Woody, Jessie, Buzz Lightyear e outros brinquedos observam o tablet Lilypad em uma cena de Toy Story 5.
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Toy Story 5: uma grande pergunta para uma resposta simples

Há uma cena recorrente na saga Toy Story: um brinquedo obsoleto encarando o medo de ser esquecido. Cinco filmes depois, a franquia da Pixar decide fazer algo mais arriscado do que repetir esse medo — ela o desloca.

Em Toy Story 5, o vilão não é uma criança que cresce, mas uma tela que promete substituir o brincar. A escolha é ousada, e é também onde o filme, dirigido por Andrew Stanton e McKenna Harris, revela sua maior virtude e sua maior armadilha.


Sobre o que fala Toy Story 5

Bonnie ganha um tablet chamado Lilypad dos pais, ao se sentir excluída por ainda gostar de brinquedos numa idade em que as amigas já vivem grudadas às telas.

A partir daí, o grupo de brinquedos se divide para tentar recuperar seu lugar na vida da menina: Jessie parte em busca de ajuda e acaba revisitando a fazenda que foi seu primeiro lar, enquanto Buzz assume a tarefa de cuidar da casa.

O filme acompanha essa transição do analógico para o digital, questionando não a tecnologia em si, mas a falta de supervisão ao redor dela.


Uma franquia de trinta anos que ainda arrisca

Toy Story 5 chega às telas quase três décadas depois do filme original, período suficiente para que a própria matéria-prima da saga — a nostalgia analógica dos anos 1990 — se tornasse ela mesma um objeto de museu para o público mais jovem.

O filme sabe disso e usa esse conhecimento a seu favor: com direção de Stanton, um dos nomes históricos da Pixar, e elenco que mantém Tom Hanks e Tim Allen nas vozes de Woody e Buzz, além da chegada de Greta Lee, a produção decide não apenas revisitar seus personagens, mas testar se eles ainda têm algo a dizer sobre a infância de hoje.

É uma aposta de risco: continuar uma franquia amada sempre convida à comparação, e comparação raramente é gentil.


O conflito central: Lilypad contra o brinquedo

O eixo dramático do filme nasce de um dilema simples e atual — Bonnie, incomodada por ainda gostar de brinquedos numa idade em que as amigas já vivem grudadas às telas, ganha dos pais um tablet chamado Lilypad.

É a partir desse presente que o roteiro se abre em camadas, e é também aqui que reside o principal mérito crítico do filme: em vez de tratar a tecnologia como inimiga a ser derrotada, ele constrói um argumento mais maduro, sugerindo que o problema não é a ferramenta, mas a ausência de supervisão e vínculo ao redor dela.

É uma virada de tom pouco comum em narrativas voltadas ao público infantil, que costumam preferir o maniqueísmo fácil entre “tela ruim” e “brinquedo bom”.

Essa complexidade, porém, tem um custo. Ao dividir o filme entre a crise emocional de Bonnie e a jornada paralela de Jessie — que abandona a casa para tentar recuperar o protagonismo perdido e acaba revisitando a fazenda que foi seu primeiro lar — a narrativa multiplica focos de forma que nem sempre sustenta o mesmo fôlego dramático em todas as frentes.

Buzz, encarregado de cuidar da casa enquanto o grupo se separa, ganha um protagonismo que soa mais funcional do que emocionalmente explorado, e a decisão de fragmentar o elenco, tão característica da série, aqui parece menos motivada pela necessidade da história do que pela vontade de dar espaço a personagens novos.


Jessie e o espelho dos brinquedos esquecidos

É no reencontro de Jessie com Rolinho, Atlas e Snappy — trio de brinquedos mais antigos que a vaqueira, deixados numa casinha de bonecas na fazenda — que o filme encontra seu momento de maior honestidade crítica.

Longe da agitação em torno de Bonnie, essa subtrama funciona como contraponto silencioso ao conflito central: Jessie, que teme ser substituída pela tecnologia, se vê confrontada com brinquedos que já vivem exatamente o destino que ela teme.

A ironia é bem construída e evita o sentimentalismo fácil, permitindo que a mensagem sobre gerações e obsolescência se sustente pela situação, não pelo discurso.


Quando a mensagem se sobrepõe à narrativa

O ponto de tensão do filme é o momento em que Bonnie, afetada pelas dinâmicas tóxicas da vida on-line, mergulha em isolamento — um desenvolvimento emocionalmente pesado para uma animação familiar, e que o filme resolve recorrendo à fórmula mais tradicional da franquia: um exército de brinquedos mobilizado para salvar o dia.

A solução funciona como entretenimento, mas simplifica um problema que o roteiro havia se esforçado para tratar com nuance. É uma contradição reveladora: Toy Story 5 quer falar sobre a complexidade da infância contemporânea, mas ainda confia no conforto do resgate coletivo para fechar suas questões mais delicadas.


Por que este filme importa

Toy Story 5 chega num momento em que o debate sobre telas, infância e saúde emocional das crianças ocupa um espaço central na conversa pública, e a decisão da Pixar de não demonizar a tecnologia, mas de pedir presença adulta ao redor dela, é uma postura culturalmente relevante — ainda que discutível para quem espera de um filme infantil respostas mais diretas.

Ao colocar lado a lado o brinquedo analógico e o tablet, a Pixar sugere que o objeto do brincar importa menos do que o vínculo construído em torno dele.

É uma tese que dialoga com ansiedades reais de pais e educadores, e que dá ao filme um propósito que vai além da simples continuação de franquia.


O julgamento que fica

Toy Story 5 não é o filme mais coeso da saga, mas é talvez o mais disposto a arriscar um argumento incômodo: o de que a nostalgia, por si só, não basta mais para justificar a existência desses personagens — é preciso que eles digam algo sobre o presente.

O filme acerta ao recusar o discurso fácil contra as telas e ao encontrar em Jessie seu momento mais verdadeiro, mas tropeça ao resolver sua crise mais séria com a mesma pressa de sempre.

Fica a sensação de um filme que amadureceu junto com seu público, mesmo sem saber, ainda, o que fazer com toda essa maturidade.

Durante quase trinta anos, Toy Story perguntou o que acontece quando uma criança deixa de brincar. Agora, pergunta o que acontece quando ela nunca larga a tela. É a melhor pergunta que a franquia fez em muito tempo. Pena que tenha tanta pressa em respondê-la.


Ficha técnica

  • Título: Toy Story 5
  • Direção: Andrew Stanton e McKenna Harris
  • Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Greta Lee
  • Duração: 102 minutos
  • Estúdio: Pixar / Disney
  • Lançamento: 2026

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