Lanternas prova que nem todo herói precisa salvar o mundo para justificar o anel
Existe uma pergunta incômoda pairando sobre toda nova adaptação de super-herói: o que essa história faz que as outras cinquenta não fizeram? Com Lanternas, produção que estreou na HBO Max em agosto, a resposta é surpreendentemente simples — ela desacelera.
Numa paisagem saturada de universos expansivos e crises multiversais, a nova série da DC aposta no oposto: dois policiais espaciais, um cadáver, uma cidadezinha do Nebraska e uma investigação que insiste em se comportar como drama policial antes de qualquer coisa.
A aposta funciona na maior parte do tempo: Lanternas é melhor quando esquece que é super-heroica, e mais hesitante quando se lembra.
O fantasma de 2011 ainda ronda o anel
Não é possível avaliar Lanternas sem lembrar o que veio antes dela. O filme Lanterna Verde de 2011 continua sendo um dos fracassos mais citados do gênero, um lembrete de como a mitologia cósmica dos Lanternas pode soar ridícula quando tratada com leveza excessiva.
A nova série, parte do capítulo “Deuses e Monstros” da reformulação do universo DC conduzida por James Gunn e Peter Safran, chega carregando essa história recente como peso e como oportunidade.
A escolha de showrunners diz muito sobre a estratégia adotada: Chris Mundy, produtor de True Detective: Night Country, Tom King, roteirista de quadrinhos habituado a humanizar figuras extraordinárias, e Damon Lindelof, que já provou com Watchmen ser capaz de tratar material de super-herói com peso dramático real.
A combinação sugere uma intenção clara — tirar o Lanterna Verde do território do espetáculo puro e colocá-lo dentro de um procedimento policial adulto, sombrio, quase noir.
Dois Lanternas, duas formas de carregar o poder
O maior trunfo de Lanternas está na dupla protagonista, e é aqui que a série realmente convence. Kyle Chandler interpreta Hal Jordan como um homem cansado da própria lenda, alguém que já viu o suficiente do cosmos para ter perdido o encanto, mas não a arrogância.
Aaron Pierre, como John Stewart, faz o movimento oposto: contido, observador, um ex-atirador de elite que trata o anel como ferramenta de precisão, não de improviso.
O contraste não existe apenas para gerar atrito cômico entre mentor e pupilo — embora gere, e com humor genuíno. Ele existe porque os dois personagens enxergam poder, responsabilidade e a própria função de maneiras opostas, e a trama usa essa divergência para sustentar tensão dramática real.
É uma escolha de roteiro inteligente: transformar diferença de temperamento em motor narrativo, em vez de apenas em piada recorrente.
O restante do elenco também cumpre seu papel. Kelly Macdonald, como a xerife local, e Garret Dillahunt, como um bilionário de moral escorregadia, ajudam a ancorar a trama em terra firme — o que é, aliás, onde a série tende a funcionar melhor.
Quando o crime encontra o cosmos
É na fusão entre os dois gêneros que Lanternas mostra suas fissuras. A ambição de operar simultaneamente como investigação policial sombria e como épico de super-herói cósmico produz momentos de fricção genuína.
As sequências mais próximas do procedimento policial — a cidade pequena, os segredos enterrados, o crime que revela uma conspiração maior — funcionam com convicção.
Já a ação em maior escala, especialmente quando os elementos cósmicos assumem o primeiro plano, às vezes tropeça na confusão entre espetáculo e clareza narrativa, misturando caos visual com empolgação sem necessariamente conquistar as duas coisas.
Essa tensão entre os dois registros não chega a comprometer a série, mas explica por que ela divide opiniões: quem quer um thriller adulto e sombrio pode sentir que os elementos de super-herói atrapalham; quem quer mergulhar de cabeça na mitologia dos Lanternas pode achar o ritmo policial arrastado demais.
A estrutura em duas linhas temporais — 2016 e os dias atuais — ajuda a administrar esse equilíbrio, entregando revelações graduais sem depender de exposição excessiva, mas também é ela que, no terço final da temporada, parece perder um pouco do fôlego que construiu até ali.
O que Lanternas entende sobre a fadiga dos super-heróis
O verdadeiro teste de Lanternas não é técnico, é conceitual: ela precisa provar que ainda existe espaço narrativo dentro do gênero de super-heróis para contar histórias pequenas, íntimas, sobre pessoas comuns lidando com poder extraordinário.
Nisso, a série acerta mais do que erra. Ao recusar a fórmula batida da origem heroica e da sequência de efeitos visuais vazia, Lanternas aposta em algo mais raro — personagens que carregam consequências humanas, não apenas cósmicas.
Isso a torna relevante num momento em que o público de super-heróis dá sinais de fadiga. A série não reinventa o gênero, mas demonstra que ele ainda pode ser reformulado quando os criadores levam a sério tanto o drama humano quanto a fantasia que o envolve.
O julgamento que fica
Lanternas não é a revolução que alguns anunciaram, nem o desastre que o fantasma de 2011 fazia temer. É uma série que entende exatamente o que quer ser na maior parte do tempo — e que tropeça precisamente quando tenta ser tudo ao mesmo tempo.
A química entre Chandler e Pierre carrega a produção mesmo nos momentos em que o roteiro hesita entre o crime e o cosmos. Se o Lanterna Verde precisava de uma prova de que sua mitologia sobrevive fora dos quadrinhos, ela está aqui — não brilhando o tempo todo, mas brilhando o suficiente para justificar o juramento.








