Venom (2018): o anti-herói que recusa a redenção

Eddie Brock metade humano metade Venom no filme Venom 2018 com simbionte cobrindo o rosto

O filme Venom, estrelado por Tom Hardy, apresenta uma proposta incomum dentro do cinema de super-heróis: não contar a história de redenção de um anti-herói, mas a aceitação de um impulso que nunca quis ser controlado.

Há uma cena em Venom (2018) que resume tudo que o filme quer dizer — e talvez mais do que seus criadores perceberam.


Eddie Brock, dentro d’água em um aquário de lagostas, devorando crustáceos vivos enquanto o simbionte toma conta do seu corpo, não está em uma cena de horror.

Está em um momento de libertação.

E é exatamente aí que o filme revela sua aposta mais honesta: não estamos diante de um anti-herói em busca de redenção, mas de um homem que finalmente encontrou permissão para ser o caos que sempre foi.


Ficha Técnica de Venom

  • Título original: Venom 
  • Ano: 2018 
  • País: Estados Unidos 
  • Duração: 112 minutos
  • Direção: Ruben Fleischer 
  • Roteiro: Scott Rosenberg, Jeff Pinkner e Kelly Marcel
  • Fotografia: Matthew Libatique 
  • Estúdio: Columbia Pictures / Marvel Entertainment 
  • Distribuição: Sony Pictures
  • Elenco principal: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed
  • Gênero: Ação / Ficção Científica / Super-herói 
  • Orçamento estimado: US$ 100 milhões 
  • Bilheteria mundial: US$ 856 milhões

Sobre o que é o filme Venom (2018)

Venom é a história de Eddie Brock, um jornalista investigativo que, após ser destruído profissionalmente por enfrentar uma corporação poderosa, entra em contato com um organismo alienígena chamado simbionte. 

A fusão entre os dois cria Venom — uma entidade híbrida, violenta e instável, que precisa decidir se vai proteger ou devorar o mundo que a rejeita.

No fundo, é um filme sobre coexistência forçada. Dois seres incompatíveis que descobrem, aos poucos, que se precisam.


A origem de Venom e o contexto da Sony Pictures

Venom chega ao cinema em 2018 dentro de um contexto muito específico. 

A Sony Pictures, detentora dos direitos do Homem-Aranha e de seu universo de personagens, tentava construir uma franquia paralela ao MCU sem poder contar com o personagem central. 

O resultado é um filme que nasce de uma contradição estrutural: um spin-off sem origem, um vilão sem herói para antagonizar, uma história de simbiose sem o corpo que lhe daria sentido pleno.

Mas essa contradição, longe de destruir o filme, define seu tom. Venom é um produto do desconforto institucional — e isso transpira em cada decisão narrativa.

Ruben Fleischer dirigiu com a consciência de que precisava vender um personagem que, nos quadrinhos, é inseparável do trauma de Peter Parker. 

Sem essa âncora, o roteiro precisou reinventar Eddie Brock como protagonista pleno: jornalista de investigação, idealista destruído pelo sistema, homem que perdeu emprego, relacionamento e reputação por tentar fazer a coisa certa. 

Um perdedor com princípios — arquétipo muito mais contemporâneo do que parece.


O simbionte em Venom: significado psicológico

A relação entre Eddie e Venom funciona, no plano simbólico, como uma externalização do inconsciente. O simbionte diz o que Eddie não pode dizer. Age onde Eddie hesita. Devora o que Eddie desejaria destruir.

Existe uma tradição longa na literatura e no cinema de usar o “outro interior” como dispositivo narrativo — de Jekyll e Hyde a Clube da Luta. Mas Venom faz algo ligeiramente diferente: não trata essa dualidade como patologia a ser superada.

A fusão entre Eddie e o simbionte não é um problema a resolver. É a solução.

Quando Venom diz, em voz alta, que Eddie é seu “único amigo”, o filme não está sendo ingênuo. Está propondo que o único vínculo genuíno do protagonista é com a parte de si mesmo que a sociedade rejeita. 

A violência, o apetite, o excesso — tudo que Eddie aprendeu a suprimir encontra no simbionte não um inimigo, mas um cúmplice.

Isso ressoa porque toca em algo que o espectador contemporâneo reconhece: a exaustão de performar contenção.


