime Video, Apple TV
Sobre o que é o filme Nefarious
Nefarious (2023) acompanha o Dr. James Martin, um psiquiatra convocado a avaliar a sanidade mental de Edward Wayne Brady, um serial killer horas antes de sua execução. A missão é burocrática: assinar um laudo atestando que o condenado está em condições psicológicas de ser executado.
O problema começa quando Brady abre a boca.
O homem afirma, com calma absoluta, não ser Edward — mas um demônio que o habita há décadas. E antes que o médico saia daquela cela, anuncia que três pessoas morrerão. Uma delas será o próprio doutor.
O que se segue não é um filme de possessão no sentido clássico. Não há levitação, não há vômito verde, não há cruzes viradas na parede.
O que Nefarious oferece no lugar disso é algo que o gênero raramente tenta: um duelo intelectual.
Durante quase toda a sua duração, o filme se passa dentro de uma única cela, entre dois homens — ou o que parecem ser dois homens — trocando argumentos sobre livre-arbítrio, moralidade, fé e os limites do racionalismo moderno.
A premissa é simples. A execução, inevitável. O que está em jogo, segundo o próprio filme, é a alma de quem assiste.
O que Nefarious quer dizer?
Lançado em 2023 e dirigido por Chuck Konzelman e Cary Solomon, Nefarious chega carregando uma genealogia específica: é adaptação do romance homônimo de Steve Deace, comentarista conservador americano conhecido por sua militância cristã.
Esse contexto não é detalhe — é estrutura. O filme não esconde sua origem nem sua intenção. Ele se posiciona desde o primeiro frame como obra de tese, e a honestidade dessa postura é, paradoxalmente, um de seus pontos mais interessantes.
Numa época em que o cinema de horror espiritualista voltou à moda — de O Conjuro às produções da Blumhouse com verniz teológico — Nefarious escolhe o caminho inverso ao gênero: quase nenhum susto, nenhuma cena de possessão espetacular, sem cruzes viradas ou vozes distorcidas.
O demônio aqui não assusta o corpo. Ele argumenta.
A estratégia do filme: por que o vilão parece mais convincente?
O centro gravitacional do filme é Sean Patrick Flanery no papel de Edward Wayne Brady — ou melhor, da entidade que o habita.
A performance é calculada com precisão desconcertante: sem exagero teatral, sem os registros tradicionais do “possuído” cinematográfico. O que Flanery constrói é algo mais perturbador — um ser que parece completamente à vontade. Confortável. Quase entediado.
Essa escolha estética carrega uma leitura simbólica fundamental: o mal, segundo a lógica do filme, não precisa se disfarçar porque já foi normalizado.
Ele não grita — ele raciocina.
E o que ele raciocina, ao longo dos setenta e poucos minutos de duração, é uma crítica sistemática à modernidade secular: ao relativismo moral, ao aborto, à dissolução da fé como bússola ética.
Aqui o filme joga sua cartada mais inteligente — e também mais arriscada. Ao colocar os melhores argumentos na boca do demônio, Nefarious inverte o dispositivo retórico clássico do gênero.
Normalmente, o mal seduz pela emoção. Aqui, ele seduz pela lógica. O psiquiatra James Martin, interpretado por Jordan Belfi, representa o racionalismo liberal — e o filme o coloca em constante desvantagem dialética.
O duelo psicológico: o demônio contra o psiquiatra
James Martin não é apenas personagem — ele é função narrativa. É o espelho do espectador não-crente, a figura através da qual o filme conduz sua argumentação.
Cada vez que ele hesita, questiona ou recua diante das afirmações do demônio, o filme está, na verdade, encenando o processo de conversão intelectual que espera provocar no público.
Esse dispositivo tem nome na retórica clássica: é a quaestio socrática — o interlocutor que vai sendo desarmado pergunta por pergunta. Mas onde Sócrates levava o interlocutor à aporia como forma de abertura, Nefarious conduz à conclusão específica, doutrinária. A diferença não é pequena.
Isso levanta uma questão que o filme não enfrenta diretamente: quando o debate é roteirizado por um dos lados, ele ainda é debate?
As Fraturas no Argumento
Nefarious tem convicções fortes — e é exatamente por isso que suas contradições doem mais.
O filme acusa a modernidade de relativismo moral, mas opera numa lógica binária absoluta: ou você crê, ou está perdido.
Não há gradação, não há boa-fé fora da fé cristã explícita. O psiquiatra secular é retratado como alguém que, apesar de sua inteligência, simplesmente não enxerga — e a cegueira, aqui, não é trágica. É culpável.
Há também uma fragilidade estrutural no uso do aborto como exemplo central do argumento demoníaco.
A escolha não é inocente — ela conecta o filme a um debate político americano muito específico, ainda aberto, muito carregado.
Ao colocar essa posição na boca de uma entidade maligna que paradoxalmente a defende como prova da corrupção humana, o roteiro cria uma torção lógica que nunca resolve: afinal, o demônio está celebrando o aborto como conquista sua — mas a conclusão a que o espectador deve chegar é que isso prova que o aborto é mau.
O raciocínio depende de aceitar a premissa antes de avaliá-la.
Isso não invalida o filme — mas revela que ele é menos argumento e mais pregação estruturada como argumento.
O que Nefarious revela sobre o mundo atual
Vivemos um momento de retorno ostensivo do religioso ao espaço público — e não apenas nos Estados Unidos. No Brasil, na Europa, em diversas democracias ocidentais, a tensão entre laicidade e valores confessionais voltou ao centro do debate cultural e político. Nefarious é sintoma e instrumento desse movimento.
O filme interessa não apenas pelo que diz, mas pela forma como diz.
Ele representa uma sofisticação da narrativa cristã conservadora no audiovisual: saiu da estética kitsch das produções evangelicais dos anos 1990 e entrou no território do thriller psicológico de câmara. Quer ser levado a sério pelo cinema de arte enquanto fala para um público de fé.
Essa ambição dupla é culturalmente relevante. Ela revela que há um esforço consciente de reocupação de territórios simbólicos — o cinema autoral, o drama intelectual, a crítica filosófica — por parte de uma tradição que havia sido marginalizada nesses espaços.

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Vale a pena assistir Nefarious?
No final, Nefarious funciona melhor como diagnóstico cultural do que como obra aberta.
Ele diz muito sobre o momento que o produziu — a ansiedade conservadora diante de um mundo que parece ter abandonado os marcos fixos de sentido, a busca por uma linguagem cinematográfica que dê dignidade intelectual a uma visão de mundo frequentemente caricaturada.
O demônio que fala bem, que raciocina, que conhece os argumentos do adversário melhor que o adversário — esse é um retrato do medo. O medo de que o mal não venha de fora como monstro, mas de dentro como ideia.
Se o filme convence ou não depende, em última análise, de o que você já acredita antes de entrar na cela.
E talvez seja exatamente isso que ele queira dizer.







