Emily Blunt observa fenômeno misterioso em Dia D, filme de ficção científica dirigido por Steven Spielberg.
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Crítica de Dia D: O Novo Filme de Spielberg é um Manifesto Sobre o Ato de Ver

O novo filme de Steven Spielberg não é apenas um thriller de ficção científica. É um manifesto disfarçado de blockbuster — e ele começa pelos seus olhos.


Há uma expressão que circula entre cinéfilos para descrever algo muito específico na obra de Steven Spielberg: o “rosto de Spielberg.”

Não se trata de um recurso técnico com nome catalogado em manuais de roteiro, mas de um gesto cinematográfico quase litúrgico. É o plano do rosto humano confrontado pelo impossível — a mandíbula que cai, os olhos que se arregalem, o corpo que paralisa diante daquilo que a linguagem ainda não aprendeu a nomear.

Sam Neill vendo dinossauros. Richard Dreyfuss diante da luz. Tom Cruise sob a sombra de uma máquina alienígena. Dia D, lançado em junho de 2026, é o filme em que Spielberg para de apenas executar esse gesto e começa a interrogá-lo.

Spielberg e o retorno à ficção científica

Aos 79 anos, Spielberg retorna ao gênero que o transformou em mito.

Depois da cinebiografia Os Fabelmans, onde ele dissecou sua própria infância e sua relação com o cinema de forma abertamente confessional, Dia D representa uma escolha aparentemente inversa: voltar ao espetáculo, à ficção científica, ao thriller de perseguição com escala de blockbuster.

Mas a aparência engana. O que Spielberg fez foi deslocar a autobiografia para o plano das ideias.

O filme acompanha Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em cibersegurança que foge de uma agência secreta após descobrir que ela suprimia evidências de contato extraterrestre por décadas.

Junto com o idealista Hugo Wakefield (Colman Domingo), ele busca vazar esse material para o mundo, cruzando o caminho da repórter Maggie (Emily Blunt), cuja ligação inexplicável com os alienígenas se tornará o eixo mais rico do roteiro.

O antagonista é Noah Scanlon, interpretado por Colin Firth com a caricatura calibrada que a função exige — o burocrata do segredo, o guardião do não-ver.

A premissa é clássica dentro do gênero. O que Spielberg faz com ela não é.

O Espetáculo Como Questão Filosófica

Há um movimento curioso no coração de Dia D: o segredo que os personagens querem revelar já foi descoberto.

O mistério não é o motor da trama — a divulgação é. Isso desloca o filme de um thriller de revelação para algo mais próximo de um ensaio sobre recepção. O que importa não é o que os alienígenas são, mas o que acontece quando alguém os vê.

Spielberg e David Koepp, seu parceiro de roteiro, constroem um mundo onde tensões nucleares escalam no noticiário e o apocalipse já é pauta de horário nobre.

Nesse contexto saturado de imagens e ruído, a pergunta que o filme coloca é perturbadora: o que ainda tem o poder de nos deslumbrar? O que consegue furar o cinismo, a distração, a fadiga de crise?

A resposta que Dia D oferece é formal antes de ser narrativa. Spielberg não argumenta com diálogos — ele argumenta com composição.

Suas imagens organizam cada cenário como um tabuleiro onde o extraordinário aguarda nos cantos do quadro.

A câmera se move com a precisão de um pensamento, não de uma ação. Quando ela gira, o espectador não sente a mecânica — sente o arrepio.

A sequência do trem, já celebrada antes mesmo do lançamento, não é apenas um set piece de ação. É uma demonstração de força sobre como o espaço cinematográfico pode ser habitado de forma que o corpo do espectador responda antes que sua mente processe.

O filme sobre o ato de olhar

Maggie não é a protagonista no sentido convencional. Ela entra no filme como obstáculo e vai se tornando, gradualmente, a câmera emocional da história.

É através dos olhos dela que o público entra em contato com a dimensão do impossível — e Emily Blunt entende isso com uma precisão que transcende o roteiro escrito.

A atriz opera em dois registros simultaneamente: o da mulher prática e inquieta que lida com o inexplicável com ceticismo profissional, e o da figura que carrega uma ferida que o filme demora a nomear.