A estética irregular de Venom (2018)

Venom é frequentemente criticado por seu tom irregular — e a crítica não é injusta. O filme oscila entre thriller de ficção científica, comédia física e filme de ação sem jamais se comprometer plenamente com nenhum desses registros.

Mas essa irregularidade pode ser lida como coerência temática involuntária. Um filme sobre um ser que não cabe em nenhuma categoria não deveria, talvez, caber em nenhum gênero.

Tom Hardy entrega uma performance deliberadamente excessiva — tiques, gaguejos, movimentos bruscos, reações desproporcionais. É uma atuação que recusa o heroísmo elegante do cinema de super-heróis mainstream. 

Eddie Brock tropeça. Grita. Come lixo. Tem crises. E o simbionte, quando emerge, é feito de sombra e dentes — uma presença que deve incomodar visualmente antes de impressionar.

A fotografia de Matthew Libatique reforça essa lógica: paleta escura, enquadramentos que sufocam o protagonista, São Francisco filmada não como cartão-postal mas como labirinto urbano. A cidade não acolhe Eddie — ela o pressiona.


Problemas do filme Venom: o que não funciona

As fragilidades de Venom são reais e vale nomeá-las sem condescendência.

O vilão, Carlton Drake, interpretado por Riz Ahmed, é desperdiçado de forma quase criminosa. Ahmed é um ator de raro talento, e o roteiro lhe oferece um arquétipo plano: o bilionário tecnocrático que acredita genuinamente estar salvando a humanidade ao sacrificá-la. 

É uma ideia com potencial — o paralelo entre Drake e Eddie como dois homens possuídos por suas obsessões é sugerido, mas nunca desenvolvido.

A resolução narrativa também escorrega. O terceiro ato recorre à lógica mais convencional do gênero: confronto físico, explosão, sacrifício simbólico, reestabelecimento da ordem. 

Para um filme que passou uma hora desafiando a estrutura heroica clássica, o desfecho parece capitular exatamente onde deveria arriscar mais.

E há uma questão de classe que o filme levanta sem ter coragem de aprofundar. Eddie é um jornalista destruído por uma corporação poderosa, em uma cidade onde a desigualdade é brutal. 

O conflito tem potencial político real — mas Venom prefere transformá-lo em conflito pessoal, individualizando o que poderia ser crítica estrutural.


Por que Venom fez sucesso em 2018

Há algo sintomático no sucesso inesperado de Venom — o filme foi amplamente criticado pela imprensa especializada e igualmente amado pelo público geral, arrecadando mais de 850 milhões de dólares globalmente.

Essa dissonância não é acidental. Venom chegou em um momento de saturação do modelo heroico hegemônico. O MCU havia estabelecido uma gramática dominante: heróis carismáticos, arcos de redenção bem calibrados, humor calibrado, emoção calibrada. 

Tudo dentro de parâmetros precisamente testados.

Venom é o contrário disso. É irregular, excessivo, às vezes ridículo. E o público — especialmente o público jovem — reagiu a essa irregularidade como alívio.

Existe um desejo cultural crescente por personagens que não precisem ser bons para serem amados. Que possam ser contraditórios, destrutivos, estranhos — e ainda assim merecedores de empatia. Venom preencheu esse espaço com seus oitenta dentes e seu apetite por cabeças humanas.

O simbionte, afinal, não pede permissão para existir.


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O final de Venom explicado

Venom termina onde começa: com Eddie e o simbionte negociando os termos de uma coexistência impossível. Não há cura. Não há separação definitiva. Há apenas o acordo tácito entre um homem e sua sombra de que vão continuar juntos — e que isso, por alguma razão, é suficiente.

É um final curiosamente honesto para um filme tão confuso. A redenção não vem. A ordem não é plenamente restaurada. O monstro não foi derrotado — foi absorvido, tornado cotidiano, tornado necessário.

Talvez seja isso que o público sentiu, mesmo sem articular: que Venom não é sobre superar o lado sombrio, mas sobre aprender a habitá-lo. E que essa negociação permanente entre o que somos e o que suprimimos é, ela mesma, uma forma de sobrevivência.

Alguns simbiontes não nos destroem. Eles apenas revelam o que já estava lá.

No fim, Venom (2018) não é apenas um filme de super-herói — é uma reflexão sobre identidade, instinto e convivência com o próprio caos.


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