Sacha Baron Cohen e Rosamund Pike em cena de Primeiro as Damas, filme da Netflix sobre inversão de gênero
Cinema | Críticas

Primeiro as Damas: a sátira feminista que recua diante da própria crítica

O que acontece quando um filme sobre inversão de poder recusa, no fundo, qualquer transformação real?


Existe um tipo específico de desconforto que só filmes com premissas corajosas e execuções tímidas conseguem provocar.

Não é a irritação diante do mal-feito, nem a decepção com o medíocre — é algo mais preciso: a sensação de assistir a uma obra que ergueu o dedo indicador apontando para uma ferida social e, na hora de aprofundar o gesto, recuou.

Primeiro as Damas, comédia dirigida por Thea Sharrock e lançada em 2026, pertence inteiramente a essa categoria.


A premissa de Primeiro as Damas

Damien, diretor de uma agência de publicidade, mulherengo convicto e figura socialmente desprezível que se move pelo mundo como se o privilégio fosse um direito natural, bate a cabeça e desperta numa realidade invertida.

Nesse mundo paralelo, são as mulheres que detêm o poder, os cargos, a autoridade moral e o desejo sem culpa.

Ele, agora, é a parte frágil da equação. O que poderia ser dinamite cultural virou, nas mãos de Sharrock e de uma equipe de três roteiristas, um passeio turístico pelo feminismo sem nunca chegar a desembalar a bagagem.


O remake que chegou tarde demais

Antes de qualquer análise estética, é necessário situar a obra dentro da sua própria genealogia — porque Primeiro as Damas não nasce do nada.

O filme é uma refilmagem da produção francesa Eu Não Sou um Homem Fácil (2018), de Eleonore Pourriat, igualmente concebida para o streaming. Em ambas as versões, a estrutura dramática é a mesma: homem arrogante, mundo invertido, lição moral embalada em comédia.

O problema começa aí.

Em 2018, o original francês chegou com o elemento surpresa e uma certa ferocidade irônica que o contexto pós-#MeToo amplificava. Em 2026, o remake norte-americano surge num cenário cultural em que os debates sobre gênero já percorreram dez anos de intensificação pública, algorítmica e política.

Chegar ao mesmo território sem trazer nada de novo não é apenas uma falha criativa — é quase uma declaração de indiferença.

Thea Sharrock, que assinou a emocionante Pequenas Cartas Obscenas em 2023, demonstrava capacidade de trabalhar com materiais delicados sem perder o fio da ironia. Aqui, porém, a câmera parece com medo da própria história.


O Protagonista Como Armadilha Estrutural

Damien é apresentado como alguém que “venceu” pelos padrões capitalistas modernos — dirige uma agência de publicidade prestes a ganhar uma promoção e leva mulheres para a cama todas as noites apenas para se livrar delas no dia seguinte.

Essa apresentação funciona. O personagem é desenhado com clareza suficiente para que o espectador saiba exatamente quem está diante de si, sem precisar de subterfúgios.

O que corrói o filme, no entanto, é uma escolha estrutural revelada gradualmente: mesmo no mundo invertido, mesmo numa narrativa que deveria interrogar os fundamentos do privilégio masculino, é Damien que conduz a história.

É ele o motor propulsor de todos os acontecimentos. As mulheres, inclusive a personagem de Rosamund Pike — que deveria ser o centro moral da sátira — existem em função do arco dele.

Isso não é um detalhe de roteiro. É uma contradição filosófica.

Um filme que quer criticar a centralidade masculina na vida social e profissional e coloca um homem no centro de tudo — inclusive da sua própria redenção — não subverte nada. Apenas reproduz com embalagem diferente.


Sacha Baron Cohen e Rosamund Pike presos a um roteiro acomodado

Tanto Sacha Baron Cohen quanto Rosamund Pike já foram indicados ao Oscar, e se mostram razoavelmente comprometidos com os papéis que aqui têm pela frente. Isso é verdade e merece o reconhecimento.

Baron Cohen é mais eficiente quando ostenta arrogância do que quando precisa performar humildade — e há cenas no primeiro ato em que sua presença física, a postura, o sorriso calculado, compõem um retrato sociológico convincente do homem que acredita merecer tudo.

Pike, por sua vez, tem uma desenvoltura fria que funciona perfeitamente na versão dominante da personagem.

Mas o elenco de apoio — que conta com nomes de respeito como Emily Mortimer, Charles Dance, Fiona Shaw e Richard E. Grant — não é aproveitado na medida que merecia.

Esses são artistas com históricos densos, com capacidade de adicionar camadas de ambiguidade a qualquer cena. Estão aqui como elementos decorativos.