Quando esses dois registros colidem — em cenas que pedem tanto comédia física quanto silêncio emocional — Blunt encontra uma síntese que poucos atores conseguiriam.

Não por acaso, é o arco dela que o roteiro não pode abandonar. Daniel e Hugo têm missão; Maggie tem destino.

Essa distinção importa.

Missão é escolha consciente. Destino é o que acontece quando algo maior do que você decide atravessar sua vida. E é exatamente dessa colisão que Dia D extrai sua carga mais perturbadora.

O Que o Filme Não Diz — e Por Que Isso Também É Spielberg

Não seria honesto ignorar os limites de Dia D.

Os temas que o filme levanta — religião, guerra, mídia, fé — permanecem na superfície com uma deliberação que pode frustrar quem espera aprofundamento ideológico. O filme toca em cada um desses pontos como atalhos para sua tese central, sem jamais habitá-los com a complexidade que merecem.

Daniel, o protagonista oficial, permanece funcionalmente vazio durante boa parte da narrativa. O’Connor é um ator capaz de muito mais do que lhe é pedido, e há uma sensação recorrente de que o personagem existe mais como dispositivo de plot do que como presença humana.

Isso não afunda o filme, mas cria uma assimetria: quanto mais Maggie cresce, mais Daniel parece uma sombra no mesmo quadro.

Há também a questão de Dia D chegar aos cinemas semanas depois do governo Trump liberar documentos sobre OVNIs — uma coincidência que carrega ironia própria.

Num momento em que a revelação extraterrestre migrou do território da fantasia para o do noticiário político, o filme escolhe tratar o assunto como espetáculo mítico e não como comentário satírico. Essa recusa pode ser lida como elegância ou como esquiva. Provavelmente é as duas coisas.

Ver Juntos, Ou: Por Que Isso Importa em 2026

Existe uma dobradinha não planejada, mas reveladora, entre Dia D e Não! Não Olhe!, de Jordan Peele.

Ambos os filmes constroem argumentos sofisticados sobre o ato de ver o impossível — e sobre o que fazer com essa visão depois. Peele trabalha com o horror do olhar compulsivo, com a câmera de celular como vício e armadilha. Spielberg trabalha com a tela como redenção, como espaço de reunião.

Não é coincidência que Dia D seja, em sua essência, um filme sobre distribuição. Os personagens não apenas querem ver — querem que todos vejam. As telas de computador, televisão e celular que aparecem na narrativa não são obstáculos à experiência. São o seu destino.

Num tempo em que o cinema enfrenta a concorrência das plataformas, a fragmentação da atenção e o isolamento das experiências, Spielberg faz um filme que argumenta, do primeiro ao último frame, pelo valor insubstituível de ser atingido por uma imagem ao lado de outras pessoas.

Não como nostalgia. Como política.

Talvez seja essa a aposta mais arriscada — e mais coerente — de toda a obra.

A Humanidade do Queixo Caído

No final, Dia D não precisa resolver todas as suas tensões para ser um filme poderoso. Ele precisa fazer o que propõe: criar o momento em que você, sentado na escuridão da sala, sente que algo atravessou sua defesa e chegou até um lugar que você não sabia que ainda estava disponível.

Spielberg sabe o que faz há cinquenta anos. O que ele descobriu, aqui, é que o gesto de causar deslumbramento e o gesto de refletir sobre ele não precisam ser atos separados.

Quando Maggie vê o que vê — e quando você vê pelo rosto dela o que ela está vendo — o filme completa seu argumento sem precisar de uma palavra.

O queixo cai. Os olhos se abrem. E por um instante, toda a humanidade ocupa o mesmo rosto.

Isso é Spielberg. Isso sempre foi.

Ficha Técnica – Dia D (Disclosure Day)

Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Spielberg e David Koepp
Elenco principal: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colman Domingo, Colin Firth, Eve Hewson
Gênero: Ficção Científica / Thriller
Duração: 145 minutos
Classificação: 14 anos
Distribuição: Universal Pictures
Ano: 2026

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