O desperdício diz algo sobre as prioridades do projeto: confortável com a superfície, desinteressado com a profundidade.


O Mundo Invertido Que Não Inverte Nada

A grande aposta conceitual do filme é a construção do mundo paralelo dominado por mulheres. E é justamente aqui que a análise fica mais incômoda.

Nesse mundo ao contrário, as situações não se mostram igualitárias ou ao menos um pouco mais equilibradas: o que se vê é algo tão ruim e distorcido, tendo apenas ocorrido uma inversão de personagens.

A pergunta que o filme levanta — e que poderia ser explosiva — é esta: se as coisas fossem invertidas, como seriam as reações?

Mas a resposta que o roteiro oferece é perigosamente simples.

Ao mostrar que o mundo dominado por mulheres reproduz as mesmas distorções do mundo dominado por homens, o filme escorrega para uma leitura que pode ser facilmente instrumentalizada: a de que o problema não é estrutural, mas humano — e que, portanto, a crítica ao patriarcado se dissolve numa crítica genérica ao poder.

Se não se diz respeito ao sexo, seria o poder esse fator capaz de gerar tal corrupção?

Uma vez perseguida essa ideia, o filme poderia ter sido alçado a um outro nível de reflexão, indo além da mera substituição de papeis esquemáticos. Mas o roteiro não persegue essa ideia. Levanta-a, vislumbra a vertigem, e fecha a porta.


Feminismo como Cenário, Não como Pergunta

Há algo que os filmes sobre gênero produzidos dentro do sistema de entretenimento norte-americano costumam fazer com relativa consistência: utilizar o feminismo como pano de fundo temático sem abrir mão da gramática narrativa que o próprio feminismo questiona.

Primeiro as Damas não é o primeiro a fazer isso, e certamente não será o último.

O problema não é a ausência de engajamento político explícito — nem todo filme precisa ser panfleto. O problema é a incoerência interna.

Quando um filme escolhe a inversão de gênero como premissa central, quando recruta dois atores com trajetórias de prestígio, quando adapta um material que em sua versão original tinha dentes, e depois entrega 90 minutos de comédia previsível com um protagonista masculino em jornada redentora — algo saiu muito errado na cadeia de decisões criativas.

Você se pergunta, em algum momento da projeção, o que Eleonore Pourriat pensaria ao assistir o que fizeram com sua obra.


Um filme que evita suas próprias consequências

O debate percorre temas como misoginia, feminismo e as evidentes diferenças no trato entre homens e mulheres não apenas em um ambiente profissional, mas também num espectro mais íntimo.

Essa urgência existe. O tema existe.

A necessidade de um cinema popular que trate dessas questões com inteligência também existe — e é real, especialmente num momento em que os avanços conquistados por movimentos feministas enfrentam backlash organizado em diversas partes do mundo.

Primeiro as Damas chega a este campo minado com sandálias de borracha. Não explode nada. Não resolve nada. Entrega ao espectador a confortante ilusão de que assistiu a algo relevante sem precisar desafiar nenhuma de suas certezas — seja ele homem ou mulher.

Isso, em certo sentido, é o resultado mais decepcionante possível. Não porque o filme seja ruim em sentido técnico. Mas porque filmes que desperdiçam premissas urgentes têm um custo cultural que vai além do bilhete ou do clique.


No fim, Primeiro as Damas prefere o conforto

Primeiro as Damas poderia ter sido o tipo de comédia que faz o espectador sair do cinema ligeiramente diferente do que entrou. Não transformado, não redimido — apenas um pouco mais consciente de algo que preferia não ver.

Esse é, afinal, o trabalho mais honesto que a sátira pode realizar.

Em vez disso, o filme escolheu ser agradável. Escolheu a resolução previsível, o protagonista que aprende a lição, o mundo que volta ao seu eixo. Escolheu, em última análise, não incomodar quem mais precisaria ser incomodado.

E assim, numa história sobre um homem forçado a enxergar o que sempre esteve diante dele, o filme faz exatamente o que critica: desvia o olhar na hora certa.


Primeiro as Damas (2026) — Ficha Técnica

  • Título original: Ladies First
  • Direção: Thea Sharrock
  • Roteiro: Natalie Krinsky, Cinco Paul e Katie Silberman
  • Elenco: Sacha Baron Cohen, Rosamund Pike, Emily Mortimer, Charles Dance, Fiona Shaw e Richard E. Grant
  • Gênero: Comédia
  • Duração: 90 minutos
  • País: EUA Ano: 2026
  • Onde assistir: Netflix

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